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Polêmica deixa a internet e chega às calçadas
Campanha presidencial toma corpo com debates sobre fé, aborto e homossexualismo
Silvia Bessa
silviabessa.pe@dabr.com.br


Andréa comentou com a mãe Zezita, Zezita ligou para a vizinha Marta, Marta levou o questionamento para a filha Adriana. A dúvida, a curiosidade e o interesse sobre a eleição, os valores religiosos, morais e a trajetória de vida dos dois candidatos da campanha presidencial de segundo turno acabaram em conversas noturnas de beira de calçada com Zezita, Marta, Adriana e foi estendida para as amigas Maria, Zuila, Nancy, Ana, Luiz, Flávio e até para o pequeno Gabriel, de oito anos. Com pouco ou nenhum interesse por política, o grupo da Rua José de Vasconcelos, no bairro da Tamarineira, no Recife, despertou para o debate quando temas como fé, aborto, homossexualismo e preconceito regional chegaram aos ouvidos dos conhecidos, tendo o disse-me-disse começado sabe-se lá onde. "Dizem que foi na internet", conta a dona de casa Zezita Aguiar, 75 anos. "Minha filha, só sei que rendeu muita conversa e está todo mundo falando sobre o voto".


Política virou assunto do encontro noturno na Rua José de Vasconcelos, no bairro da Tamarineira Foto: Nando Chiappetta/DP/D.A Press
Travada entre a ex-ministra Dilma Rousseff(PT) e o ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB), a campanha no meio virtual ficou mais evidente no final do primeiro turno com a participação dos defensores da ex-candidata do PV, a evangélica Marina Silva (PV). Tomou corpo e, sem bater a porta, entrou para o mundo real das ruas, filas de bancos e salas de estar. Hoje, pelo efeito rápido e ameaçador, a internet é a maior preocupação das equipes de Dilma e Serra - atestam os coordenadores nacionais das campanhas dos candidatos na rede, Marcelo Branco (Dilma) e Soninha Francine (Serra), em entrevista ao Diario.

"Acho que todos a subestimaram e agora estão enfrentando as consequências", sentencia Antônio Carlos Xavier, coordenador do Núcleo de Estudos do Hipertexto e Tecnologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). "Só no fim da campanha, os candidatos perceberam o potencial da propaganda viral, capaz de fazer do pingo uma chuva", completa ele, que é doutor em linguística pela Unicamp e especialista em mídia eletrônica. No último mês, a internet, até então relegada a coadjuvante, tornou-se personagem principal. Nada como na campanha de Barack Obama, nos Estados Unidos, mas na reta final aparece com papel de destaque relevante e histórico.

Antes de Dilma, Serra e Marina se darem conta do como, o imbróglio envolvendo fé, aborto e homossexualismo se acomodou em caixas de e-mails, correu via redes sociais e de relacionamentos - Facebook, Orkut e Twitter -, forçou posicionamentos de entidades, a exemplo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e parou nas calçadas, como a do bairro da Tamarineira. "Foram muitos boatos. De onde saíram não sei, mas soube que teve negócio de vídeo, de mensagem de e-mail falando que Dilma é a favor do aborto", conta Marta L'Amour. "E que também falou que só Jesus tiraria a eleição dela", conta. "Vó, também disseram que Serra disse que não gostava de nordestino", solta Gabriel. "Ele não disse isso, não, menino", rebate a mãe do garoto, Adriana. "Mas alguém aqui ouviu a própria Dilma falando que era a favor do aborto? Eu mesmo não", comenta Zezita, para o silêncio geral.

Todos esses boatos têm sido desmentidos pelos candidatos e seus aliados. Sem entrar no mérito do 'sou a favor' ou 'sou contra' o aborto e casamento gay - que vai além da esfera política, a questão é: a internet engrossou o debate sobre pontos polêmicos e colocou à prova partidos, coordenações de campanhas e candidatos. Desde o fechamento das urnas domingo, Dilma e Serra rebatem o que circula na internet com igual rapidez à rede. Para não ser tarde demais, como foi para Dilma, que dormiu esperançosa com a vitória em apenas um tempo e obteve 46,9% dos votos válidos para 32,6% de Serra e 19,3% de Marina.


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Edição de domingo, 10 de outubro de 2010 
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