Brasília - Pela primeira vez na história, um animal respirou graças a um pulmão desenvolvido com a ajuda de células-tronco. O feito foi obtido por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Yale, em Connecticut, nos Estados Unidos. Os especialistas criaram em laboratório um tecido pulmonar que foi implantado em ratos e substituiu com êxito o órgão natural. O estudo foi publicado na quinta-feira na edição on line da revista especializada Science.
 Especialista faz teste de detecção precoce de câncer de pulmão: entre 10% e 20% dos pacientes que têm o órgão transplantado vivem mais de 10 anos. Foto: John Robertson/Divulgação |
"Nós mostramos que é possível usar a engenharia genética para criar um pulmão que pode desempenhar perfeitamente sua função mais importante: a troca de gases", disse ao site do periódico científico Laura Niklason, uma das autoras do estudo. "Esse é um primeiro passo na regeneração de pulmões inteiros para animais maiores e, eventualmente, para humanos", acrescentou.
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Nós mostramos que é possível usar a engenharia genética para criar um pulmão que pode desempenhar perfeitamente sua função mais importante: a troca de gases "
Laura Niklason - pesquisadora da Universidade de Yale
Na pesquisa, a equipe da universidade retirou do pulmão de um rato as células que poderiam causar rejeição. Depois, na "casca" que sobrou, foram injetadas células-tronco específicas dos pulmões, levando o material para um biorreator, espécie de incubadora. "O que descobrimos, para nossa grande surpresa, foi que as células em geral 'pousaram' na sua localização anatômica correta. Achamos que isso significa que a matriz descelularizada tem uma espécie de CEP (que orienta as células-tronco)", comparou a cientista.
Depois de pronto, o pulmão artificial foi implantado no rato e funcionou praticamente como um pulmão normal por até duas horas. Durante esse período, os cientistas chegaram a acreditar que o órgão criado com células-tronco funcionaria perfeitamente. Porém coágulos começaram a se formar, indicando o mau funcionamento do órgão.
Laura afirmou à Science que agora os cientistas têm um desafio que ainda deve tomar cerca de 20 a 25 anos de estudos até que a tecnologia seja aplicada com sucesso em seres humanos. Para isso, os pesquisadores terão de provavelmente identificar células-tronco adultas que possam reconstituir o tecido pulmonar sem provocar a reação do sistema imunológico, maior problema que ameaça a recuperação de pacientes que passam por um transplante.
Chip - Outro estudo divulgado pela Science e que traz esperanças às pessoas que sofrem de problemas pulmonares foi desenvolvido por uma equipe da Universidade de Harvard, também nos Estados Unidos. A pesquisa, publicada na edição impressa de sexta-feira da revista, desenvolveu um dispositivo do tamanho de uma ervilha que funciona como os alvéolos (sacos de ar do pulmão, que transferem oxigênio para o sangue por meio de uma membrana).
O equipamento tem três partes - células pulmonares, membrana permeável e um pequeno vaso sanguíneo ou células capilares. Tudo fica montado num microchip. Em um teste, o grupo colocou uma bactéria no alvéolo, e provou que células sanguíneas poderiam invadi-lo para combater a infecção, como numa reação imunológica normal. No entanto os cientistas, liderados por Donald Ingber, ainda não conseguiram promover trocas gasosas, função essencial dos alvéolos e do pulmão como um todo.
Os dois estudos mostram o avanço das pesquisas que buscam desenvolver tecidos artificiais, que combinam materiais sintéticos e células humanas para funcionarem como órgãos naturais. As pesquisas também buscam uma solução para problemas que a medicina ainda encontra grandes dificuldades de contornar. Segundo a Science, apenas entre 10% e 20% dos pacientes que passam por um transplante de pulmão apresentam uma sobrevida superior a 10 anos. Esse índice nos casos de transplantes de coração é de 50%.