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Gastronomia // Os vinhos do São Francisco
Na região árida do Sertão pernambucano são fabricados oito milhões de vinhos finos por ano
Pollyanna Diniz // pollyannadiniz.pe@diariosassociados.com.br

Por lá, o calor dura o ano inteiro. Não importa muito se para o resto do país é primavera, verão, outono, inverno. No Sertão pernambucano, região banhada pelo rio da integração nacional, o Velho Chico, tem-se a impressão de que o verão é a única estação do ano. O cenário mais comum é o de terra esturricada do sol, plantas secas. Quem diria então que esta região tão árida seria responsável pela elaboração anual de oito milhões de litros de vinhos finos? Chefs de cozinha de todo o país que visitaram as vinícolas da região na semana passada (estavam aqui por conta do Festival Gastronômico de Pernambuco) também duvidaram que seria possível. "É absolutamente inacreditável. Já visitei muitas vinícolas e é muito bom ver que eles estão conseguindo esse resultado tão bom nesta área", diz Fernando Couto, do restaurante Confraria do Sabor, em Campos do Jordão.

Um dos responsáveis pelo sucesso da produção de vinhos em pleno Sertão é a irrigação possibilitada pelo rio São Francisco - água nos momentos precisos, na medida exata. Mas indispensáveis mesmo, por incrível que pareça, são sol, calor e luz o ano inteiro. Foram essas características que trouxeram o empresário português João Santos, da vinícola Rio Sol, a Lagoa Grande. A vinícola faz parte do grupo Global Wines, que tem outras nove empresas em Portugal. Eles queriam investir no Brasil, mas não sabiam exatamente em que área. Foi quando João bebeu um vinho elaborado no São Francisco. "A possibilidade de ter duas safras de uva por ano, um ciclo contínuo, é o grande diferencial da região", diz.

A comparação inevitável com grandes regiões produtoras de vinho, como a França, vem logo em seguida: "Aqui temos a regularidade das safras e a certeza de que vamos ter boas uvas. Não podemos viver de uma safra mítica, que só aconteceu naquele determinado ano. Não é assim que vamos conquistar os nossos consumidores", avalia. Ainda de acordo com Santos, 70% dos clientes dos vinhos produzidos no Vale do São Francisco são brasileiros e o restante da produção segue para exportação em até 20 países. Mas a intenção é aumentar esse número, já que o brasileiro bebe pouco vinho por ano: menos de dois litros por pessoa. Mesmo assim, os vinhos produzidos no Vale do São Francisco já representam 15% do mercado nacional.


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