:: Diario de Pernambuco - Política, Brasil, Economia, Mundo, Vida Urbana, Esporte Total, Viver ::
Pernambuco.com
Diario de Pernambuco

Diario de Pernambuco








  Enviar por e-mail Comentar Imprimir  
Opinião



Cidadã de Pernambuco

Flávio Henrique Santos // Advogado
flavio.henrique@fhsadvocacia.com.br

No dia 8 deste mês de março, a Assembleia Legislativa homenageará a desembargadora Helena Caúla Reis com o título de Cidadã de Pernambuco, produto da feliz e oportuna iniciativa do deputado Pedro Eurico.

Cearense de nascimento, Helena Caúla foi datilógrafa do Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco, assumindo ali a Diretoria do Departamento de Pessoal. Foi também perita criminal e primeira mulher procuradora de Justiça no Estado de Pernambuco e a ocupar a cadeira de desembargadora no nosso Tribunal de Justiça, onde hoje preside a Seção Criminal e a 2ª Câmara Criminal.

Helena Caúla foi minha professora de Medicina Legal na Faculdade de Direito do Recife e, ali, perto dos meus 20 (vinte) anos, confesso que me sobrava muito pouco entusiasmo para estudar aquela ciência. Ainda hoje, todas as vezes que a vejo, relembro-me de não haver me desincumbido da promessa que lhe fiz de aprender adequadamente a disciplina que ela tão zelosamente ministrava.

Mas as recordações de minha primeira e única visita ao Instituto de Medicina Legal, onde a morte é uma evidência, explicam o meu afastamento daqueles estudos. No auge da minha juventude, o Direito se misturava à vida e, tal e qual hoje, eu nunca admiti dissociá-los.

O curioso é que a aridez daquela disciplina não se transportou à figura da Professora Helena.

Circunspecta, sempre a percebi envolta numa aura de simplicidade, que se harmonizava ao seu modo profundamente disciplinado de se comportar. É delicadamente firme e inegavelmente justa. Sobretudo, sua figura infunde em quem com ela convive uma firmeza de convicções circundada por uma dignidade serena, atributos absolutamente imprescindíveis àqueles que se submetem ao pesado fardo de julgar o seu semelhante.

No momento em que a Assembleia Legislativa a condecora, atribuindo-lhe a cidadania pernambucana, eu me sinto impelido a registrar aquilo que está além dos cargos, o que vem do humano, possível de ser visto apenas pela lente do sentimento.

Verdade que, por não militar nas câmaras criminais, jamais senti falta da medicina legal. Todavia, a imagem da professora Helena Caúla se manteve presente em mim como sinônimo de seriedade e compromisso, a exigir-me, neste campo, uma aplicação desmedida e sem concessões, como a compensar meus deslizes dos tempos de faculdade.

Nutro por minha professora uma enorme admiração e um carinho filial, incentivado pela ternura e acolhimento com que sempre me distinguiu, num olhar que sorri, revelando, à sua maneira, uma generosidade que a faz excepcional.

Por tudo, congratulo-me com a Assembleia Legislativa do meu Estado pelo reconhecimento que faz à desembargadora Helena Caúla Reis, ao conceder-lhe a cidadania. Até mesmo porque, à evidência, Pernambuco ficará mais rico.

Uma ilustre pernambucana

Jorge Luiz de Moura // Coronel RR/PM
jorgeluizdemoura@bol.com.br

Promana do prelo o 25º livro de autoria do incansável e culto, escritor e jornalista Carlos Cavalcante, sob o título: Mulheres que Mudaram a História de Pernambuco - VI Volume. Esta obra traz, em seu bojo, as sagas das honoráveis mulheres nascidas no torrão do Leão do Norte, onde emana entre elas a figura ímpar da saudosa mestra Maria do Carmo Tavares de Miranda, que, infelizmente, não a conhecemos pessoalmente.

Todavia, tivemos o privilégio e a honra de sermos discípulo do seu emérito e falecido progenitor, o professor André Tavares de Miranda, que nos idos de 1965, lecionava matemática no Curso de Formação de Oficiais, da altaneira Polícia Militar de Pernambuco, que funcionava no vetusto Quartel do Derby. Naquela quadra do tempo, o professor André Miranda, com a sua presença, impunha respeito e credibilidade pela retidão e vasta cultura em latim e grego.

Sua filha, ora homenageada, herdou de seu venerando pai esses dons para a continuidadeda geração de mulheres que honram o estado de Pernambuco.

