Para algumas pessoas, conhecimento precisa ter cor, cheiro e textura. Para outras, chips, fios, gigabytes e termos esquisitos como circuit bending, técnica de construir instrumentos musicais a partir de brinquedos, rádios, toca-fitas, disco rígido de computador e todo tipo de sucata eletrônica.
 Crepúsculo dos ídolos, do pernambucano Jarbas Jácome, utiliza ambiente com cinco TVs, câmera e microfone. Foto: Mariza Hirata/Divulgação |
O Continuum, I Festival de Arte e Tecnologia do Recife, pretende discutir durante dez dias os rumos da arte atual, principalmente as que utilizam um suporte tecnológico como base para a criação, em um evento que agrega cinema, música, informação e áreas de conhecimento correlacionadas. A iniciativa do evento veio da constante interação entre arte e tecnologia nos últimos tempos e da necessidade de promover na cidade um evento do tipo, segundo o produtor Antônio Gutierrez, da Rec Beat. "Recife tem vocação para a tecnologia. Eu lembro que antes eu andava pelo Recife Antigo e ele era essencialmente um polo gastronômico. Hoje ele se transformou em um centro tecnológico, com o Porto Digital e o Cesar."
A partir de hoje, já estão à mostra na Torre Malafoff as cinco exposições selecionadas para o evento, todas realizadas com recursos eletrônicos. O pernambucano Jarbas Jácome, vencedor da edição 2009 do prêmio Sérgio Motta de Arte e Tecnologia, apresenta Crepúsculo dos ídolos, um ambiente com cinco TVs ligadas, um microfone e uma câmera à frente delas. Quando o visitante produz algum efeito sonoro, a imagem das TVs distorce de acordo com a intensidade e o tempo de duração do som produzido, variando nas cores do crepúsculo. Com o silêncio, o efeito desaparece. Esse resultado foi alcançado a partir do software ViMus, que manipula imagens em movimento a partir de efeitos sonoros e foi desenvolvido durante pesquisas de Jácome. O coletivo hispano-alemão Fuss, formado por designers, músicos e programadores, apresentam a performance Ambientador - Evolution, onde criam diferentes atmosferas visuais com um sequenciador audiovisual capaz de gerar ambientes e dimensões. Evolution conta a história da humanidade com inserção de imagens que representam o Big-Bang e ícones religiosos. As imagens e os vídeos em tempo real são complementadas com projeções de VJs, DJs e músicos presentes.
Ainda integrando a programação do evento, workshops e seminários discutem game arte, o destino dos livros na era digital, apropriação artística das mídias móveis e novas linguagens cinematográficas. As oficinas, destinadas a iniciados, iniciantes e crianças, abordam, entre outro temas, arte digital móvel e chipmusic, uma forma de compor música com o uso de ferramentas alternativas como com consoles e chips de 8-bits que eram usados em videogames Atari e similares. Os instrutores também vão ensinar o uso do Famitracker, um programa que qualquer pessoa pode fazer música, gravá-la e distribuí-la sem nunca ter tido aula de teoria musical, além de ser um software totalmente gratuito. Nos finais de semana, a programação é ocupada por shows de artistas que exploram uma linha musical eletrônica e suas vertentes. Em parceria com o Observa e Toca, se apresentam Júlia Says, Diversitrônica, Sonic Jr., Salvador Santo, China e o Coletivo Chippanze, especializado em Chiptune, entre outros. Toda a programação do festival é gratuita, livre e democrática, 'como a informação que circula na internet deveria ser', propõe o evento.