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Perto do coração de Chico Science
Mostra Ocupação, em cartaz no Itaú Cultural São Paulo, mergulha nas memórias afetivas do ícone do manguebeat
Michelle de Assumpção
michelle.assumpcao@dpnet.com.br


Uma frase de D. Rita, mãe de Chico Science, expressou bem o que a exposição Ocupação, promovida pelo Itaú Cultural, levou muitos a sentir. Ela não imaginava a dimensão da importância de Chico até os dias de hoje. Chegou cedo em São Paulo e conseguiu com calma apreciar todos os espaços da mostra, antes que fosse aberta ao público que, na sua vez, lotou a área de exposições da instituição, na avenida paulista. Ao lado da filha Goretti, e demais integrantes da família França, percorreu os espaços e classificou de "carinhosa" toda montagem. De fato, a exposição impactava pelo aspecto emocional, mais do que pela reunião do patrimônio material de Chico: seus óculos, roupas, objetos, manto de caboclo de lança, diários, um carro Landau (que não é o que era seu, mas um bem parecido), além de cartazes de dezenas de festivais, Brasil e mundo afora, que Chico e Nação Zumbi participaram.


Exposição dá a dimensão da importância do cantor pernambucano para a música brasileira Foto: Cia de Foto/Divulgação
Numa parede foi reproduzida uma espécie de agenda do produtor Paulo André Pirescom o histórico dos shows e eventos mais importantes feitos pela banda de Chico entre 1992 e 1997. Os crachás dos eventos mais importantes também estão lá. Fotografias, muitas, reunidas num outro canto. Elas estão em molduras e também em monitores interativos, com mais fotos, e outros, com reportagens de jornais recifenses, paulistanos, cariocas, ingleses, norte-americanos e todo tipo de conteúdo impresso produzido sobre Science e o movimento manguebeat durante a década de noventa. Uma das coisas mais legais é a parede com palavras soltas de quatro canções de Chico Science. Elas estão em forma de ímãs e o público pode compor novos poemas e frases, à sua maneira.

Desde a sua concepção, a exposição comungou com os ideais dos mangueboys, no sentido do coletivo. A curadoria foi de Hélder Aragão e Hilton Lacerda (a Ocupação reuniu novamente a dupla Dolores & Morales, os dois responsáveis por simbólicas identidades visuais do início do mangue, desta vez, unidos em torno do projeto expográfico da mostra), Goretti eLouise França (irmã e filha de Chico), Paulo André Pires e Núcleo de Música, de Comunicação e de produção do Itaú Cultural. Teve ainda Jorge Du Peixe e núcleo de música do Itaú Cultural cuidando da programação de shows; Derlon Almeida responsável pelo grafite; Fred Jordão, Gil Vicente, família França, Paulo André e Roberto Amadeo nas fotografias do acervo; Marcello Pedroso (Símio Filmes) responsável pelo vídeo instalação Landau. Entre outros.

Roger de Renor ganhou uma homenagem especial na mostra. No bagageiro do Landau, posicionada na entrada da exposição, foi instalada uma TV de LCD que exibia clipes de shows do mangueboy. O cenário foi completado com pufes vermelhos (faltou o sofá vermelho), outros de pele de animal, uma geladeira dos anos 50, vermelha, com um pinguim em cima. Imagens de santos e de um cachorro de olhos brilhantes, em cima de engradados de cerveja. Adivinha que lugar é esse: a Soparia, claro. Onde Chico também deu o ar de sua graça e, ao lado de Roger, viajava numa droga em forma de chip que, conectada ao corpo do cidadão, o faria experimentar a expansão do pensamento, sem necessitar das drogas químicas. É daí que veio o mote, segundo Roger, para "Cadê Roger, cadê Roger, cadê Roger... Macô, macô, macô".

Roger contou essa história ao público, numa abertura extraoficial da mostra. Depois, confessou que mais cedo, até chorou (e não foi só ele que chorou, ou no mínimo ficou com aquele nó na garganta). "Eu nunca pensei que, como mangue-tio, veria esse reconhecimento do universo de Chico, que é muito importante. Só uma instituição dessas para expor um conteúdo assim. A tradição de Chico tem que ser exposta. Para quem não viveu a época, saber. Chega deu vontade de ir para a Soparia".