Desta maneira, não poderíamos deixar de atender ao convite do prezado autor Carlos Cavalcante, para com satisfação e respeito, falar dessa atuante mulher, alicerçada de sabedoria e reflexões e trazer à reminiscência como legado às gerações do presente e do porvir, representando todas as mulheres que estão insculpidas neste VI - Volume.

Assim sendo, Maria do Carmo Tavares de Miranda, nasceu em Vitória de Santo Antão (PE), em 6 de agosto de 1926, bacharelou-se e licenciou-se em Filosofia, pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e doutorou-se em Filosofia pela Sorbonne (Universidade de Paris). Doutora e docente-livre em Filosofia da Educação, pela UFPE, fez pós­doutorado na Universidade de Paris e na Universidade de Friburgo (Alemanha). Professora catedrática, por concurso, da UFPE, foi a primeira coordenadora do Mestrado de Filosofia da instituição.

Foi vice-presidente da Academia Internacional de Filosofia da Arte (Atenas, Grécia), professoravisitante e mestre de conferências em diversas universidades internacionais, pesquisadora efetiva de centros internacionais de pesquisa e diretora-geral do Seminário de Tropicologia, da Fundação Joaquim Nabuco (FJN). Em 1983, foi eleita para a Academia Pernambucana de Letras (APL).

Publicou, entre outras obras, Théorie de la Verité chez Edouard Le Roy; Pedagogia do Tempo e da História; Educação no Brasil; Os Franciscanos e a Formação do Brasil; O Ser da Matéria; Caminhos do Filosofar e Aventura Humana. Traduziu Da Experiência do Pensar, de Martin Heidegger.

Concluindo, trazemos a colação as palavras - A opção pelo pensar - do insigne José Maria Rodrigues, como uma conclamação à intelectualidade pernambucana e nacional e de sua cidade natal, Vitória de Santo Antão: "A reclusão voluntária de Miranda, (Maria do Carmo), teve um custo: seu nome desapareceu da mídia e sua obra não foi reeditada até agora. Uma grande injustiça a quem é considerada, nos meios universitários europeus uma das expressões mais altas deintelectualidade brasileira" Reverter essa injustiça, se impõe, dignas pernambucanas!

Pernambuco: pátria marrana, gente cabocla

Pedro de Albuquerque // Escritor
www.pedrodealbuquerque.wodpress.com

Evaldo Cabral de Mello em seu O Nome e o Sangue, de muito prazerosa leitura, resgata-nos a verdade histórica da raiz ibero-judaica da nossa gente pernambucana. A recomendar emenda ao nosso hino em seu refrão: "Nova Roma ..." Por melhor caber: "Nova Israel de bravos guerreiros, Pernambuco imortal... imortal!" A bem merecer a nossa terra, não por mero acaso, o legado de Plínio Pacheco: Nova Jerusalém.

Faz-nos, ainda, o mestre Evaldo, inequívoca a denúncia do historiador judeu Elias Lipiner de haver perpetrado José Vitoriano Borges da Fonseca, em sua "Nobiliarquia Pernambucana", um "genealogicídio". Isto, no propósito de resguardar da Inquisição Católica Romana os galões do seu hábito da Ordem de Cristo e outras frivolidades então em voga. Traz-nos, ainda, estatísticas exatas e fontes fidedignas a corroborar a tese de que, em Pernambuco, não há família da terra sem genuína ascendência sefardita. Sendo, portanto, pátria marrana. Diz-nos Evaldo, com propriedade, se não poder supor fossem raros na Colônia, carente de mulheres brancas, os casamentos entre cristãos e judeus: tão frequentes no Reino. Ressabido que em Portugal, como na Espanha, é irrefutável a presença sefardita. Mesmo na alta nobreza. Bem como nas Casas Reais. Onde o Infante Dom Luís, irmão do Rei Dom João III, teve, de uma bela judia de Évora, a Dom Antônio, o Prior do Crato: concorrente ao trono lusitano. Não dispensada a Dinastia de Aviz e, ao meu saber, a de Bragança, igual ascendência judaica. Sendo, na Espanha, tanto Fernando de Aragão, o Rei Católico, como Isabel de Castela a sua consorte, descendentes de judeus conversos.

