Um lugar onde falta água, o ar é poluído e é super populoso não combina com um destino turístico disputado. Mas, nesse caso, o que vale é a "capa do livro". Por ano, cerca de 80 mil turistas são atraídos pelos cenários de Fernando de Noronha. Imagens de uma ilha paradisíaca que encanta do céu ou do mar. Na terra, desencanta aos poucos. Com a permanência e um olhar mais sensível, as maravilhas de Noronha vão se desfazendo e apresentam um roteiro de sobrecarga. Se fosse possível, os exageros já teriam feito a ilha afundar. Mas o SOS foi acionado e o resgate parece estar a caminho. Nos próximos dias, um termo de compromisso deverá ser assinado entre governo federal e estadual. O acordo buscará uma nova gestão para a ilha. Aos moradores e aqueles que sonham com o paraíso, resta cruzar os dedos para que a beleza se torne genuína.
Os problemas estão relacionados à superpopulação. De acordo com o Estudo de Capacidade de Suporte e Indicadores de Sustentabilidade da Área deProteção Ambiental (APA) de Fernando de Noronha, a sobrecarga é de aproximadamente 2.000 pessoas entre moradores, trabalhadores e visitantes que pernoitam na ilha. Um excesso que contribuiu para o esgotamento dos recursos naturais e a adoção de um modelo de desenvolvimento nada sustentável. O oceanógrafo e coordenador do Projeto Golfinho Rotador, José Martins, comparou o estudo a um exame clínico. "Era para identificar se a ilha tinha febre. Noronha tem infecção", disse, com a experiência de quem está há 20 anos no local.
O estado de saúde é provocado pelo estilo de vida possível na ilha, em que tudo vem de fora. "Não tem como ser sustentável. Noronha não produz o que os habitantes precisam, mas todo mundo cai pela beleza", destacou Martins, citando que o ecossistema natural poderia atender 500 pessoas com um uso racional dos recursos. Apenas entre 1997 e 2007, o crescimento da população foi de 500%, gerando uma produção de lixo maior do que em uma cidade. A chefe da APA, que corresponde a quase 50% do território da ilha, Gisela Carvalho, disse que o estudo aponta os gargalos da gestão. Entre os problemas provocados pela superpopulação está o déficit habitacional de pelo menos 300 famílias, algumas vivendo com até 20 pessoas na mesma casa.
Água e energia também não oferecem um futuro sustentável. O principal instrumento para o abastecimento é o dessalinizador, que garante água para 3.800 pessoas. Com incrementos como a otimização do equipamento e o uso de mananciais subterrâneos e superficiais, o potencial de água poderia chegar a 8.500 pessoas. "Noronha também perde muito com o sistema de energia elétrica estruturado com geradores a óleo diesel, o que provoca muita emissão de poluentes", alertou Gisela, ressaltando que o estado vêm estudando outras fontes, como a eólica e solar. Atualmente, o óleo diesel é responsável por 95% do total e a energia eólica por 5%.
Plano - Diante do cenário apresentado pelo estudo, que foi elaborado pela empresa Elabore Consultoria S/C, o governo estadual e federal criaram o Plano Noronha + 20. O programa foi inspirado por uma iniciativa semelhante no Hawaii, o Hawaii + 50. Ele foi iniciado em 2006, apresentado à população no ano passado e, desde então, quatro oficinas foram realizadas entre os técnicos e a sociedade. A última foi encerrada na última sexta-feira, ocasião em que os últimos detalhes foram acertados. Com base nos dados apresentados pelo estudo, o plano prevê a implantação de um desenvolvimento econômico que visa atender as necessidades da comunidade local. Além de orientar as futuras construções, o plano traçará um novo ordenamento nos serviços já prestados, como o número de embarcações e bugres autorizados.
Os técnicos também atestaram que, com as medidas adequadas de reversão, o risco de colapso no sistema será anulado. Uma constatação é que com a previsão de melhoria em 15% já seria possível atingir um cenário de superávit populacional, o que permitiria uma retomada no crescimento populacional e a permanência do turismo no paraíso.