Mahmoud Ahmadinejad: Fora!
Pedro de Albuquerque // Escritor
pedrodealbuquerque.@wordpress.comA hipocrisia do discurso diplomático de resultados fáceis, notadamente ao encargo do ministro Celso Amorim, à cata de estatísticas, a formatar uma imagem de líder mundial para o presidente Lula, não faz claro à sociedade brasileira o escárnio que representa a visita do "Laranja Atômica": Mahoud Ahmadinejad.
De primeiro plano, como eu, por insistentes vezes, tenho denunciado, o relacionamento do Brasil com a ditadura teocrática do Irã dá-se em frontal violação à Constituição Federal tocante ao seu Artigo o 4º que expressamente estabelece para o relacionamento internacional, entre outros, os requisitos de: prevalência dos direitos humanos; autodeterminação dos povos; não-intervenção; igualdade entre os estados; defesa da paz; solução pacífica dos conflitos; repúdio ao terrorismo e ao racismo; cooperação entre os povos para o progresso da humanidade. Ora, a ditadura teocrática do Irã não atende a qualquer destes pressupostos.
Analisemos! De primeiro plano não há qualquer resquício de respeito aos direitos humanos no Irã. A república islâmica é regida pela Sharyah: um ordenamento jurídico canônico, não civil, retrógrado, sem expressão científica, fundado em superstições em socorro do fanatismo.
Este ordenamento determina o enforcamento de jovens por homossexualismo, o espancamento de mulheres pelos maridos por desobediência, o apedrejamento de mulheres por adultério, a mutilação de membros de adultos e de crianças de qualquer idade, por furto ou roubo. Mesmo por pequenos furtos em estado de necessidade. Também, a mutilação genital de mulheres, ainda crianças, para amputação do clitóris por exclusiva decisão paterna.
Institui o Dihmi que estabelece: a exceção de direitos civis e tributários, entre fiéis natos e convertidos, entre as etnias, entre muçulmanos e observadores de outros credos designados como infiéis; a proibição de culto público de outras religiões. Também o sectarismo social, cerceando a livre convivência, proibindo o casamento entrepessoas de religião e raça diferentes e determinando a moradia confinada de pessoas de outras etnias. Ou seja: em "ghetos" como na idade média. É o "apartheid" ao superlativo.
A Sharyah é a causa única da impossibilidade de paz para o Oriente Médio. Autorizado por ela é que, em 1940, o Mufti de Jerusalém, espécie de Cardeal na hierarquia muçulmana, Hajj Amin El-Husseini, tio do terrorista Yasser Arafat, negociou com Adolf Hitler a versão islâmica do Holocausto que Mahmoud Ahmadinejad diz abertamente querer reeditar. Nisso, obrigou a todos os homens o uso do lenço palestino e às mulheres o uso do véu sob pena de morte por fuzilamento.
O Irã patrocina, promove e acolhe o terrorismo internacional suprindo de armas, informações privilegiadas e treinamento a Alkaeda, o Hamas e o Hizbolah: este já legalizado na Venezuela. Não bastasse isto, a ditadura teocrática da qual o meliante Ahmadinejad é representante, não somente acoita como nomeou seu ministro da defesa um seu assecla: o criminoso comum Ahmad Vahidi. Isto para humilhação da Justiça Argentina que o reclama.
Por fim, apenas para remate, todos os cidadãos iranianos opositores do regime que participaram dos protestos do mês de junho do corrente ano, contra a fraude eleitoral que elegeu Ahmadinejad, estão sob repressão absoluta. Oitenta e sete dessas pessoas foram trancafiadas para cumprir penas de até quinze anos. Cinco delas estão condenadas à morte por enforcamento. É por aí mesmo. No meu blog tem mais: muito mais!
Como educar os filhos
Assuero Gomes // Médico
assuerogomes@terra.com.br Quantos pais e mães, ao amadurecer de suas vidas, se perguntam: eduquei bem os meus filhos? Em que foi que errei? Por que seguiram este ou aquele caminho? Deveríamos ter sido mais rígidos, deveríamos ter sido mais brandos? Dado mais liberdade ou cobrado mais? A sensação de que agora é tarde e a angústia de poder ter sido melhor é mais um peso, um peso a mais, no árduo e difícil ofício de ser pai, de ser mãe.
Aprendamos pois com a natureza, para absorver seus métodos pedagógicos e aplicá-los a nós mesmos, que embora sendo da própria natureza, foi nos dado como um fogo lúdico perigoso, a liberdade de termos nosso próprio arbítrio, condicionado no nosso tempo e no nosso espaço.
Somos da natureza, mas possuímos além do livre arbítrio o poder de ter consciência sobre ela e de lha interferir.
