As lágrimas que rolavam, discretas, no rosto de mãe e filho não eram por um motivo qualquer.
 Ao lado da mãe, Diego Pereira da Cruz finalmente sorriu, ontem pela manhã, no Fórum Doutor Manoel Souza Filho ao ouvir o juiz reconhecer sua inocência. Fotos: Regina Lima/DP/D.A Press |
O estudante Diego Pereira Cruz, que completou 19 anos enquanto estava na prisão, ouviu, ontem, o que sua família nunca deixou de acreditar: é inocente. Em audiência realizada no Fórum Doutor Manoel Souza Filho, em Petrolina, o jovem foi absolvido das acusações de ter participado de um assalto a um posto de gasolina, localizado na BR-428, no Sertão do estado, no dia 10 de janeiro deste ano. Na ocasião, ele e o amigo José Alex Soares da Silva, também de 19 anos, foram acusados de serem os autores do roubo e espancados em outro posto de gasolina, na mesma rodovia. Para Diego, no entanto, a alegria pela decisão da Justiça teve um gosto estranho e amargo. "Estou feliz, mas não tenho clima para festa. Meu amigo morreu um dia desses", comenta. Diego e José Alex, que era funcionário de uma fábrica têxtil, foram vítimas de uma barbárie em um episódio que vai render, a partir de agora, uma nova batalha judicial.
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Estou feliz, mas não tenho clima para festa. Meu amigo (José Alex) morreu um dia desses"
Diego Pereira Cruz - estudante
Da condição deréu, o sobrevivente passa a ser vítima de uma violência praticada por funcionários e clientes do posto assaltado, com a conivência de policiais, que continuaram a espancar os rapazes, inclusive dentro da delegacia da cidade. José Alex morreu três dias depois, internado no Hospital de Traumas de Petrolina. Diego foi autuado em flagrante e encaminhado para a penitenciária de Petrolina, onde ficou por 39 dias, até ser liberado, por falta de provas, na primeira audiência do julgamento encerrado ontem.
Confira o especial sobre o casoNa audiência de ontem, o juiz Edílson Moura, da 1ª Vara Criminal de Petrolina, acatou o pedido de absolvição do Ministério Público e inocentou Diego baseado em uma série de contradições que chamaram a atenção do magistrado nos testemunhos dados ao longo dos depoimentos do processo. No total, dez pessoas foram ouvidas, entre representantes da defesa e da acusação. "Se você pensar direito, nada faz muito sentido. Em regra, ninguém tira o capacete para realizar um assalto. Muito menos para, sem capacete, entrar em um local a menos de dois quilômetros da cena do crime para abastecer a moto. É ilógico", avalia o juiz.
Também contou a favor dos rapazes o fato da arma e dos produtos roubados nunca terem sido encontrados, o que não bate com a tese da dona do posto de gasolina assaltado, Maria Claudenice da Silva, 38, que afirmava ter seguido, sem perder de vista, a dupla de ladrões do posto de sua propriedade até o posto seguinte, onde estavam Diego e José Alex. Quando foram presos, os rapazes tinham apenas em mãos um saco de macaxeira e dois pares de chuteiras, já que voltavam de um jogo de futebol, e não os produtos do roubo (R$ 800 e celulares e pertences das vítimas).
O promotor Lauriney Lopes Reis alegou que pediu a absolvição por não haver provas suficientes para comprovar que os rapazes eram culpados do assalto. Além disso, ele afirma que não foi necessário pedir a reconstituição do crime para elucidar as contradições, como chegou a cogitar. "O inquérito do delegado da Homicídios (Jean Rockfeller) foi anexado nos últimosinstantes ao processo e, nele, fica claro que os verdadeiros assaltantes ainda estão livres para realizar novos crimes", afirma.
Certeza - A decisão da Justiça ajuda a amenizar a dor da perda do amigo, mas não apaga as memórias da tortura que Diego afirma ter sofrido. "Eu continuo com medo. Não é porque todo mundo sabe o que eu já sabia que vou ficar tranquilo com todo mundo solto. Evito sair de casa e quando tenho que sair, faço isso bem rápido e durante o dia", conta. Mesmo convivendo com os receios do filho, a mãe de Diego, Ivanilde Maria Pereira Cruz, não deixava de comemorar o resultado. "Quem mais chorou fui eu. Não consegui me controlar. Tinha certeza que ele era inocente, mas foi bom deixar todo mundo sabendo disso também", garante.
A certeza também é uma constante entre os familiares de José Alex desde a época do homicídio. A irmã da vítima, Andréa Soares da Silva, 22, recebeu o resultado com emoção e alívio, mas que não muda em nada a situação de sua família. "Nós já sabíamos. Aliás, toda a comunidade João de Deus, onde moramos, sabia. Perdemos José Alex. Ouvir de juiz que eles eram inocentes, o que nunca ninguém duvidou, não nos conforta", lamenta.