O irlandês Mark Boyle concluiu há uma semana seu projeto de passar um ano sem usar dinheiro. Desde 29 de novembro de 2008, ele tem vivido em seu trailer, instalado no município de Bristol, sudoeste da Inglaterra, sem depender de recursos financeiros para satisfazer as necessidades do dia a dia. O objetivo era demonstrar, de forma bem prática, as ideias expressas em sua teoria de freeconomy (aglutinação, em inglês, das palavras livre + economia), que prega economia de recursos como forma de proteger o meio ambiente e viver melhor.
Concluído o projeto, porém, Boyle nem pensa em ir a uma loja para gastar algumas libras em um copo de cerveja. Pelo contrário. Ele quer continuar com o mesmo estilo de vida, satisfeito com o modo como tem vivido nos últimos tempos. A comida vem, principalmente, do que ele mesmo planta; a energia com a qual carrega seu computador e telefone celular, de baterias alimentadas pela luz do sol. E assim, ele passou os últimos 12 meses, provandoque é possível viver na sociedade moderna sem desenvolver relações monetárias.
O propósito de Boyle, na verdade, é exatamente este. Argumentando sempre com o corolário ghandiano de "ser a mudança que você quer ver no mundo", o economista de 30 anos procurou colocar em xeque os padrões atuais de consumo. A ideia, de acordo com ele, surgiu em uma conversa sobre os problemas do mundo atual, e as causas que ele pôde identificar. "Não vemos as repercussões que nosso consumo têm nas pessoas e no ambiente. Se cultivássemos nossa comida, por exemplo, não desperdiçaríamos tanto alimento", escreve em seu blog.
Apesar do inusitado da proposta, que cumpre a finalidade de ajudar a chamar a atenção para suas ideias, a profissão de fé de Boyle está longe de ser uma iniciativa isolada. Em todo o mundo, estão se multiplicando projetos e ações que questionam o valor real do dinheiro e a importância do consumo em nossas vidas. Às vezes, pode ser uma campanha de apelo forte, como o Dia Mundial Sem Compras, cujo nome explica o propósito, celebrado no último dia 28 de novembro, já em seu 18º ano.
Em outras, a iniciativa gera um estilo de vida próprio, com seus idealizadores consubstanciando os conceitos que procuram divulgar. É o caso da família do bacharel em direito Thomas Enlazador, que se mudou para um sítio, no bairro da Guabiraba, Zona Norte do Recife, há dois anos, para desenvolver o centro ecopedagógico Bicho do Mato. Nele, o dinheiro não foi abolido, mas a lógica por trás de todo objeto e toda relação é gastar o mínimo possível.
A pintura das casas é feita com uma tinta composta de argila, cola branca e água; restos de comida e dejetos humanos, depois de compostados, são usados como adubo; a comida é esquentada em um forno solar; telhas são fabricadas com tubos de pasta de dente. Mensalmente, o local abriga uma feira de trocas, que tem uma moeda social própria (chamada de cristal), que só possui valor lá dentro, e promove a permutação de bens e serviços.
"Qualquer pessoa pode produzir algo. Um bolo, um colar", explica Enlazador, que mora no local com a mulher, Caline, os dois filhos e outras sete pessoas envolvidas na causa. "Nosso objetivo aqui é criar um modelo de habitação humana sustentável e, assim, educar, mostrar que existe uma forma alternativa de viver", acrescenta ele, que, assim como o irlandês, defende sua opção de vida na internet, com a página www.ecocentrobichodomato.org.
Thomas Enlazador se lembra, por sinal, de ter ouvido algo a respeito de Mark Boyle e sua ideia inusitada. Mas não conhece detalhes. Separados por mais de 10.000 quilômetros, os dois se unem em um objetivo ainda bem distante, mas cada vez mais comum a outras pessoas.