A polêmica em torno do Prêmio Jabuti de Livro do Ano, na categoria ficção, dado ao romance Leite derramado, de Chico Buarque, tem colocado em evidência os interesses comerciais e ideológicos que existem por trás dos concursos literários. Em meio ao confronto entre dois gigantes do mercado editorial (Record X Companhia das Letras), deflagrado este ano via declarações, artigos veiculados na imprensa nacional e petições entre fãs e opositores de Chico, o Diario resolveu investigar como funcionam os três principais prêmios de literatura do país.
Foto: Oficio da Imagem/Divulgacao Prêmio Jabuti
Epicentro da atual crise editorial, o Prêmio Jabuti é considerado o concurso mais tradicional do país. Com 52 edições de história, o prêmio concedido pela Câmara Brasileira de Livro (CBL) é dividido em duas etapas. Na primeira, um júri especializado escolhe os vencedores das 21 estatuetas, divididos entre categorias técnicas e autorais.
De acordo com o regulamento, os dois prêmios de livros do ano (de ficção e não-ficção) são escolhidos por meio de votação feita com os mais 500 associados da CBL, que elegem os vencedores entre os três primeiros colocados das categorias que envolvem os escritores.
Pernambucano Raimundo Carrero e jornalista Edney Silvestre na premiação paulista Foto: Marcia Alves/Divulgacao Por conta disso, nem sempre o Livro do Ano coincide com o vencedor da sua categoria. Enquanto a escolha da primeira etapa é pautada por critérios técnicos, os livros do ano seguem a lógica do mercado pela presença de livreiros na votação.
Prêmio São Paulo de Literatura
Dono da maior premiação em dinheiro do país, o Prêmio São Paulo de Literatura só existe há três anos e já conquistou o status de sero concurso com maior prestígio. O prêmio privilegia o gênero do romance e mantém apenas duas categorias: de melhor livro e de melhor autor estreante. ´O objetivo principal era chamar atenção para o livro, então achamos que, se fosse um único prêmio, íamos virar notícia. Escolhemos o romance por ser um gênero mais acessível para ler`, explicou André Sturm, coordenador da Unidade de Fomento e Difusão de Produção Cultural da Secretaria da Cultura e responsável pelo prêmio.
A primeira triagem é feita por um júri composto por críticos, pesquisadores e escritores; definidos pelo conselho curador da Câmara Setorial de Literatura de São Paulo. Nessa fase, Sturm conta que é solicitado aos jurados que elaborem uma lista diversficada, mas pautada na qualidade. Eles escolhem os dez finalistas de cada categoria e passam a bola para os cinco jurados que definem os vencedores.
´A única coisa que a gente pede é que eles escolham o melhor livro. Não estabelecemos nenhum critério, deixamos eles livres para escolher`, diz Sturm. Por conta da importância do concurso, ele revela que a organização tem a preocupação de preservar o nomes dos integrantes do júri. ´Temos que anunciar os jurados por ser um prêmio público, mas tentamos não dar muita visibilidade a isso para evitar pressão. Nunca tivemos nenhum relato nesse sentido`, observa.
Prêmio Portugal Telecom
O Prêmio Portugal Telecom aposta numa metodologia transparente para definir os jurados e as obras vencedoras, escritas em língua portuguesa. Na primeira etapa participam 300 profissionais ligados à literatura, que definem por voto quem serão os semifinalistas e o júri intermediário composto por 11 integrantes (sendo cinco definidos pela maior votação por região e os outros seis pelos votos gerais). Esses fazem uma nova triagem, definem os dez livros finalistas e seis de seus membros para integrar a etapa final.
A poetisa e professora da UFPE Lucila Nogueira, jurada final da edição de 2003, lembra que a escolha era fruto de uma série de quatro discussões. Ela ainda ressalta a importância da divisão regional na composição do júri, como uma maneira de consolidar a abrangência do prêmio. ´Se fosse possível, eu brigava. Fiquei muito satisfeita em conseguir convencer a deixar Luzilá Gonçalves e Alberto da Cunha Melo entre os finalistas`, diz.
Na edição deste ano, o também professor de Letras da UFPE Lourival Holanda esteve no júri final. Com a experiência de também ter participado da edição de 2005, que premiou Os lados do círculo de Amílcar Bettega Barbosa, Holanda conta que não recebeu qualquer pressão por parte dos escritores e editoras concorrentes. ´A pressão que existe é corporativa, porque estamos entre amigos que partilham dos mesmos interesses. Discordar de pessoas como Regina Zilberman, que tem um trabalho que admiro, é um pouco difícil`, explica.
Para ele, o critério que se estabeleceu nas suas duas participações no Portugal Telecom foi artístico, baseado em avaliações estéticas. ´O critério que sigo é o da busca por um texto que traga novidades na linguagem e que seja modelar, no sentido de servir como modelo`, aponta o professor. Mesmo sem considerar Leite derramado extraordinário, Holanda defende a escolha do romance como vencedor do Portugal Telecom deste ano devido ao nível mediano dos concorrentes. ´Não tinha nenhum grande texto que pudesse superá-lo, exceto Caim (de Saramago) que saiu da disputa`, observa.