Em um mesmo fim de semana, dramas parecidos aproximaram famílias diferentes, marcadas pelo vício das drogas. Gente que não se conhece. Lares destruídos que têm no crack o elo em comum.
 Área próxima à boca de fumo, em Piedade, onde José Vanderlei de Arruda Neto, 21 anos, foi assassinado com cinco tiros na noite do último sábado. Foto: Inês Campelo/DP/D.A Press |
Às 22h40 de sábado, o prestador de serviços do Tribunal de Contas do Estado (TCE) José Vanderlei de Arruda Neto, 21, foi assassinado a alguns quarteirões de casa, próximo a uma boca de fumo. Levou cinco tiros. A Polícia acredita que possa ter acontecido desavença com fornecedores da droga que já tinham batido à porta da casa do jovem, de classe média, em Piedade, para cobrar dívidas do vício. Na outra história, Thiago Silva Pereira, 22 anos, chegou à emergência do Hospital da Restauração com perfurações no abdomen feitas a faca. O agressor teria sido o próprio pai que, no desespero, atingiu Thiago para tentar se defender. O rapaz estava drogado. Passa bem no HR. Só no Recife, cerca de 15% dos pacientes atendidos nos seis Centros de Atenção Psicossocial e Outras Drogas(CAPSad) da prefeitura são usuários de crack. Número que não para de crescer.
Os caminhos que levaram José Vanderlei a entrar no mundo das drogas não têm explicação. Jovem de classe média, ele morava com a família numa casa confortável no bairro de Piedade, tinha namorada, sempre estudou em escola particular e chegou a iniciar o curso de administração em uma faculdade privada. Contratado há dois anos por uma empresa terceirizada, trabalhava no setor de protocolo do TCE, na Rua da Aurora. Estava de férias desde a última segunda-feira. Tinha o que mais precisava: o apoio sempre presente da família. Há cinco anos escolheu o caminho que, para ele, não teve volta.
Aos poucos, a família começou a receber informações de que ele estava frequentando bocas de fumo. O temperamento e as atitudes mudaram. E objetos começaram a sumir de casa. Computador, bicicleta e incontáveis celulares, os dele e os que não lhe pertenciam, viraram moeda de troca no tráfico. No começo do ano, José Vanderlei iniciou um tratamento sem internação, que durou cinco meses. A família, mais aliviada, acreditava que poderia estar ali o fim de um drama que parecia não acabar. Ainda assim, não descuidava dos passos do jovem, todos meticulosamente observados. Na noite do último sábado, Vanderlei ficou sozinho em casa. Um de seus irmãos foi visitá-lo, conversou com ele e chegou a dizer que iria trancar a residência por fora para não deixá-lo sair. Mas foi convencido de que não havia necessidade para tanto. Vanderlei disse que não iria a lugar algum. Mas foi. O destino: a boca de fumo.
Das balas que o atingiram, três acertaram a cabeça e duas o pescoço. Um dos disparos provocou uma fratura na mandíbula. Segundo o delegado de plantão da Força Tarefa Josedith Ferreira, os tiros, possivelmente, não foram de armas de grosso calibre. O caso será investigado pela Delegacia de Piedade, mas a informação que chegou aos conhecidos de Vanderlei foi de que o jovem havia ido à boca de fumo naquela noite e teria sido espancado por um homem de identidade desconhecida, que teria dito para Vanderlei ir embora. O agressor teria prometido que se retornasse ao local e ainda encontrasse o rapaz por ali, não haveria segunda chance. A ameaça foi cumprida.
De acordo com o delegado, três pedras de crack foram encontradas nas roupas do jovem e encaminhadas ao Instituto de Criminalística para análise. O corpo do jovem foi enterrado no final da tarde de ontem no Cemitério Parque das Flores. A linha de investigação da polícia é de acerto de contas envolvendo droga.
Temor - Um destino como o de José Vanderlei é o que Zelma Jorge da Silva, 50, mais teme para um dos sete filhos, Thiago Silva Pereira que, segundo familiares, é usuário de drogas, entre elas o crack. Ontem, ele passou por uma cirurgia no Hospital da Restauração e encontra-se consciente e orientado. Mas as marcas dessa história não ficam só nas cicatrizes das facadas desferidas pelo próprio pai. Estão fincadas em uma família destruída pela dor. Segundo um irmão de Thiago, José Carlos da Silva, 24, a vítima começou uma brigacom familiares ao voltar de uma boca de fumo perto de casa, em Ponte dos Carvalhos, no Cabo de Santo Agostinho. Agressivo, ele teria pego uma faca e ameaçado o pai, o pedreiro Carlos Pereira da Silva, que teria acertado o filho enquanto se denfendia. Arrependido e deprimido, Carlos disse aos familiares que irá amanhã à delegacia se apresentar.
Saiba mais- O crack tem alto poder de causar dependência. Segundo especialistas, isso pode acontecer logo após as primeiras inalações
- Quando o crack é queimado, sua fumaça é aspirada e passa pelos alvéolos pulmonares
- Por meio dos alvéolos, o crack cai na circulação e atinge o cérebro
- No cérebro, os prolongamentos existentes nos neurônios chamados de dentritos são separados por um espaço chamado sinapse, onde substâncias químicas são liberadas e absorvidas, entre elas a dopamina
- Quando surge um estímulo, a dopamina cai no interior da sinapse, penetra nos receptores do neurônio seguinte e transmite a sensação de prazer
- A dopamina que sobra na sinapse é reabsorvida pelos receptores da membrana do neurônio que emitiu o sinal e a sensação de prazer, que dura cerca de 5 minutos, desaparece
- A droga provoca o aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca. Há risco de convulsão, infarto e derrame cerebral
- O crack é distribuído pelo organismo pela circulação sanguínea
- Ele é metablizado no fígado e eliminado pela urina
Onde encontrar ajuda no Recife?CAPSad - Estação Vicente Araújo - Rua Augusto Rodrigues, 165, Torreão
CAPSad 24hs - Rua Rosa e Silva, 2130- Tamarineira
CAPSad CECRH - Rua Rondônia, 100 - Cordeiro
CAPSad - Professor José Lucena, Rua Itajaí, 418 - Imbiribeira
CAPSad e Casa do Meio do Caminho - Albergue Terapêutico - Prof. René Ribeiro. Recife/DS V, Rua Jacira, 210, Afogados
CAPSad e Casa do Meio do Caminho - Albergue Terapêutico - Espaço Prof. Luiz Cerqueira. Recife/DS I. Rua Álvares de Azevedo, 80, Santo Amaro
CAPSad e Casa do Meio do Caminho - Espaço Jandira Mansur - Rua Hamilton Ribeiro, 236, Campo Grande