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Diários de (in)visíveis

Diários são como confessionários. Feitos no papel ou nos blogs da internet, testemunham desabafos, choros e risos, desafetos e amores, dúvidas e medos. São suportes de histórias particulares. Únicas e especiais em cada detalhe. A pedido da reportagem, oito alunos de escolas públicas e particulares da Região Metropolitana do Recife redigiram diários individuais, durante a última semana. Nesse curto espaço de tempo, sete garotos e uma garota, com idades entre 15 e 20 anos, deram uma amostra do que vivem. São relatos sobre preconceito, desamparo, violência e luta por direitos. Mas eles redigiram seus próprios diários, sem intermediários a perguntar 'quem, como, quando, onde e por que', e permitiram a publicação. Foram porta-vozes dos próprios sentimentos, como poucas vezes na vida.


O preconceito coloca Hugo e Victor (nomes fictícios) à margem Foto: Fotos: Helder Tavares/DP/D.A Press
Um jovem homossexual que, na sala de aula, isola-se dos colegas, para se proteger de piadas e xingamentos, é também impedido violentamente de exercer o direito fundamental à educação. A mesma privação têm os garotos gays discriminados por professores, citados em recadinhos jocosos em porta de banheiro e "convidados" a deixarem o colégio por diretores. Pode parecer assunto batido, discurso oportunista às vésperas do Dia Internacional de Combate à Homofobia (17 de maio), mas, no ambiente escolar, o preconceito contra jovens cuja sexualidade é vivida com pessoas do mesmo sexo está produzindo efeitos devastadores. Prejuízos que não se mede apenas por notas ou conceitos. São danos que o medo torna invisíveis, mas revelam a sua força, cedo ou tarde - em alguns casos, tarde demais.

Os oito diários utilizados nessa reportagem são apenas uma amostra de que o preconceito existe e é prejudicial à educação, cidadania e outros direitos essenciais dos jovens. Os cadernos contém histórias íntimas, dúvidas existenciais, desabafos, pedidos de ajuda e gritos de socorro. Histórias pertencentes não apenas aos seus autores, mas que envolvem a comunidade escolar (demais alunos, professores e gestores) e família. "Homofobia é um problema de todos. O índice de travestis analfabetos, por exemplo, chega a 90%. Quem acha que não tem nada a ver com o isso está cego", observa o educador do Instituto Papai, Thiago Rocha.

Hugo (nome fictício), de 17 anos, voltou a frequentar a escola sem o peso da acusação, defendida pelo próprio gestor da unidade, que o jovem teria sido flagrado no telhado, fazendo sexo com outro colega. "Ele (o gestor) queria ou me botar à noite ou me tirar da escola. Quando alguma coisa acontece, todo mundo diz os gays são culpados", escreveu o garoto, que, na última quinta-feira, comemorava o fato dos seus responsáveis terem resolvido o mal-estar junto à autoridade escolar.

Quando a escola, ao invés de formar para a cidadania, consente e, pior, estimula a homofobia, o preconceito ganha contornos institucionais. A pedagogia passa a ser do insulto e da violência. "Muitos colegas, professores e gestores usam os discursos do essencialismo biológico e do fundamentalismo religioso, para colocar os jovens gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transsexuais à margem. O que ameaça o modelo considerado ideal, a heteronormatividade, é combatido", observa o doutor em sociologia e pesquisador do Instituto Nacional de Estudos de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, vinculado ao Ministério da Educação, Rogério Diniz Junqueira.

O impacto do preconceito sobre cada jovem não é medido apenas pelo rendimento escolar. Aliás, avaliar assim as consequências da homofobia pode ser uma cilada. "Se o garoto ou garota gay tem boas notas ou conceitos, recebe uma espécie de salvo-conduto dos colegas heterossexuais e professores. Se o rendimento é ruim, o insucesso é logo justificado como sinal de equívoco do seu defeito homossexual. Algo do tipo 'só podia ser gay mesmo'", destaca o pesquisador.

"Jovens homossexuais sentem o preconceito de maneiras distintas, mas sentem. Algumas situações são tão delicadas, violentas e vulneradoras, que provocam reações difíceis de reverter. É quando, por exemplo, a vítima internaliza a discriminção e passa a se negar, se culpar, ter aversão de si mesmo", avalia o pesquisador. "E a consequência pode ser fatal", completa. As entrelinhas do acadêmico são traduzidas no diário escrito por Carlos Sulyvan (de camisa vermelha), de 17 anos: "Homofobia dói, machuca e mata".

O professor de ensino médio e integrante do grupo LGBT do Movimento Negro Unificado em Pernambuco, Carlos Tomaz, faz uma espécie de autocrítica: "a escola ainda não está preparada para ver que somos iguais em direitos, mas diferentes enquanto pessoas humanas. Gestores costumam dizer que, do portão para dentro da escola, todo mundo é igual, sem se perceberem que essa igualdade é diferente, sejam homossexuais, negros, deficientes ou idosos".


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Edição de domingo, 16 de maio de 2010 
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