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A voz do poder
Zelo com a aparência, jogo de cintura e fidelidade ao governo para o qual presta serviço. Eis o receituário dos mestres de cerimônia dos palácios e prefeituras
Flávia Foreque, Rosália Rangel, Thiago Herdy e Ullisses Campbell
politica.pe@dabr.com.br


Eles estão a poucos metros do prefeito, do governador, do presidente. Têm nas mãos - ou melhor, em suas vozes - o controle do andamento de eventos e inaugurações que, nos dias de hoje, se confundem com os palanques de políticos que tentarão um novo cargo em outubro.

Kiryl Muniz: "Quando pedem autógrafos ou querem tirar fotos comigos, digo: 'O governador é aquele ali'". Foto: Juliana Leitao/DP/D.A Press
Na prática, trabalham para cacifar seu escolhido para a sucessão. Mas os mestres de cerimônia oficiais, vozes do poder, não estão necessariamente com a vida ganha. "Dizer que estamos próximos do poder é sonho e ilusão", diz Dilson Silva, o mestre de cerimônias do Executivo mineiro, que ficou seis anos desempregado quando o candidato da oposição assumiu o governo. Dinheiro não é problema para o locutor do governo paulista, Marcus Vinícius, que ganha até R$ 40 mil quando soma seu salário ao trabalho freelancer, alternativa de quase todos eles. Para Salomão Moreira Filho, da prefeitura de Belo Horizonte, mesmo que o cargo seja uma extensão de sua militância política, ele não consegue se livrar do formalismo do posto. Nos eventos no interior, Kiryl Muniz, mestre de cerimônias do governo pernambucano, é confundido com estrela e precisa despistar o público para não atrasar os eventos tirando fotos e dando autógrafos. Em todos os casos, os locutores são reféns da agenda da autoridade máxima de governo.

Jogo de cintura

Uma mestre de cerimônias precisa ser discreto e muito cuidadoso na hora de conduzir um evento. Mas, acima de tudo, é preciso ter jogo de cintura para fugir de saia justa e contornar uma situação desconfortável para autoridades e convidados. Assim é a rotina de Kiryl Muniz, de 38 anos, que exerce a função no Palácio do Campo das Princesas, sede do governo de Pernambuco. Formado em comunicação social, começou a exercer o cargo na Secretaria de Educação. "Além do diploma de nível superior, também fiz cursos de oratória e técnico em rádio", conta.


Firmo Neto: "Quando percebemos a presença de autoridades que não estavam na relação, precisamos ser rápidos". Foto: Fellipe Castro\Esp. para Aqui Pe\D.A Press
Ele começou a trabalhar no governo Eduardo Campos há três anos. Seu dia a dia segue a agenda do governador. Em dias puxados, chega a trabalhar 20 horas seguidas. "Isso acontece quando o governador realiza maratonas pelo interior. Temos que passar por vários municípios e o expediente se estende pela noite". Entre os eventos mais complexos estão as visitas do presidente Lula ao estado, quando as chamadas "saias justas" exigem ainda mais atenção. "Em 2008, na visita dos presidentes Lula e Hugo Chávez (da Venezuela), a Assembleia Legislativa de Pernambuco resolveu entregar uma comenda aos dois estadistas. Mas a homenagem não estava na programação oficial. Tive de improvisar e falar em termos genéricos. Felizmente tudo acabou bem e os presidentes receberam suas medalhas", conta Kiryl.

Na Prefeitura de Recife, a rotina de trabalho do mestre de cerimônias Firmo Neto, 34, é bem parecida. Ele atua na área há 8 anos, é formado em Relações Públicas e trabalha de sete a oito horas por dia. Nas solenidades externas, segundo ele, é preciso atenção redobrada para evitar constrangimentos com convidados de última hora. "Quando percebemos a presença de autoridades que não estavam na relação, é preciso ser rápido para fazer o registro. Nas comunidades, o prefeito também faz questão que um representante do bairro tenha espaço para falar. Então, é preciso estar muito atento", explica.

Tanto Kiryl Muniz como Firmo Neto ressaltam que a principal função do mestre de cerimônias é zelar pela autoridade a quem estão vinculados. "Não podemos aparecer mais do que eles", diz Kiryl. Ele conta que, em eventos no interior, algumas pessoas pedem autógrafos e querem tirar fotos com ele. "Quando acontece, digo: 'O governador é aquele ali'". Os dois afirmam que recebem um salário de cerca de R$ 2 mil.


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Edição de domingo, 7 de março de 2010 
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