A irmã de Chico, Goretti França, também estava emocionada. Ela sempre guardou objetos importantes do malungo, mas nunca teve a oportunidade de exibi-los ao grande público, pois desejava que isso acontecesse de forma especial, à altura do seu legado. "Não existe negociação para deixar isso num memorial... Tinha medo que (sua história) ficasse ligada a uma instituição pública", diz.

A exposição Ocupação Chico Science ficará em cartaz até 4 de abril no Itaú Cultural. Do dia 25 até o dia 28 de março o Itaú Cultural promoverá, em torno do assunto, série de conversas (sobre os ecos do mangue mundo afora) e exibições de filmes da geração manguebeat, tais como Baile Perfumado (Paulo Caldas e Lírio Ferreira), Texas Hotel (Cláudio Assis), O mundo é uma cabeça (Bidu), A perna cabeluda (Marcello Gomes, Beto Normal, Gil Vicente, João Vieira), Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar (Cláudio Assis), O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas (Paulo Caldas e Marcelo Luna), entre outros. Para conferir pela internet, o site é o www.itaucultural.org/ocupacao.

Depoimentos

"Mangue. Essa foi a palavra que ouvi de repente quando estava indo de Olinda para o Recife dentro de um ônibus com Chico. "Não tem jazz, mambo, soul? Então, vou fazer mangue" ... "Alguns anos depois, recém saído do emprego, fui convidado por Chico para fazer parte do combo percussivo do que já se chamava Nação Zumbi, às vésperas de uma viagem para o Sudeste junto com Mundo Livre S/A... Essa empreitada, que chamamos Caravana da Coragem, foi feita de ônibus de linha até São Paulo - com várias aventuras, programas de TV, hospedagem em albergues, casas de amigos - regada a galetos, cervejas, ressacas e muitos PFs. O passo seguinte foi a gravação do Da lama ao caos, com contrato assinado e muitos planos. A lama se mexeu... O Recife mudou e a ciência de Chico começou a ferver... Até hoje"

Jorge Du Peixe (amigo de Chico, cantor e compositor da Nação Zumbi)

"Mais do que uma sensibilidade privilegiada ou uma espécie de "antena ambulante" o Francisco França que eu conheci era um líder nato, um entusiasmado ativista urbano. Pelo que eu pude avaliar, acredito que foi baseado principalmente no convívio intenso com as diversas subculturas que coexistiam - nas últimas décadas do século 20 - na periferia da capital pernambucana, que ele foi desenvolvendo aquele talento extraordinário para a invenção estética. E hoje, não quem duvide, no campo da música popular, o meu parceiro mangueboy aprendeu a usar esse potencial mobilizador como poucos nordestinos da sua geração".

Fred 04 (amigo de Chico, cantor e compositor do Mundo Livre S/A)

"O mangue bit ganhou chancela de batida. Sua dimensão alimentou discussões apaixonadas. Alguns ficaram pelo caminho, mas o movimento continuou a influenciar uma gama de acontecimentos culturais que reverberam até hoje - seja por concordância, seja por afirmar sua superação. Mas o que realmente é importante aí? Para mim, foi o canal aberto na periferia: o alto falante que, a partir de uma possibilidade, levou ares desse cosmopolitismo de pobre para o mundo".

Hilton Lacerda (roteirista. Diretor dos primeiros videoclipes da cena mangue)

"Agora, com um distanciamento de mais de uma década dos fatos ocorridos, podemos dimensionar os efeitos desse processo: a produção musical pernambucana continua uma das mais ricas do país, no momento enfrentando (e aproveitando) os novos desafios de uma mudança radical na indústria fonográfica. O cinema ganhou uma força que não se via desde o início do século passado... As mudanças produzidas pelas ideais e pelos conceitos tecidos por Chico e outros, depois de tanto tempo, já chegam a nos passar despercebidas. Mas elas continuam mudando a nossa realidade, a cada dia, e em várias proporções, é só dar mais um passo à frente e ter sempre a mente na imensidão"

Herr Doktor Mabuse (webdesigner pernambucano, "ministro da tecnologia" do movimento mangue)


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Edição de sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 
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