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Entrevista // Um criador de casos de luxo
Victor Moreira formou-se dentista, virou figurinista, cenógrafo, jornalista. Hoje, dedica-se aos amigos que precisam de um pouco de glamour
Phelipe Rodrigues // Diario de Pernambuco

Victor Moreira tem 75 anos. Não checa e-mails todos os dias e nunca usou Twitter. Apesar do approach quase zero com tecnologia, pode ser eleito o entrevistado mais moderno que esta página 3 da revista já exibiu.

Foto: Helder Tavares/DP/D.A Press
Suas ideias, desde sempre, foram visionárias. A primeira coluna eletrônica de moda, na TV Tupi de Pernambuco, foi ideia dele. Isto é elegância, que apresentava ao lado da lendária Heloísa Helena (não a vereadora em Maceió pelo PSOL), "mas uma atriz carioca chiquérrima", era aula de improviso. A prataria e os lustres de cristal vinham da casa deles, as longas velas para a festa a rigor que os dois montavam no estúdio eram, na verdade, cabos de vasoura pintados. Victor consegue transformar qualquer momento prosaico em puro luxo. Enquanto lembra do passado, ele ensina como disfarçar uma barriga injusta ou a papada incoveniente na hora da foto. Ri o tempo todo, lembrando do passado glorioso.

O telefone toca sem parar. Ele pede licença e continua a dar dicas sobre muitos assuntos para quem está no outro lado da linha. "A Alfândega na Inglaterra não é fácil. Você tem que declarar tudo", recomenda. Volta para nossa conversa com um exemplar da revista Claudia, janeiro de 1979. A estrela da publicação foi um vestido-mutante criado por Victor. Costanza Pascolato (na época, editora de moda) viu a roupa desfilada no Ceará que podia ser usada de seis maneiras diferentes. "Ganhei um editorial sobre o guarda-roupa do futuro". Também recorda da primeira versão da Paixão de Cristo, em Fazenda Nova, com figurino dele, e da estreia mundial do Auto da Compadecida. "Esnobada pelos críticos pernambucanos", lembra Victor, com sua memória prodigiosa.

Você sempre trabalhou com teatro, vestiu gente famosa, criava fantasias de carnaval, tinha coluna de moda em jornais e revistas, apresentou programas de TV. Como poderia ser definido?

Já nasci com alma de artista. Adoro reunir gente, criar um debate. Faço isso desde os quatro anos de idade. Quando ainda não tinha papel e lápis, eu molhava a areia do quintal e criava desenhos. Chamava a família e os vizinhos para admirar. Foram minhas primeiras exposições. Depois disso, minha família percebeu algum talento e me estimulou bastante. Mas sempre fui prático. Aos 17 anos, já estava na faculdade de odontologia. O curso, na época, era rápido. Apenas dois anos. Poderia fazer meu dinheiro. Mas enveredei pela moda. Já fazia roupas para minhas colegas de faculdade.

Em abril de 2009, você recebeu da semana de moda de Fortaleza, o Dragão Fashion, um troféu pelo conjunto de sua obra. Acha que os pernambucanos têm memória curta?

Morei por 20 anos em Fortaleza. Posso fazer uma comparação entre os dois estados. Por aqui,as pessoas ainda mantêm uma vontade de puxar o tapete, esquecer da melhor parte da história alheia. Isso não é ressentimento e, sim, uma triste constatação. Tanto adoro minha terra que voltei. Ainda tenho amigos incríveis no Ceará, como Wânia Dummar, uma mulher fundamental para a força da moda em sua terra. Durante muito tempo, ela me deu espaço no seu jornal, O Povo, para mostrar minhas criações e divulgar tendências da moda internacional.

Você também trabalhou como repórter de moda. Quem bancava suas viagens de pesquisa e coberturas de semanas internacionais?

A forma de cobrir moda não era profissional. Minhas viagens eram custeadas por mim. Gastava o dinheiro na Europa pelo simples prazer de antecipar as novidades, de lançar um olhar brasileiro sobre as tendências internacionais. Tudo começou por acaso. Um rapaz que trabalhava comigo na Companhia Têxtil Othon Bezerra de Melo, onde eu criava estampas, sugeriu meu nome para uma visita ao Salão do Prêt-à-porter de Porte de Versailles. Achava que por não falar francês, minha visita seria um desastre. Me comuniquei direto com a organizadora da feira, consegui registro de imprensa no Diario de Pernambuco. Enfim, fui um sucesso e todos os anos voltei a ser convidado.

Além de ter histórias incríveis, o que você faz hoje com todo o talento?

Ainda desenho para algumas clientes, faço noivas e roupas de festa. Minha sobrinha, Izabella Moreira e Lucena, descobriu meus desenhos e estampas que estava guardados há muitos anos. Transformou muita coisa em camisetas para a grife Li.Ter.Ato. Também lançou uma caixa com ilustrações que contam a história dos meus elementos gráficos. Agora, passo um bom tempo em função desse trabalho. Além de dedicar muito tempo aos meus amigos.


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Edição de domingo, 13 de dezembro de 2009 
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