"Eu não vim aqui para explicar, vim para confundir", na boa frase do Velho Guerreiro. Se um filme tivesse epígrafe, esta poderia servir para o de Nelson Hoineff, justamente o que ele fez sobre Abelardo Barbosa. Alô, Alô, Terezinha! pode ser um documentário sobre Chacrinha, mas muito mais sobre seu tempo e sobre a gente que gravitava em torno do apresentador, em especial as chacretes. Hoineff apresenta as moças em material de arquivo e em imagens atuais.
O tempo, inclemente, seria o comentário banal. Passa para todos, produzindo estragos. Passou para as chacretes, danificando seu material de trabalho. Algumas parecem bem consigo mesmas; outras nem tanto. Uma fala que fazia programas para complementar o orçamento, outra nega. Uma delas, a Índia Potira, tira a roupa dentro de um chafariz e diz que realizou um sonho. Há imagens também de calouros buzinados pelo apresentador.
 Documentário sobre Chacrinha e sua gente divide opiniões. Foto: CinePe/Divulgação |
O documentário de Nelson Hoineff venceu o Festival do Recife. Não foi uma vitória tranquila. Virou questão de honra para parte da críticadetestar Alô, Alô, Terezinha!. As feministas abominam o filme. Dizem que não é sobre Chacrinha, mas sobre as chacretes. Como a maioria dessas artistas se deu mal na vida, o filme seria, ou é, uma exploração grosseira da vulgaridade e da grosseria.
A vulgaridade se faz presente, sim. Chacrinha era vulgar. Atirar bacalhau na plateia não é exatamente comportamento de gente fina. Mas Chacrinha era um provocador e a vulgaridade que ele retratava na TV era a do povo brasileiro. Em plena ditadura, era preciso ousadia para jogar aquele Brasil na cara das pessoas (e dos militares).
O documentário produz na plateia o mesmo tipo de reação que o programa do Chacrinha: desperta o sadismo do público, num exercício de exposição pública de fragilidades e caos calculado para produzir experiência anárquica. Mexe com sentimentos ancestrais, próximos aos dos romanos que iam ao Coliseu ver lutas de gladiadores ou condenados entregues às feras. A TV é a arena contemporânea onde o voyeurismo sádico se eterniza. Hoineff, homem de TV, sabe por onde pisa e presta sua homenagem ao mestre do gênero. As discussões éticas estão abertas.