Duas gerações do cinema brasileiro serão homenageadas na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes, promovida de 21 a 29 de janeiro, na cidade histórica mineira. De um lado, o diretor carioca Paulo Cesar Saraceni, representante do cinema brasileiro moderno, que teve seu auge nos anos 1960 e 1970. De outro, Irandhir Santos (Tropa de Elite 2), ator de teatro pernambucano, que começou recentemente sua incursão pelo cinema nacional (em 2005, em Cinema, aspirinas e urubus) e pode ser visto como legítimo representante pernambucano da nova ´safra` de fora do eixo. Nos últimos cinco anos, atuou também em Besouro (2009), Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009), Olhos azuis (2009) e Baixio as bestas (2006).
Depois de alguns curtas e longas nordestinos, Irandhir Santos ganhou o país em Tropa de Elite 2 Foto: Alexandre Lima/Divulgacao Durante o festival, que este ano elegeu como tema ´Inquietações políticas`, serão exibidas obras da filmografia de Saraceni e Irandhir. Na abertura, a tela será aberta para o novo longa do cineasta carioca, O gerente, baseado no conto de Carlos Drummond de Andrade, sobre um gerente de banco que tinha como fetichemorder as mãos das mulheres da sociedade.
´A proposta da Mostra de Tiradentes é poder exibir e refletir sobre a estética da obra, discutir políticas públicas e formas de fazer. E, principalmente, discutir o que estamos vendo. O evento foi se firmando como momento de aprofundarmos sobre como o cinema nacional está se apresentando no presente. O festival de Ouro Preto (Cine OP) está mais voltado ao passado e o de Belo Horizonte (Mostra Cine BH) para o mercado`, esclarece Raquel Hallak, coordenadora da mostra mineira.
´Estamos observando o cinema apresentado em 2009 e 2010, e o que virá em 2011. A política tratada na forma de olhar, como fruto de uma transformação de organização social. É o cinema como retrato de nossa identidade, ´ afirma Raquel, lembrando temáticas que estão sendo debatidas na tela grande, cujo principal representante ou melhor exemplo é Tropa de Elite 2. ´Vejo este filme, que é totalmente diferente do primeiro, como grande instrumento até para essa operação que vem sendo feita no Rio de Janeiro. E é este o papel do cinema, mostrar na tela a abertura da política como forma de transformação social. O novo olhar do diretor faz parte de um amadurecimento`, defende a coordenadora da Mostra. ´O que já pôde ser visto em Brasília. O cinema brasileiro está sendo feito por jovens. E essa é uma tendência inclusive mundial`.
Raquel Hallak atribui essa mudança às novas tecnologias e à facilidade de produção atual. ´Antigamente, era preciso ter uma carreira para filmar. Ter acesso político para viabilização dos recursos, financiamento. Hoje, os jovens estão fazendo cinema com o que têm em mãos. O processo coletivo é muito grande e isso é visível no Nordeste, fora do eixo Rio-São Paulo`, analisa. Para ela, tudo isso resulta em uma ´forma de olhar mais desprendida, mais livre. Não é preciso negociar o que será abordado. Associar determinada ideia a uma marca. Isso é o retrato do cinema independente, de uma nova estética`.
´As homenagens (Saraceni e Irandhir) compõem espécie de plano e contraplano histórico, sem necessária distinção de quem é uma coisa ou outra. Cada um deles surgiu para o cinema em momentos distintos`, explica Raquel. E completa: ´Saraceni é pré- Cinema Novo, se tomarmos seus curtas e seu primeiro longa como referências, e também protagonista do movimento, embora sempre com um olhar próprio, sem igual em sua turma. Nos anos 1990 e 2000, assim como ocorreu com quase toda a sua geração, filmou sem frequência. Quando filmou, porém, não se acanhou: ousou!`. Entre os filmes a serem exibidos em homenagem a Saraceni, seu primeiro curta Arraial do Cabo (1959), premiado na Itália, além de Porto das Caixas (1962), seu longa de estreia.
´Irandhir é um dos rostos de um cinema brasileiro jovem, de diretores entre 20 e 40 anos, com poucos longas nas costas. Essa é a faixa etária que, na prática, hoje movimenta a produção no Brasil. Nos últimos 10 anos, não foram poucos os atores e diretores a estrear nas telas, com uma renovação proporcional em outras atividades da realização`, lembra Raquel. Irandhir surge nessa cena também marcada pelas revelações e confirmações de Lázaro Ramos, Wagner Moura, Hermila Guedes, João Miguel, todos, por coincidência ou não, nascidos e formados na Bahia e em Pernambuco. ´Sinal de que, quase sempre concentrado no Rio e São Paulo, o foco mudou. E a filmografia do ator é composta quase exclusivamente de nordestinos: Daniel Bandeira, Claudio Assis, Kleber Mendonça Filho, Marcelo Gomes e Karin Ainouz.` (Gracie Santos)