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De grama em grama



Acompanhar um filho na UTI neonatal é calcular em gramas. Vê-lo ganhar 10 gramas (o peso de uma caneta) vira motivo de felicidade e esperança. No dia seguinte a balança revela que ele perdeu 7 gramas - e você insiste para que a pesagem seja repetida, convicta de que houve um erro na anotação. A nova pesagem confirma a perda das 7 gramas - e, para não ceder ao desânimo, você se agarra ao pensamento de que das gramas conquistadas tão arduamente ainda sobraram 3 (o pedaço de uma caneta).

Suely Castro, 24 anos, de Parnamirim (a 570 km do Recife), é uma das mães que descobriu o valor do peso em gramas. Aos seis meses de gravidez, com sintomas de hipertensão, ela foi levada para o Hospital Agamenon Magalhães, no Recife.

Suely com Francisco, no Agamenon
No interior existe apenas uma UTI neonatal, em Petrolina, com seis vagas - que estavam ocupadas e por isso Suely precisou vir para o Recife. Chacoalhou numa ambulância oito horas até chegar à capital pernambucana. A ausência de leitos, equipamentos, neonatologistas e enfermeiros contribui para a superlotação no Recife; a superlotação prejudica o atendimento e ameaça a sobrevivência dos bebês prematuros.

Mãe de dois filhos, nas duas gestações anteriores Suely não tivera complicações. Na terceira, quase morre de pré-eclâmpsia - com hipertensão arterial de 22 por 18. A gravidez corria sem anormalidade, garantia o pré-natal, mas de repente tudo mudou. "A médica [no Recife] falou: se continuar na sua barriga, tem 0% de chance. Se a gente tirar agora, tem 1%", conta Suely. "Aí eu disse: 1% pode ser a vida inteira. Faça o parto". O filho, Francisco Silva dos Santos, nasceu em 14 de abril passado, com apenas 532 gramas. Pela imaturidade dos órgãos, cerca de 50% dos bebês como ele morrem, informam a Rede de Pesquisas Neonatais e a Associação de Medicina Intensiva Brasileira.

Ao nascer, Francisco não tinha sobrancelhas. Passou semanas respirando por um tubo plástico de ventilação mecânica. Os pés, menores que uma tampa de caneta Bic. Abria o olho quando a mãe se aproximava; ela restribuía com massagem na orelhinha para aliviar marcas do lençol que o acomodava. Nos primeiros 15 dias, como é de praxe em virtude da perda de líquido, emagreceu. Chegou a impressionantes 410 gramas, com tamanho de 21 cm. "Do tamanho do teu caderno, lembra?", pergunta Suely para a repórter.

Nos últimos três meses, Francisco e Suely percorreram altos e baixos ("Páscoa, dia das Mães e São João e eu aqui"). Um dia concluiu: "Por mais que a gente se esforce, só estamos preparados para levar o filho para casa, abraçada e feliz". Quando ele completou dois meses, resignou-se: "Pedi a Deus para não deixar meu filho sofrer tanto. Que o levasse, se fosse para o bem dele". Entrava e saía da sala fechada da UTI, lavava e enxugava as mãos toda vez que passava pela porta. Estava acompanhada por seus pensamentos dia e noite nos corredores do hospital, distante do marido Paulo e dos filhos Robson e Sabrina que ficaram no Sertão. Noutro dia, disse: "O que acalma é que, ao menos, ele está vivo". Otimismo obrigatório para permanecer na UTI com o filho.

Francisco continua no Agamenon, mas no dia do fechamento desta matéria (sexta-feira à noite) respirava sem ajuda de aparelhos. Há 10 dias está num alojamento ao lado da cama da mãe. Seu peso chegou a 1.855 gramas - mais de três vezes o que pesava ao nascer. Num cenário otimista, daqui a algumas semanas ele pode até receber alta. Trajetórias de sucesso como a dele servem de incentivo para quem está numa UTI. São histórias feitas por médicos, enfermeiros, técnicos, pais e mães como Suely - que arriscou no 1% de chance que tinha o seu filho, e está prestes a levá-lo para casa.


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Edição de domingo, 25 de julho de 2010 
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