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Gilberto, Getúlio e Parati

Josué Souto Maior Mussalem // Economista
jmussalem@hotmail.com

A recente feira do livro de Parati/RJ, que teve como tema central o sociólogo-antropólogo Gilberto Freyre trouxe, mais uma vez, velhas questões de discordância entre intelectuais da esquerda falida brasileira e o grande pernambucano.

A começar pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a quem Florestan Fernandes nos anos cinquenta apresentou, por carta, ao próprio Gilberto como um promissor sociólogo, seguido de outros estudiosos menos votados e também muito menos conhecidos. É impressionante essa rixa da esquerda uspiana com a obra germinal e internacional de Freyre. A esquerda brasileira que já teve como um de seus luminares o próprio FHC tem inveja de Gilberto Freyre. Sofre tal esquerda da síndrome de Caim. De acordo com os escritos da Igreja Católica Apostólica Romanna Caim matou seu próprio irmão Abel por inveja. De lá pra cá essa síndrome atormenta milhões de pessoas. Gilberto ao contrário era uma pessoa tolerante e sabia perdoar.

Em1942, por exemplo, Gilberto e seu pai foram presos pela polícia do Estado Novo. Na tarde de 3 de março de 1945, o próprio Freyre depois de um discurso contra a ditadura Getulista da sacada histórica do Diario de Pernambuco foi alvo de tiros um dos quais atingiu, na cabeça, o acadêmico de direito e presidente do diretório daquela tradicional Escola de formação de advogados e juristas Demócrito de Souza Filho matando-o quase que de forma instantânea. Pois, bem, um certo dia, na Fundação Joaquim Nabuco conversei com Gilberto Freyre na sala do Conselho Diretor da Fundaj sobre o Estado Novo e sobre a figura de Getúlio Vargas.

Estudioso do tema II Guerra Mundial sempre procurei conversar com Freyre sobre questões fundamentais do tempo do qual ele tinha sido testemunha e protagonista privilegiado. Freyre então me contou um episódio interessante. Certo dia, no ano de 1954 Vargas convida Gilberto para uma conversa no Palácio do Catete no Rio de Janeiro. A conversa evoluiu para um convite de Getúlio para que Gilberto assumisse um cargo de assessor especial da presidência da República ao nível de ministro de Estado para formular um projeto de Reforma Agrária para o Brasil.

Vargas reconhecia no antigo adversário político um gênio capaz de formular uma política agrária, já que a própria ideia de criação do Instituto Joaquim Nabuco depois transformado em Fundaj estava centrada no estudo do homem agrário do Norte e Nordeste. Gilberto não aceitou o convite. Perguntei-o: por quê? Ele me disse que nunca se interessou por cargos públicos. Voltei a indagá-lo: o senhor tinha mágoa de Getúlio? Ele me disse que não: poucos meses depois, Getúlio se suicidaria saindo da vida para entrar na História como escreveu em sua famosa carta-testamento. Gilberto perseguido e criticado pela esquerda nunca perseguiu ninguém. Ao contrário. A Fundação Joaquim Nabuco no tempo do regime militar era a única instituição publica brasileira que não tinha a famosa e temida Divisão de Segurança e Informações - DSI. E a Fundaj tinha em seu quadro de especialistas de vários matizes ideológicos, entre eles da esquerda.

Freyre me dizia que as ciências sociais se ampliam pelo choque das ideias. Vale a pena lembrar que, vinte e três anos depois de sua partida, Gilberto Freyre continua lembrado e estudado não só no Brasil, mas no mundo desenvolvido. Continua mais universal do que nunca mesmo contra a vontade de alguns intelectuais da USP, uma grande escola, com grandes mestres, mas nenhum deles chegou perto do que foi Gilberto Freyre.

De ricos para pobres

Cleofas Reis // Jornalista
cleofasdefariasreis@hotmail.com

Bilionários norte-americanos listados entre os maiores do mundo pretendem doar pelo menos 50% de suas riquezas para custear ações filantrópicas que reduzam a pobreza. A iniciativa ganhou destaque na mídia.

O fato pode implicar visualizações conflitantes, cada observador podendo, pelo menos para si mesmo, justificar seu ponto de vista. Um entenderia que o movimento se baseia em sentimentos de solidariedade desses super-endinheirados. Outro, como sinal de inversão de tendência da concentração de renda. Um ativista da esquerda desmascararia ali estratégia do tipo perder os anéis para salvar os dedos, enquanto seu opositor político identificaria na campanha uma prova de que a pobreza pode ser erradicada sem necessidade de se apelar a soluções de cunho socialista.

Seria demais um místico divisar na gigantesca doação de recursos o dedo de uma força superior extraterrena revoltada com as desigualdades sociais? Ou a acumulação de capital em níveis quase inimagináveis, a que chegaram os que aderiram ao plano, os fez perder a noção dos valores que detêm e dos que se comprometem a repassar aos pobres em vez de aos herdeiros?

