Brasília - A Polícia Federal (PF) está se deparando com um novo tipo de crime na Amazônia. Além da biopirataria e do narcotráfico - principais delitos nas fronteiras - a PF vem combatendo o contrabando de peixes brasileiros para a Colômbia e o Peru. O destino final são os Estados Unidos e a Europa, onde chegam como se não fossem de origem brasileira. Além dos peixes comuns, são retirados dos rios amazônicos espécimes considerados ornamentais, como o aruanã, cujo exemplar chega a ser comercializado por R$ 14 no mercado asiático.
 Comércio ilegal utiliza trabalho das comunidades de pescadores às margens do Alto e Médio Solimões: região de fronteiras facilita o crime Foto: Sergio Amaral/CB/D.A Press - 26/11/1999 |
As autoridades brasileiras não sabem estimar a quantidade de peixe que deixa o território nacional e segue para o exterior de forma ilegal. Mas as investigações da Polícia Federal indicam que os contrabandistas têm um alvo preferencial. "São as espécies sem escamas, como o surubim e a pirarara, entre outros. Os chamados peixes lisos", afirma o superintendente da PF no Amazonas, delegado Sérgio Fontes. Além disso, os agentes descobriram que os grupos atuam entre o Médio e o Alto Solimões, mais precisamente nas regiões de Tefé e Tabatinga, na fronteira com Letícia, na Colômbia, para onde os peixes são enviados - e de onde são exportados como produto colombiano.
Só em abril deste ano, a polícia impediu, durante a Operação Macaco D'Água, o comércio ilegal de quase cinco mil alevinos de aruanã. Os métodos de captura utilizados pelos criminosos são altamente predatórios. Como os filhotes se protegem na boca do peixe adulto macho, os contrabandistas tentam forçar a expulsão deles jogando explosivos na água, o que provoca a mortandade de diversas outras espécies naquele trecho do rio. Na ação da PF, que teve a presença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), foram presas 13 pessoas, inclusive mulheres.
As espécies ornamentais são altamente valorizadas nos EUA, onde o preço final é algo em torno de R$ 13, a unidade. Na extremidade dessa cadeia produtiva trabalham os ribeirinhos, que repassam o alevino por não maisque R$ 1. Quando este chega em Letícia ou em Santa Rosa, no Peru, já está custando R$ 2,5. Daí em diante, a cotação é em dólar. O lucro exponencial é o principal estímulo dessa modalidade de tráfico.
No ano passado, o Ibama realizou, nas Ilhas Anavilhanas, no Amazonas, a apreensão de sete mil exemplares, que seriam levados para Manacapuru, também no estado. De lá, os peixes partiriam para a Colômbia e, posteriormente, para a Ásia. Em alguns países do continente, muitos negociantes mantêm grandes aquários com espécimes ornamentais por pura superstição. A legislação brasileira, no entanto, proibe a exportação do aruanã - o mais visado pelos criminosos -, que só é encontrado na Amazônia. A preocupação das autoridades brasileiras não é apenas com os peixes ornamentais, mas também com o pescado. Diariamente, navios colombianos deixam os cais de Letícia e de Santa Rosa rumo a outros portos do país, de onde as espécies seguem para o exterior.