Mas, justifica a atitude de Borges da Fonseca em encobrir e negar, de pés juntos, esta verdade insofismável. Dado que, na época, a atribuição de ascendente cristão-novo, para quem a fazia, gerava inimizades irreconciliáveis e, até, querelas judiciais suscetíveis de pesadas cominações. Nisto suscita, Cabral de Mello, a questão de ser o próprio Borges, pelo ladomaterno, descendente de judeus ou de conversos: ditos marranos. Por descender de tal obscuro andaluz Luís Lopez. Ao que eu me arrisco em responder que sim; a exemplo de Lopo de Albuquerque pai de Brites, a Dona Capitôa, e, de Jerônimo, o Adão pernambucano. Filho da judia Leonor Lopes, ou Lopez, tanto faz em razão da incerta ortografia da época, filha do judaizante, desembargador da Corte, Lopo Gonçalves de Leão. Não sendo esta a única ascendência sefardita dos Albuquerque. A se não esquecer de Jacó Lopez, da Andaluzia. Imolado vivo em Palmas de Maiorca. Espanha, 1675. Juntamente com seis outros marranos portugueses. Deles: quatro mulheres. Enquanto o Arcebispo, conforme os anais da própria Inquisição, servia chocolates e sorvetes aos demais clérigos e dignitários da Coroa. Como registra o meu amado irmão e mestre Howard Sachar, em seu Farewell España.

Dá-nos conta, Evaldo, da grande descendência da judia Branca Dias e Diogo Fernandes do Engenho Camaragibe; os quais judaizaram até a morte. Dados propositadamente omitidos por Borges da Fonseca. Talvez para, à época, mais não molestar os Pais Barreto e os Carneiro da Cunha no afã de nobilitar. Também, nos revela o reto caráter de Jerônimo de Albuquerque quando, em defesa da integridade da sua descendência mameluca: fez casar dois dos seus filhos, havidos com a índia tabajara Muyrah Uby, Arcoverde, com duas irmãs da sua esposa Felipa de Melo. Cujos descendentes, posteriormente, casaram entre si e com mais outros cristãos-novos. Nisto preservando Jerônimo a ascendência nossa sefardita, como a tupinambá. Do que, no dizer de Evaldo, ao tomar-se o Albuquerque por referência inicial, histórica ou mítica, de toda a genealogia pernambucana, tem-se, portanto, da nossa terra: gente cabocla. No meu blog, anotado no cabeçalho deste artigo, tem mais. Muito mais!

Um homem chamado Andorra

Lêda Rivas // Jornalista
leda@hotlink.com.br

Sou como Andorra, não tenho história.

Com esta frase abrupta - que lhe pareceu "de efeito" - Andrade Lima Filho iniciou um depoimento para o Departamento de Pesquisa, do Diario de Pernambuco, nos primeiros anos da década de 80. Como não tem história, Andrade? - indaguei, preocupada com o que iriam pensar os meus alunos de Civilização Ibérica, na Universidade Federal de Pernambuco, aos quais eu tentava ensinar algo sobre os três países da península. O entrevistado nem se deu ao luxo de responder. Tinha uma longa conversa pela frente e, à sua maneira irreverente, falou o que bem lhe convinha, alheio às minhas interferências e às dos colegas. Espírito forjado para a liderança, o velho jornalista não se deixava conduzir.

Lamentavelmente, das duas fitas-cassetes gravadas, não ficou rastro. Tampouco das outras duzentas e tantas gravações realizadas pelo Departamento, com diversas personalidades, no bojo de um projeto do diretor Antonio Camelo para a criação de um Museu do Som no DP. Destruídas, sabe-se lá por quais meios, após a morte de Camelo - e à revelia dos diretores Gladstone Vieira Belo e Joezil Barros - por um meteórico administrador forasteiro, que tremia à simples menção da palavra cultura, as fitas (como TODOS os documentos da Pesquisa, e eram mais de sete mil) não nos deixaram a memória de um tempo e de suas testemunhas. Mas, isto é outra história, que, oportunamente, será contada.

Parte do depoimento gravado por Andrade Lima foi publicado no Caderno Viver. Era o homem quase de corpo inteiro, coração aberto. Que me conquistou, desde o primeiro momento em que nossos caminhos se cruzaram, no jornal, quando, além da Pesquisa e do Viver, eu cuidava da página de Opinião, na qual ele era um dos colaboradores. Vale dizer: articulista difícil de controlar, pois, as mais das vezes, investia, furiosamente, contra um desafeto, ou atacava instituições, com uma total sem-cerimônia no trato da língua pátria. "Andrade, palavrão não pode!". E ele me chamava de censora. Emoutras ocasiões, até moderava o verbo, para, num artigo seguinte, apor um post scriptum: "Não falarei mais sobre fulano(a) por estar proibido pela minha chefinha".