A natureza dispõe sobre todas as coisas um processo dinâmico de reatividade (ação e reação), ela é dialética, ela reage sempre, tudo flui de maneira sinérgica ou antagônica,mas flui. A questão é que a natureza sempre reage, porém nem sempre da mesma forma.
Cada indivíduo, cada planta, cada cometa ou galáxia, cada protozoário, é único, mesmo sendo formados por partículas atômicas semelhantes e limitadas.
A grande lição e grande angústia que aprendemos é a de que não há fórmulas prontas nem infalíveis, nem caminhos perpétuos, nem segurança absoluta em nada. Sempre a surpresa nos guiando a cada passo. Uma série de condições, a cada instante ou geração, nos desinstala na proposição do novo.
Após gerações de uma educação rígida e formal os pais e os sistemas educacionais, incorporando à luz dos novos conhecimentos psicopedagógicos, criaram uma geração de pais dispostos a nada proibir. As crianças e os jovens, perdendo seus limites perderam também suas referências. Navegar sem referências não é preciso e é quase impossível, as chances de naufrágio são enormes.
Ficamos nós, os pais, como timoneiros sem barco, ou como aquele arqueiro que lançou sua flecha e a perdeu de vista, sem saberjamais se acertou o alvo ou se ela se encantou entre as nuvens ou se aterrissou em algum pântano. Não controlamos o vento, embora miremos o alvo ou o porto. Miramos com amor, este é o consolo e a certeza.
Como educadores imaginamos uma caminhada na qual levamos um precioso pássaro, numa gaiola segura e confortável, onde nada falta. De cada pedra, de cada tropeço, de cada tempestade ou brisa, nós o protegeríamos com seu precioso conteúdo. Sofreríamos por ele cada passo. Evitaríamos assim, do voo livre, o risco da flecha alheia ou a bala de um rifle caçador, ou a fome de um gavião. Ao final o nosso destino seria juntos, chegarmos a um belo pomar.
Doce ilusão amorosa! Temo que a opção que nos deu a vida para educar os filhos é apenas lhes dar a chave e deixar a porta aberta. Apreciar seu voo enquanto nossa vista alcança e o sol se põe, e jamais se perguntar novamente onde errou ou onde acertou, pois o amor foi quem fez o barco e o leme, quem colocou as estrelas ao norte, quem deu as bússolas, a flecha, e quem retesou o arco antes do lançamento, quem fez o caminho e a chave da gaiola, que pulsou o coração e o arfar das asas. Não há erros nem acertos, quando é permitida pedagogia do amor, apenas vida. Misteriosa e bela vida, na qual lançamos nossos filhos e filhas.
Um gritador de poesias que se chama Capibaribe
Silvia Góes // Jornalista
silviagoes@integrapernambuco.com.brSessenta barcos e cerca de 300 pessoas estão sendo esperadas. Os barcos vão formar uma longa cruz pelo rio Capibaribe. Ao longo de 15 quilômetros navegarão apenas tocando música e exibindo faixas e cartazes, todos em silêncio, nada de alto-falante ou gritaria, é um protesto poético. Ao anoitecer, várias lamparinas serão acesas e a cruz iluminada seguirá para dizer que "O Capibaribe está de luto. Luto pela vida". Isso tudo vai acontecer nesta terça (24), quando se comemora o Dia do Rio. A iniciativa é do Movimento Recapibaribe e a saída está marcada para 16h, no Capibar, na Rua Tapacurá, em Casa Forte, por trás do Museu do Homem do Nordeste. O cortejo seguirá até o Ginásio Pernambucano. E o melhor, qualquer pessoa pode participar.
O protesto tem o objetivo de chamar atenção para as necessidades emergenciais e cuidados necessários com o rio, com benefícios voltados para a cidade do Recife e para os pescadores que sobrevivem do "cão sem plumas", comofoi imortalizado há tanto por nosso João Cabral de Melo Neto, que hoje tem uma estátua em suas margens, contemplando a aorta triste, quase morta, em sua pungente luta para ainda alimentar as veias da cidade que não pára, que não pode parar.
É, faz tempo que tem muita gente infinita fazendo poesia para dizer do grito do rio. Mas precisávamos também de uma Socorro Cantanhede, coordenadora do Recapibaribe, que usa o e-mail socorrio@hotmail.com, para juntar 60 barcos e 300 pessoas infinitas e tanta gente mais em tantos passos antes para dizer tanta coisa, às vezes gritando e às vezes em silêncio, navegando apenas.
