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Entrevista // Mohammad Mostafaei
"Ela foi forçada àquilo"


"Em primeiro lugar, eu gostaria de ir ao Brasil. Eu gosto do Ronaldinho." Assim, o advogado iraniano Mohammad Mostafaei, 36 anos, começou a entrevista exclusiva ao Correio/Diario. O pouco domínio da escrita do inglês levou-o a receber as perguntas por meio do site de relacionamentos Facebook e traduzi-las para o farsi. Só então, por telefone, ele concedeu as respostas. A menção ao craque brasileiro foi uma forma de "quebrar o gelo", antes de tocar no nome de Sakineh Mohammadi-Ashtiani - a mulher condenada por Teerã à morte por apedrejamento, sob a acusação de adultério.

Mostafaei afirmou que sua cliente é inocente e considerou a confissão uma farsa. Também repudiu as críticas feitas por sua cliente, que o acusou de desgraçar a vida da família Ashtiani e de tê-la abandonado na prisão. "O governo forçou Sakineh Mohammadi a falar tudo aquilo diante das câmeras e a voltar-se contra mim. O regime pretende humilhar minha pessoa", afirmou o advogado. A entrevista de pouco mais de meia hora foi encerrada com um anúncio: "Eu vou à Embaixada do Brasil amanhã (hoje) e tentarei obter o visto. Viajarei a turismo, mas quero falar sobre Sakineh Mohammadi com autoridades de seu governo". Desde o último sábado, Mostafaei vive em Oslo (Noruega), para onde fugiu depois que a polícia secreta israelense deteve sua mulher, seu sogro e seu genro. (R.C.)

Como o senhor vê a tentativa do Brasil de interceder em favor de Sakineh?

Estou feliz com o fato de o presidente Lula ter enviado uma mensagem sobre minha cliente para meu presidente (Mahmud Ahmadinejad) e para o governo iraniano. Foi uma boa ação. Eu acho que seu presidente quer pedir a todo o mundo que siga os direitos humanos. Ele quer enviar essa mensagem para todos os países. Nesse contexto, o caso de Sakineh é uma espécie de símbolo. É bom o interesse de seu presidente. Estou satisfeito. Obrigado, senhor Lula.

De que modo viu a confissão de sua cliente, em entrevista à rede de TV estatal iraniana?

Na noite de quarta-feira, o canal 2 de minha TV estatal transmitiu, por volta das 20h, a entrevista com Sakineh Mohammadi. A emissora é dirigida pelo Ministério da Segurança iraniana. Esse programa mostra pessoas famosas, a fim de transmitir aos outros cidadãos quais ações são boas para suas vidas. Por exemplo, tenta divulgar que o apedrejamento é bom para Sakineh Mohammadi. Eles querem justificar o ato irregular de minha cliente. Sakineh Mohammadi está presa e a Corte de meu governo a mantém sob custódia. Talvez eles ainda pretendam executá-la por apedrejamento. Ela está com medo disso. O governo forçou Sakineh Mohammadi a falar tudo aquilo diante das câmeras e a voltar-se contra mim. O regime pretende humilhar minha pessoa. Uma coisa importante é que Sakineh Mohammadi é inocente em relação ao apedrejamento. Ela não confessou o crime de adultério. Na entrevista, ela falou mais sobre mim. É o que o governo pretende. O governo não pode me prender. Fui forçado a sair do Irã e a falar coisas ruins sobre meu governo.

Mas ela teria repetido tudo o que disse, hoje (ontem), dessa vez diante dos filhos...

É uma forma que as autoridades iranianas encontraram para se justificar.

Sakineh criticou sua interferência no caso e acusou-o de "desgraçá-la". Também disse que vocês nunca se viram...

Tudo o que ela disse sobre mim não é verdade. Eu a vi no mês passado. Conversamos sobre as leis. Eu conheço o caso dela e sei queela é inocente. Ela foi pressionada a mentir.

O senhor acredita que a execução dela é iminente? Existe algo que o mundo possa fazer para salvá-la?

Em seu caso, ela seria enforcada. Mas o governo não pode machucá-la. Acho que outros países e governos podem salvar minha cliente. Mas... Eu não tenho certeza. Não sei do futuro, de como meu governo agirá, principalmente em relação a Ashtiani. Talvez o governo a execute, talvez a salve. Não é algo fácil de prever. Nos últimos anos, o governo executou vários prisioneiros, de maneira secreta.

O fato de o senhor ter fugido não prejudicou ainda mais Sakineh?

Sim, não foi algo bom para Sakineh. Mas tive de fazer isso por minha mulher e por minha filha. Eu deveria ajudar minha cliente no Irã. No entanto, fui forçado a vir. O governo sequestrou minha mulher e prendeu meu sogro e meu cunhado. E afirmou que eu deveria ir à prisão para que eles fossem libertados. Eu não pude aceitar esse pedido. A polícia secreta iraniana espancou a mim e à minha família, invadiu minhacasa, fechou meu escritório e me forçou a sair do Irã. Eu tenho certeza de que eles vão libertar meu sogro e meu cunhado, como fizeram com minha mulher.


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Edição de sexta-feira, 13 de agosto de 2010 
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