Orador brilhante, lâmina afiada e implacável, foi polêmico por onde passou. Parte dessa trajetória é narrada, com muita propriedade, pelo jornalista Evaldo Costa, autor de Andrade Lima Filho - crônica de uma viagem entre os extremos, volume 2 da Série Perfil Parlamentar Século XX, editado pela Assembleia Legislativa de Pernambuco, em 2001. Este e os outros 22 livros da coleção são leitura imprescindível para os que se interessam pela história política do nosso estado.

Administrador público, político atuante nas Câmaras estadual e federal, Andrade cultivou a literatura e o jornalismo, ao ritmo machadiano, com agilidade, ironia e concisão. Nos anos 50, elegeu-se imortal da Academia Pernambucana de Letras. O Ato Institucional nº 5, de abril de 1969, cassou-lhe os direitos políticos. Mas não a voz, pois continuou ele a escrever sobre as coisas e a gente do seu tempo. É dele um dos livros mais elucidativos sobre Agamemnon Magalhães (além de Nilo Pereira, quantos terão sido tão leais e reconhecidos a Agamemnon, quanto Andrade Lima Filho?), China Gordo. Dele, também, é a deliciosa biografia de Osório Borba, O homem que cuspia marimbondos, premiada pela Academia Brasileira de Letras. Escrevia sem filigranas estéreis. Escrevia para ser lido.

Carente de um "palanque", Andrade resolveu, em 1981, candidatar-se à presidência da Associação da Imprensa de Pernambuco. Potiguar Matos, editorialista do DP, e eu fomos contra. Achávamos que ele tinha mais era que se instalar em outras tribunas, mas lhe asseguramos nosso pobre suporte eleitoral. O sujeito, entretanto, era atrevido demais, e teve a ousadia de ir buscar votos na redação do Diario, enfrentando o apoio maciço que ali era dado ao seu opositor, nada mais nada menos do que o diretor comercial da empresa, Joezil Barros. Ao qual explicamos que palavra dada era uma questão de honra; não falharíamos com o "velho".Não sei quantos votos teve Andrade. Dois, eu garanto.

Um não tão belo dia, meu amigo entrou na minha sala e me fulminou: "Estou com um câncer imoral!". Pôs-se, então, a discorrer, com morbidez de detalhes, sobre colonoscopias e outras incursões verdadeiramente... imorais. Andrade era mestre nesse tipo de narrativa, que tornava mais escabrosa, só para nos impressionar. Parou com as brincadeiras de mau gosto, em setembro de 1983. Nem tinha chegado a primavera e ele se foi, assim, sem mais nem menos, sem reclamar de nada, sem me pregar uma peça, sem nem sequer avisar que não ia entregar o artigo da próxima semana.

Aos 100 anos do seu nascimento, completados no último dia 8 de janeiro, quem se lembra de Antonio de Andrade Lima Filho? Quem teve o privilégio de com ele conviver e de beber da fonte de sua inspiração? Quem aprendeu com ele a arte de provocar emoções? Quem se importa, neste país amnésico, com um brasileiro valente, que construiu, a ferro e fogo, uma trajetória de coragem e de indignação? E que teve uma história. Como Andorra.


    COMPARTILHE A NOTÍCIA Adicione ao Uêba Adicione ao Digg Adicione ao Google Bookmarks Adicione ao Technorati Adicione ao Windows Live Adicione ao Reddit Adicione ao Del.icio.us Adicione ao Facebook Adicione ao Yahoo! My Web Adicione ao StumbleUpon


Carregando Aguarde: carregando capa...
Edição de quarta-feira, 3 de março de 2010 
Selecione a data do
Diario que você
deseja visualizar



Procurar


Conheça o Diario de Pernambuco

Índice | Ed. anteriores | Versão Flip | iPad | História | Acervo
Inf. comerciais | Assine Já | Clube Diario | Leitor do futuro
Superesportes | Admite-se | Lugar certo | Vrum | Expediente

Associados-PE Aqui PE Rádio Clube FM PE Rádio Clube AM PE TV Clube PE Pernambuco.com Admite-se PE Lugar Certo PE VRUM PE