Se a faca se chama João, o grito se chama Socorro. E o rio nos chama, ainda que uma chama seja apenas uma chama, já é uma luz acesa, ou um monte de lamparina, tanto faz, dependendo do escuro, tanto faz. Estarei lá. Acreditando em Socorro, em seus olhos transparentes e também para ajudar os pescadores, porque tenho visto muitas garças nas águas, mas também muitas redes que voltam vazias e muitas sacolasplásticas dançando na correnteza onde os peixes deveriam brincar.
O Movimento Recapibaribe até agora funcionou como uma ação independente, em seus 15 anos de história, contando com a força e a dedicação do casal Socorro e André Luiz Cantanhede, que há 17 anos inauguraram o Capibar na beira do rio e começaram a ouvir os pedidos de socorro vindos das águas. Agora vão transformar em ONG para facilitar a execução dos projetos e acreditam que até dezembro a papelada deverá ficar pronta. "Me tornei uma pescadora da consciência ambiental", diz Socorro, com seus olhos verdes, que inspiram uma vontade danada de ver um dia o mesmo tom nas águas turvas do nosso "cão sem plumas".
Vou porque o Capibaribe era para ser a coisa mais bonita dessa cidade inteira. E vou para amar João Cabral podendo abrir os olhos debaixo d´água, ou pelo menos para tentar. Mergulhar é sempre um jeito de ver outro jeito de dizer as coisas, seja um movimento, seja uma pintura, seja uma palavra ou uma poesia. E às vezes penso que essa era para ser a nossa missão no mundo. Só isso. O resto viria naturalmente, tão claro quanto a sede ancestral da vida dos rios, que de uma nascente pura renascem é quando mergulham no sal do mar. E vou porque sempre achei lindo o silêncio, quando dele se ouve tudo. E porque embelezar a lida é urgente e acho que isso é o mais poderoso protesto da existência.
Festa no céu de Jonas Ferreira Lima
Maria José Ferreira Lima // Professora
eme.josef@gmail.comGostaria de homenagear um saudoso filho da Capunga, que durante anos contou-me suas histórias e andanças por lá, como o trajeto de bonde com o ponto de retorno na Ponte U'choa, atualmente ponto histórico de nossa cidade. Seu trajeto a pé da Faculdade de Direito, e os acontecimentos de sua turma, e ríamos juntos, mesmo sem conhecer todos os seus colegas.
Escrever sobre Jonas Ferreira Lima foi a forma que encontrei de prestar a minha saudosa homenagem ao homem humilde; bom amigo; misto de pensador e artista; advogado brilhante; intelectual criativo; jornalista culto; hábil com as letras, e, apaixonado pelo violão. Membro da Academia de Letras Jurídicas de Pernambuco e da Academia Pernambucana de Ciências, eleito por três vezes conselheiro da OAB-PE. Foi eleito presidente da Associação dos Procuradores Federais de PE em agosto de 1979, e membro do Instituto dos Advogados de PE. Foi homenageado como Cidadão Olindense, e entre várias honrarias destaco a"Medalha Conselheiro João Alfredo Correia de Oliveira," na categoria mérito judiciário, por se sobressair por relevantes serviços prestados à Justiça do Trabalho da Sexta Região. Pelo exemplo, buscou cultivar nos seus as virtudes morais que um ser humano deve ter. Os que o conheceram sabem da grandeza espiritual e humana que existia nele e a disponibilidade para compartilhá-lo com os outros de modo didático e generoso e se pode afirmar que ele foi um ser humano dos melhores.
Com sua criatividade, mandou construir uma bicicleta diferente para levar os netos Jonas e Aldo Filho para a escola, o que fazia com alegria e simplicidade imensurável.Como articulista dos jornais, escreveu inúmeros artigos tanto para o Diario de Pernambuco como para o Jornal do Comércio.Destaco o escrito em 3.01.2003, em que relembra com carinho a caminhada jornalista de Dr. Joezil Barros. Em outro artigo "Por quem os sinos dobram", datado de 30.01.2003, Jonas afirma que: "O maior dos males é aquele que uma vez praticado, elimina a essência do que não se pode repor". Como advogado, escreveu no J.C. em 29.09.88, "o ofício de advogar não compactua com o mercantilismo", já numa alerta para os mercenários jurídicos.
O advogado e jornalista Jonas Ferreira Lima enfrentava os casos jurídicos com engenhosidade, demonstrando, com sutileza, a fragilidade da argumentação do seu opositor, ou ainda quando escrevia seus artigos nesse jornal sobre questões políticas e sociais, mostrava a falácia que envolvia os temas, compartilhando as palavras do sábio Rui Barbosa: "O escritor curto em ideias e fatos será, naturalmente, um autor de ideias curtas assim como de um sujeito de escasso miolo na cachola, de uma cabeça de coco velado, não se poderá esperar senão breves análises e chochas tolices".