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Saudade e esperança marcam um mês da morte de estudante
Caso Alcides // Família de aluno da UFPE, assassinado na frente de casa, tenta voltar à rotina com novos sonhos
Aline Moura
alinemoura.pe@dabr.com.br


Um mês se passou. Foram dias, horas, minutos. O pulso ainda pulsa, a vida continua. Mas sem Alcides do Nascimento Lins, aquele estudante de biomedicina de 22 anos, filho de uma ex-carroceira, morto a tiros por engano no último 6 de fevereiro. E o jovem faz falta. Até para quem não o conhecia. É por isso a lembrança de hoje, depois de ele cambalear atingido por balas que carregavam toda maldade do mundo. Trinta dias após o falecimento, a dor da família permanece. Um dos criminosos está livre e só há algo que ainda pode afagar a alma, se assim se pode dizer. A batalha do rapaz por melhores condições de vida deixou herdeiros. Atualmente, as três irmãs do jovem se preparam para sair do programa de proteção à testemunha, do governo do estado, e dar seguimento ao antigo sonho. Na próxima semana, todas devem ingressar na universidade. É a história dessa roda viva que o Diario conta hoje.


Alcides, filho de uma ex-catadora, passou em primeiro lugar no vestibular da Federal, mas não chegou a se formar em biomedicina Foto: Alexandre Gondim/Arquivo DP 9-1/-07
Dias após o falecimento, o deputado estadual Pedro Eurico (PSDB) disse que nada parece termudado no cenário que envolve o caso. Especialmente quando se trata do adolescente infrator que atirou em Alcides e do homem que também teria participado do assassinato, João Guilherme Nunes Costas, 28 anos. Pedro Eurico se encontrou com o menino de 16 anos, ontem, numa das unidades da Funase onde ele está apreendido e assegurou que o jovem permanece como entrou. "Perdido e isolado". O isolado, nesse caso, é por questões de segurança, porque nem os próprios jovens infratores lá de dentro (180) aceitaram a morte de Alcides - um cara que tinha tudo para dar errado, mas que tinha revirado o próprio destino, como vários não conseguiram.

Foram 30 minutos de conversa com o adolescente sobre detalhes da frieza do ato. O garoto voltou a admitir que baleou o peito de Alcides depois de João Guilherme atirar na sua face. "O adolescente disse que, na hora do crime, falou para João Guilherme que Alcides não era o rapaz que estavam procurando. Mas ele respondeu da seguinte maneira: 'não importa, um vai ter que ir hoje'. Então João Guilherme atirou, subiu na moto e mandou o adolescente voltar para dar outro tiro", destacou, acrescentando que, depois disso, ambos passaram quatro dias em Goiana. Até aquele fatídico dia, esse adolescente só tinha na ficha o uso de crack. Agora, o peso nos ombros é maior para a idade.

Fiscalização - Pedro Eurico também foi à penitenciária de Itamaracá ontem. Queria conversar com um ex-companheiro de cela de João Guilherme, mas não obteve informações importantes. O que ele aguarda, aliás, está mais acima desses encontros. Na última quinta-feira, em conversa com o ministro Gilmar Mendes, em Brasília, o deputado entrou com uma representação pedindo uma fiscalização geral na Vara de Execuções Penais. Além disso, fez uma reclamação contra o juiz Adeildo Nunes, titular da vara, por entender que o magistrado usou termos impróprios para atacá-lo, logo após ele criticar o juiz por ter progredido a pena de João Guilherme para regime semiaberto. "O ministro encaminhou para o Conselho Nacional de Justiça", destacou.

A cena policial ainda não mudou, mas algo ainda se mexe, com a vida, e pulsa. São os sonhos, apesar da tristeza. A delegada do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, Gleide Ângelo, adiantou que, na próxima semana, as três irmãs e a mãe de Alcides, Maria Luiza Ferreira do Nascimento, 44 anos, já podem sair do programa de proteção à testemunhas da Secretaria de Direitos Humanos do estado. Segundo ela, as quatro não sofrem ameaças, porque o criminoso João Guilherme, mesmo foragido, não faz parte de grupos de extermínio e, ao que tudo indica, está prestes a ser capturado. Gleide Ângelo estava emocionada, ontem, algo incomum entre delegados. Ela disse que a família vai ganhar uma casa em breve. "Além disso, Ana Paula, 20 anos, e as gêmeas Andréia e Andreza, 18, já se matricularam na universidade", declarou. A primeira fará o curso de Farmácia na Universidade Federal de Pernambuco e as duas tentarão seguir, na Universidade Católica, a carreira de administradora e publicitária. Uma missa realizada, ontem, na Igreja da Torre, despediu-se de Alcides sem a presença da família, ainda muito abalada, mas pediu proteções para as vidas que continuam. E começam.


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Edição de sábado, 6 de março de 2010 
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