Depois do primeiro fim de semana em Cupira, no Agreste pernambucano, a família Dantas nunca mais foi a mesma. A casa de campo foi um verdadeiro divisor de águas. Eles estavam prontos para retornar à cidade quando perceberam o problema. Não havia serviço de coleta de lixo e, diferente do Recife, não bastava colocá-lo na porta para ele desaparecer. Sem uma solução melhor, eles voltaram os 167 quilômetros até a capital com os sacos no carro. Os meninos reclamaram do mau cheiro. Mas estava plantada a dúvida. A ruptura tinha acontecido. A crise do lixo desencadeou um novo estilo de vida. Eles se anteciparam a um padrão que, aos poucos, se torna obrigatório. Quase uma questão de ética com o planeta e as gerações futuras.
 Com receitas da avó, disposição e consciência ambiental, a família Dantas se junta e coloca em prática o que deseja para um mundo melhor Foto: Teresa Maia/DP/D.A Press |
A médica Maria das Neves explicou que aprendeu com a mãe a evitar desperdícios em casa e separar o lixo para o sucateiro. Mas, até o fim de semana em Cupira, em 2004, essas ações não tinham tanta relação com a consciência ambiental. "Quando me vi com o lixo na mão, sem saber o que fazer, fui atrásde respostas", disse. Nos livros e na internet, ela redescobriu a coleta seletiva e a compostagem (técnica de decomposição das sobras de comida e transformação em adubo). Nas antigas receitas da avó, achou uma receita para fazer sabão em barra e detergente líquido do óleo de cozinha usado. A solução foi levada para a casa de Cupira, que agora usa o adubo na horta, além dos sabões ecológicos. E, sim, o lixo reciclável continua vindo para o Recife.
Essas soluções foram apenas a entrada para uma viagem pelo mundo do desejo, consumo, produção e impactos no meio ambiente. "Passamos a questionar mais os produtos, o que precisamos realmente e o impacto que isso causa no planeta", contou Nevinha, como é chamada pela família. Na conversa, ela conseguiu sensibilizar quase todos os parentes e agregados. Tanto que foi capaz de tirar mais de 20 crianças e adolescentes da cama, às 5h, para limpar a praia no verão passado. Os aniversários e outras comemorações também ganharam um ar mais ecológico. "Sempre gostamos de cozinhar em casa, é mais saudável e saboroso. Agora levamos para o lado ambiental", ressaltou, lembrando que o hábito evita embalagens desnecessárias e reduz as emissões de poluentes com o transporte de produtos industrializados.
Os filhos, Germana, 15, e Guilherme, 10, e o sobrinho Matheus, 13, contam que aprendem sobre preservação do meio ambiente na escola. Mas dizem que em casa colocam as ações em prática. "Em tudo ela vê uma maneira de melhorar. Como é médica, fala também dos benefícios para nossa saúde e nos convence de que é melhor. Também é reconfortante saber que algumas amigas viram e já mudaram alguma coisa", comentou Germana. O grupo, que ainda conta com o pai, Geraldo Campos, é um modelo da nova sociedade que, aos poucos, se espalha. São responsáveis pela disseminação do conceito de consumo sustentável e corrida das empresas e indústrias.