Seja qual for a diversidade de enfoque para se tentar entender a decisão dos ricaços americanos, é provável a concordância em relação a um ponto: trata-se de acontecimento a ficar registrado com destaque na crônica dos altos e baixos da humanidade. Atos assim, em que ricos renunciam a parte de suas fortunas em favor de causas admitidas como nobres, não são novidade. Mas o volume de recursos aplicados, caso o plano se concretize, não terá comparação com o que se viu até hoje e viabilizará impacto socioeconômico.

O projeto, segundo a imprensa, já conta com adesão de uma série de mega-capitalistas ianques, entre os quais Warren Buffet, que ocupa a terceira posição entre os homens mais ricos do mundo, e o banqueiro David Rockfeller. A ideia surgiu da cabeça do dono da Microsoft, Bill Gates, classificado em segundo lugar na lista dos mais bem aquinhoados pelo "vil metal" no planeta. Ele é superado apenas pelo mexicano Carlos Slim, cuja fortuna chega à "bagatela" de 53,5 bilhões de dólares.

Cabe a nós, pobres mortais do terceiro mundo (ou de países emergentes, como se diz em economês), torcer para que o projeto dos ricos mortais do primeiro tenha êxito. Mas importante, para isso, é um sistema eficiente que fiscalize a aplicação correta dos não sei quantos bilhões de dólares. Não é preciso lembrar que, quando se envolve muito dinheiro, lá, como cá, más fadas há.

Não custa formar mais uma torcida, esta para que a providência dos americanos venha a nos servir de inspiração. Que acham? Com a nossa mania de papagaiar o que é negativo na terra de Tio Sam, desprezando o que é positivo, oxalá a decisão dos magnatas do país de Obama sirva de exemplo e influencie empresários tupiniquins. Descartada a hipótese? Ora, que não se perca a esperança, pois, segundo a voz do povo, ela é a última que morre. Embora, cá pra nós, no nosso país ela venha morrendo desde o ano de 1500...

O cardeal Urosa e a Nova Concordata

Pedro de Albuquerque // Escritor
www.pedroalbuquerque.wordpress.com

Obsequioso silêncio. Assim ficou conhecida a postura do papa Pio XII frente ao nazismo e seus horrores. Foi esta a posição adotada pela Cúria Romana. Nenhuma recriminação. Sequer uma oposição veemente. Mesmo dispondo da única rádio livre da Europa. Absolutamente distinta da efetiva oposição de declarados aliados do III Reich; como Benito Mussolini e o general Francisco Franco.

Os quais se posicionaram contrários à deportação de judeus. Mesmo dos territórios ocupados pela Itália. Determinando abrir as suas representações diplomáticas para a concessão de asilo e de passaportes aos judeus de comprovada ascendência ibérica. Com isto salvando centenas de milhares de vidas.

Enquanto isto, de parte do Brasil, um país de ascendência judaica por excelência, o caudilho populista Getúlio Dorneles Vargas, na contramão da História, viria promulgar um decreto-lei proibindo a concessão de vistos diplomáticos a todo e qualquer judeu. Mesmo de inequívoca ascendência portuguesa.

Fazendo com isto, Getúlio, surgir, neste cenário de truculenta covardia, a resistência da heróica figura de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa. Esposa de João Guimarães Rosa. Então secretária do cônsul do Brasil em Hamburgo. Quem, na subversão da ordem do ditador Vargas, fez conceder a documentação necessária a milhares de judeus, ibéricos ou não, que, assim, puderam emigrar da Alemanha e Países Baixos livremente. No momento atual, renova-se, no corpo político brasileiro, o covarde pragmatismo de Getúlio Vargas. Como da parte do clero católico romano, a melhor dizer, da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil: a pusilânime doutrina da Concordata frente ao famigerado ditador Hugo Chávez da Venezuela. Mas o que dizer, se em 1973, em revide à perda do status de religião oficial de Estado, com a Constituição outorgada, o clero guinou às esquerdas?

O cardeal Jorge Urosa, arcebispo de Caracas, brada no deserto e a Diáspora agoniza. Em suas defesas, nenhum protesto da Cúria Romana. Sequer uma nota da CNBB. O Bufão do Caribe, entusiasta da candidatura de Dilma Rousseff, quer, pode, manda e faz. Já expulsou todos os missionários cristãos e os substituiu por muçulmanos da catequese do Hizbolah: hoje movimento político legal na Venezuela. O narcotráfico, aos auspícios de Chávez, impera na Tríplice Fronteira de porteiras escancaradas e Foz do Iguaçu. Hoje base internacional da Fraternidade Islâmica.

Enquanto o Ocidente judaico-cristão sucumbe ante o avanço da Revolução Islâmica, o papa Bento XVI faz show business no Reino Unido; no vazio de um discurso de efetivo posicionamento. Já no Brasil, a Ditadura da Desfaçatez Eleitoral, sustentada pela corrupção endêmica, caminha a passos largos para a sua consolidação com a dívida interna a extrapolar a capacidade de pagamento e de investimento do governo para a farra das sanguessugas do sistema financeiro.

