Na discussão sobre a indicação do PT para a composição da chapa majoritária de reeleição do governador Eduardo Campos (PSB), o deputado federal Maurício Rands (PT) tem sido uma peça importante. Ele participa ativamente das articulações em favor da escolha do secretário das Cidades, Humberto Costa, para disputar uma das vagas ao Senado. Eleito o deputado federal do PT mais votado no estado em 2006, Rands tem trânsito livre em Brasília (DF) e na esfera local do partido. Nos últimos dias, ele intensificou as conversas com as lideranças nacionais. Esteve, por exemplo, com o ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais) e com Gilberto de Carvalho (chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva).
Rands conversou, ainda, com o ex-prefeito do Recife João Paulo, que também disputa a indicação para o Senado pelo PT no estado. Antes do encontro do último domingo, entre João Paulo e Humberto, Rands atuou como uma espécie de "quebra-gelo" para o início dasdiscussões sobre quem concorrerá à vaga na chapa majoritária da frente popular, evitando as prévias.
Para Rands, o debate sobre a indicação do PT para ao Senado não deve ser de personalidades, mas de ideias. E as ideias da tendência Construindo um Novo Brasil (CNB), da qual é integrante, devem prevalecer. Segundo ele, foi o conteúdo programático da CNB que levou Lula ao Planalto e, por isso, deve ser reconhecido em Pernambuco. "Humberto é uma expressão da linha política que tem colocado o PT e as forças progressistas em bons lençóis", declarou.
"Não vai haver nenhuma imposição da direção nacional"Como estão as coisas no PT depois da conversa entre Humberto Costa e João Paulo?
É natural que um partido, como o nosso, que é constituído de bases, que se organiza em setores e que tem um funcionamento orgânico durante todo o tempo, mesmo quando não há eleição, tenha correntes e várias lideranças com perfil de uma disputa majoritária. Como as vagas para a majoritária são limitadas, é normal que haja um processo de discussão interna. O que não é positivo é que essa discussão seja muito tensa, gerando atritos pessoais. Nós estamos num momento de construir um roteiro para que a definição da vaga do PT para a majoritária seja feita a partir de um bom debate dentro do partido, com os aliados e com o governador Eduardo Campos.
E em Pernambuco, haverá prévia ou um entendimento?
Estamos trabalhando para chegar a uma solução sem as prévias. Nas últimas conversas, vimos que, muitas vezes, aparentes distâncias são produto da falta de diálogo. Combinamos, então, que vamos dialogar mais. Isso não quer dizer que exista concordância sobre todos os pontos. Uma coisa que a sociedade está cobrando é que esse processo de discussão da chapa de Eduardo não seja um debate apenas de nomes. É preciso que sejam colocadas as ideias, as diferenças de posição, as soluções que vamos apresentar à sociedade.
Que roteiro de discussão será seguido a partir de agora?
Em primeiro lugar, devemos ampliar esses encontros. E fazer com que eles não sejam apenas entre Humberto e João Paulo, que eles aconteçam com as outras lideranças do partido, das suas próprias correntes e de outras correntes. Nós, da CNB, achamos que a discussão deve ser a partir do projeto para o PT e para a frente popular. E nós temos dado testemunhos de que temos consonância com esse projeto, seja lá atrás, quando nossa corrente foi muito determinada no fortalecimento dos dois governos de João Paulo, e depois, na sucessão, quando apoiamos João da Costa. Mas, pela trajetória política da nossa corrente, pelo maior trânsito que nossa corrente tem na sociedade e com os aliados - acrescida do fato de Humberto ter reconhecida a sua inocência pelo Ministério Público e pela dívida de Pernambuco para com ele -, achamos que a candidatura de Humberto é a mais indicada para o PT.
Mesmo com todas as pesquisas realizadas informalmente indicando a liderança de João Paulo na disputa pelo Senado?
É natural que as pesquisas sejam um dos fatores discutidos, mas não o único. Aliás, essas mesmas pesquisas apontam perspectivas de vitória com a candidatura de Humberto ao Senado. Alguém tem dúvida de que o eleitor pernambucano que pretende votar na candidata do presidente Lula, Dilma Rousseff, no candidato de Lula e do PT de Pernambuco, Eduardo Campos, e nos senadores que estão alinhados a essa chapa, vai deixar de votar no senador apoiado por essas forças porque é A ou B? Esse eleitor vai votar na chapa completa. Não é a candidatura ao Senado que puxa a de governo. É a candidatura do governador que alavanca a do Senado. Tem sido assim na história política de Pernambuco.
Qual a influênciade Lula, Dilma e Eduardo na escolha do nome?
A escolha é um assunto do PT de Pernambuco em diálogo com o governador e os aliados. Não vai haver nenhuma imposição da direção nacional. E o governador não tem objeção a qualquer dos dois nomes em disputa.
O nome pode ser escolhido a partir de um acordo para as eleições de 2012 e 2014. Isso é tratado nas conversas?
O acordo não deve passar pela definição das próximas eleições, até porque há outros atores envolvidos na definição da majoritária. Majoritária não é assunto só de um partido, ninguém disputa majoritária isoladamente. A solução de 2010 não deve passar por sinalizações para 2012 e 2014. Essas discussões devem caminhar no sentido de que é preciso haver mais equilíbrio entre as correntes do PT. Se o PT tem mais de uma corrente, é natural que as vagas majoritárias não sejam sempre indicadas por uma mesma corrente.
Se o consenso não será construído a partir de acordos, em que será baseado?
Observe que, na eleição de 2008, nós tínhamos candidaturas que estavam muito bem posicionadas (Humberto e Rands). E nós achamos que, se o coordenador do processo, João Paulo, não admitia outra hipótese além da candidatura de João da Costa, nós devíamos apoiá-lo. O diálogo pode ser pelo convencimento recíproco.
Quais os próximos passos dessa discussão?
O consenso pode ser construído até o encontro político no começo de abril. Temos um bom tempo para continuar dialogando. O que estamos dizendo é que a candidatura de Humberto é uma expressão da linha política que tem colocado o PT e as forças progressistas em bons lençóis. A candidatura presidencial de Lula se consolidou quando a linha política da CNB passou a ser hegemônica no PT, fazendo uma política que prevê o diálogo, a construção de alianças mais claras com os aliados, o equilíbrio entre sociedade e estado, priorizando a inserção de um partido de esquerda organizado na sociedade civil, que não acredita mais nos chavões que prevaleceram num dado momento na esquerda brasileira. Nesse debate, é importante que haja umadiscussão sobre a linha política, não apenas sobre nomes. Nós, da CNB, nos organizamos a partir de um conjunto de ideias, de uma concepção tática. Queremos que a escolha da candidatura seja feita a partir de uma discussão sobre os rumos de Pernambuco. Temos contribuído para o governo Eduardo. O que queremos para o segundo governo dele? O PT pode ampliar a sua contribuição? Acreditamos que sim. Como? É esse debate que temos que promover.