De escritor a personagem. Acostumado a exercer a condição de autor e criar suas próprias histórias, Raimundo Carrero agora assume uma outra função na literatura: deixa de ter o controle sobre a narrativa para ficar sujeito às ideias de outro inventor.
 Fábulas ilustradas por desenhos de Fê trazem prosa fluente e defendem o jeito simples da vida no interior. Arte: Reproducao de internet/doidivana |
Algo que ele já vinha experimentando ao atuar no teatro e no recente curta-metragem A minha alma é irmã de Deus, mas desta vez a transição se torna mais simbólica por acontecer numa obra que foge ao universo criativo do escritor, longe da participação direta do pernambucano. A figura de Carrero - sujeito, voz de trovão, gestos largos e conversa abundante - foi transformada em personagem pela paulista Ivana Arruda Leite no livro infantil Diomira e o Coronel Carrerão: a Sherazade do Sertão.
A autora vem ao Recife, na próxima quinta-feira, para fazer o lançamento da publicação na Livraria Jaqueira (Rua Antenor Navarro, 138, Jaqueira), que vai promover uma série de atividades a partir das 11h, com direito a debate com os escritores, leitura de trechos do livro e até um boneco do Coronel Carrerão. O evento ainda servirá para o lançamento de uma caixa da Bagaço contendo quatro romances de Carrero (A história de Bernarda Soledade, Sinfonia para vagabundos, Os extremos do arco-íris e O senhor dos sonhos).
Além da menção nominal já presente no título e da dedicatória ao pernambucano, a referência ao escritor também aparece nos desenhos do ilustrador Fê, que retrata Carrero com o mesmo semblante corpulento, de rosto redondo, barba e cabelos brancos. Mas as semelhanças param por aí. Na edição, publicada pela Brinque-Book, o autor de Sombra severa vira o coronel Nonato Carrero, que vive na Fazenda Bela Vista de uma cidade do Norte do país e distrai a solidão maltratando os empregados e devorando pelo menos dez pratos durante a refeição e mais meia dúzia de doces na sobremesa.
Apesar do trabalho árduo e da má fama do coronel, a jovem Diomira se candidatou à vaga de cozinheira e passou a sofrer com as exigências de Carrerão. Para arrumar um tempinho de sossego, Diomira resolve usar a tática de Sherazade em contar histórias para amansar o humor e o apetite do patrão. A narrativa, nesse ponto, ramifica-se em outras tramas, mas não chega às mil e uma da personagem do Oriente.
Ivana Arruda Leite faz uso de parte do seu acervo de histórias, que ela vem colecionando desde a infância, quando passava o tempo ouvindo os casos contados por sua tia Augusta. São fábulas, algumas com enredos de príncipes e bruxas, outras envolvendo assombrações e pessoas comuns. Em comum, elas trazem lições de moral, defendendo valores como a honestidade, o amor, a sinceridade e jeito simples da vida interiorana em contraponto à ambição humana.
Autora experiente, com participação em mais de duas dezenas de coletâneas e outros seis livros publicados, Ivana Arruda Leite consegue domar a estrutura fragmentada do volume com sua prosa fluente, fazendo com que as histórias contadas por Diomira sirvam para discutir valores morais nesse momento de ambição social. Bom, pelo menos com o Coronel Carrerão deu certo.