Neste quadro de falsa prosperidade, Lula faz vultosas doações a torta e à direita. Com uma dessas, camuflada de empréstimo, só Fidel recebeu, do BNDES, US$ 1 bilhão para renovação da sua frota interna de transporte coletivo. Com a agravante de que os veículos serão comprados à China. Em nada beneficiando à indústria nacional. É por aí mesmo. Se correr o bicho pega. Se ficar o bicho come. No meu blog é pau. Tem mais. Muito mais mesmo!

O artista e o mercado de arte

Plínio Palhano // Artista plástico
ppalhano@hotlink.com.br

O ateliê do artista-artesão do Quattrocento florentino era uma verdadeira oficina coletiva e, ao mesmo tempo, loja, bottega, aberta para o público consumidor que circulava pelas vias e lá encontrava não somente a excelente pintura ou a obra-prima escultórica do mestre que estava em evidência, mas tudo o que se realizava naquela "fábrica" de engenho e genialidade: um serviço de arquitetura, de ourivesaria, de fundição; ornamentos para cofres e cavalos; candelabros; desenhos para tapeceiros e bordadores; louças de noivado; peças de armadura; sinos; e outros utensílios. No testemunho de Giorgio Vasari (1511-1574) - pintor e historiador que escreveu Vidas (dos grandes arquitetos, pintores e escultores italianos) -, artistas como Botticelli, Ghirlandaio e Donatello não se envergonhavam de realizar essas "pequenas" obras artesanais e, para concretizá-las, envolviam todos os componentes da oficina, formados com severa hierarquia. Entravam, inicialmente, como aprendizes e realizavam as atividades mais humildes; após um bom período, adquiriam o aprendizado dos métodos tradicionais e repetitivos, que eram ensinados pelos mais velhos. Já os discípulos exerciam, com o artista do ateliê, atividades simultâneas em pintura, escultura e outros ofícios até serem considerados mestres. Durante o Renascimento, os ateliês permaneceram com essas características, e todos os grandes artistas representativos desse período passaram pelo mesmo processo e continuaram formando os seus estúdios com esse espírito coletivo de produção. A possibilidade de comercialização de suas obras mais importantes e de custo maior direcionava, essencialmente, para o mecenato, em que a Igreja exercia a primazia, com as encomendas de projetos para catedrais, outros templos importantes, túmulos de papas, representações em esculturas e pinturas e mais o reforço do interesse de refinados cardeais colecionadores que adquiriam obras das mais variadas técnicas e autorias.

A outra forma de mecenato encontrava-se no contrato do artista pelos tiranos para expandir as suas ambições como príncipes e honrar os antepassados ilustres e até, servindo-se da genialidade desse criador, para as mais destacadas festas, ornamentando-as com engenhosidades como, por exemplo, os trabalhos que Leonardo da Vinci realizou para o duque de Milão, Ludovico Sforza, o Mouro (1452-1508): além de pinturas, um projeto inacabado de escultura, em bronze - O Grande Cavalo (c.1483-1499), em homenagem ao pai do duque, Francisco Sforza -, estudos de engenharia militar e arquitetura urbanística. Da Vinci ainda tinha tempo para cooperar, como mestre de cerimônias, desenhando e concretizando projetos para a diversão da corte nas comemorações promovidas pelo Mouro. Rubens (1577-1640) e Rembrandt (1606-1669), incluídos entre os artistas barrocos do norte europeu, formaram verdadeiras equipes em seus ateliês com o detalhamento e a especialidade para cada discípulo e aprendiz. Alguns pintavam mãos; outros, cenas de paisagens, retratos, detalhes de coloração, envernizamento e funções diversificadas para a produção de pinturas e de gravuras. O mestre seguia os trabalhos e realizava a última etapa com os retoques finais. Segundo informações históricas, Rubens conseguiu um alto padrão técnico e quantidades de obras pictóricas nunca alcançadas e espalhadas em toda a Europa, até então, por um artista. Hoje, há dificuldades de se saber a autoria de algumas obras, isto é, se foram criadas diretamente pelas mãos do artista ou pelos discípulos - discussão que alguns teóricos acham dispensáveis. Em Rembrandt, a visão da crítica especializada destaca os projetos e as ações que encontrou para difundir a sua obra e o paralelo da mesma questão quanto à autoria de pinturas realizadas com a colaboração dos discípulos. O artista criou uma técnica rugosa, com camadas espessas de tinta, através de toques com o pincel empastado e uma luz interna que emana dessa matéria, propagando, assim, com perfeição, uma pintura das mais expressivas e geniais, própria do estilo do pintor, que contrastava com a da moda, lisa, esbatida - maneira natural que conquistou o mercado direcionado mais para os aficionados da arte, diferenciando-se do tradicional, que era exclusivo para o mecenato. Os discípulos seguiam criteriosamente o seu estilo, e alguns, depois de sua morte, continuaram os trabalhos individuais sob a permanente influência do mestre holandês. Um precursor do mercado especializado para o público consumidor, como entendemos na contemporaneidade e processado na era moderna.


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Edição de sábado, 21 de agosto de 2010 
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