Uma técnica de transplante polêmica que vem sendo aplicada em alguns países da Europa foi apresentada ontem durante o XI Congresso Brasileiro de Transplante. Trata-se do transplante de rim e fígado realizado por meio de doador com coração parado. Ao invés de captar o órgão com o doador em morte encefálica e coração batendo,
 Médico francês Denis Glotz acredita que a técnica poderá diminuir a lista de espera por rim e fígado. Foto: Inês Campelo/DP/D.A Press |
como acontece no país, os especialistas estrangeiros propõem a realização do transplante mesmo quando o doador não tem batimentos cardíacos. O procedimento está sendo feito na França, Inglaterra, Holanda e Espanha em pacientes que tiveram parada cardíaca e não retornaram. Aqui, a legislação brasileira permite o transplante de órgãos sólidos, como fígado e rins, apenas com doadores com morte encefálica. Pela regulamentação do Conselho Federal de Medicina, somente as córneas, os tecidos e ossos podem ser captados de um doador com o coração sem batimento.
O nefrologista e imunologista francês Denis Glotz, que apresentou estudo sobre a técnica, acredita que a adoção do modelo poderá diminuir a lista de espera por um transplante no mundo. E no Brasil, disse, não seria diferente. Em Pernambuco há 1,9 mil pacientes na lista de espera precisando de um transplante de rim e cerca de 300 aguardam por um fígado. Mas a grande dificuldade para desenvolver a técnica com sucesso é exatamente o tempo. Enquanto no critério de morte encefálica a retirada dos órgãos pode ser feita com até seis a oito horas, na técnica do coração parado os órgãos precisam ser transplantados no prazo máximo de três horas. "As equipes têm que estar bem treinadas e é preciso ter um serviço excelente de primeiro socorro, composto por médicos e emfermeiros. Afinal, são eles quem farão a captação do doador que teve o coração parado", esclareceu.
Segundo o médico, quando um paciente está infartado e recebe massagens cardíacas, além de outros procedimentos, e seu coração não volta a bater, ele já pode ser preparado para ser submetido ao transplante. A técnica consiste em introduzir umcatéter em um vaso na região da virilha para colocar uma solução de soro. E assim manter os órgãos (fígado e rim) preservados até que a família autorize a retirada deles. "Sem essa medida, as células dos órgãos morreriam pela falta de circulação sanguínea", observou. Na França, já foram realizados mais de 500 transplantes, onde a captação dos doadores foi realizada em hospital por meio do coração parado. Lá, segundo Glotz, há 8 mil pessoas aguardando por um rim. Em Nova Yorque, nos Estados Unidos, o tempo de espera por um rim é de oito anos.
O nefrologista francês visitou os centros de transplantes do Instituto Materno Infantil de Pernambuco (Imip) e do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco. E, segundo ele, as duas unidades estão bem aparelhadas. O presidente da comissão organizadora do congresso, Amaro Medeiros, chefe do setor de transplantes do Imip, acredita que o melhor controle da captação tradicional de doadores por meio da identificação da morte encefálica consiga diminuir de 20%a 30% a lista de espera por um órgão. Mesmo percentual que é prometido com a captação usando a técnica de coração parado.