Fazia apenas uma semana que o professor universitário Paulo Augusto Sperança, 54 anos, tentava retomar sua vida. Estava "feliz", segundo amigos, por voltar a ensinar na Faculdade de Odontologia da Universidade de Pernambuco (UPE), onde lecionava há mais de 20 anos. A sensação de segurança, no entanto, era falsa. Ontem, por volta das 5h, o docente, que também ensinava na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foi encontrado morto dentro de um veículo Palio, cor vinho, de placa KLL-8486, na Rua 21 de Abril, no bairro dos Torrões, Zona Oeste do Recife.
 Carro do professor, que lecionava na UPE e na UFPE, estava na Rua 21 de Abril, nos Torrões. Polícia ainda está em busca dos suspeitos. Foto: Cecília de Sá Pereira/DP/D.A Press |
O corpo apresentava sete marcas de um instrumento perfuro-cortante (possivelmente uma faca tipo peixeira) e estava posicionado no banco de trás, com as portas trancadas. Um crime que encerra uma vida marcada por atentados e muito mistério. Em dezembro do ano passado, o professor sobreviveu a uma tentativa de homicídio a bala e teria sido ameaçado outras vezes. Até o fechamento desta edição (às 21h), agentes da Força-Tarefa da Capital e policiais da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) faziam diligências para tentar capturar os autores do crime.
O corpo do professor adjunto da UPE e da UFPE foi encaminhado ontem para o Instituto de Medicina Legal (IML), em Santo Amaro. Será velado hoje à tarde no Cemitério Morada da Paz, em Paulista. Somente na tarde de ontem, o corpo foi reconhecido por uma mulher, que disse ser esposa dele. No carro, havia papéis pessoais (provas da UPE e UFPE, em quantidade não informada, uma correspondência e um comprovante de pagamento de farmácia quitado no ano passado), mas nenhum documento com foto que pudesse identificar a vítima no local.
 Foto: Arquivo Pessoal |
Funcionários do IML disseram que o professor estava vestido com calça jeans e camisa amarela quando deu entrada no órgão. Visual idêntico com o qual ele teria sido visto na noite anterior com parentes em um shopping center. A família não quis falar com a imprensa ontem à tarde. O Diario de Pernambuco tentou ligar à noite para o irmão da vítima, Mário Orlando Sperança, mas ele não pôde atender pois estava prestando informações ao IML e à polícia.
Segundo o delegado Humberto Ramos, da DHPP, que estava de plantão, também foram encontrados, no interior do veículo, um cano de ferro e um galão de gasolina. A polícia acredita que o combustível seria usado para atear fogo no automóvel. O carro teve de ser arrombado para que o corpo fosse retirado.
O carro e os objetos pessoais foram enviados ontem pela manhã ao Instituto de Criminalística (IC) para análise. O laudo deve sair em dez dias. Peritos que estavam no local disseram que o professor sofreu dois golpes em um das mãos, um indício de que tentou se defender. As circunstâncias do crime ainda são investigadas pela polícia. "Não sabemos se ele foi morto dentro do carro ou se o veículo foi roubado. Estamos no começo das diligências, tentando fazer contato com a família e localizar testemunhas", informou o delegado coordenador da Força-Tarefa de Homicídios, João Britto Alves. Paralelo às buscas, o delegado disse que irá saber do andamento do processo sobre o atentado sofrido pelo docente ano passado. O inquérito será apurado pela titular da 3ª Delegacia da DHPP, Sylvana Lellis.
Vida acadêmica - O diretor da Faculdade de Odontologia de Pernambuco (FOP/UPE), Belmiro Vasconcelos, disse que foi procurado pelo professor Sperança no último dia 2 de agosto. Ele teria pedido para voltar a dar aula. "Depois do atentado, ele chegou a me ligar em uma noite muito nervoso dizendo estar na frente do prédio e não saiu com medo de um suposto assalto. Mas, na última semana, ele estava feliz e deu aula normal". Paulo Sperança era graduado em odontologia pela UFPE, da qual estava licenciado desde o ano passado. Doutor em terapêutica, também estava licenciado das atividades de atendimento ambulatorial e ensino de farmacologia e microbiologia na UPE, até voltar neste mês.