Desde os 12 anos, Júlio Francisco dos Santos repete a mesma atividade. Ele recebe envelopes de todo o Brasil contendo uma foto e uma carta anexada. Na carta, uma descrição detalhada da figura da foto, cabelos castanhos médios, pele alva, olhos pretos. Às vezes encontra algumas particularidades, trocar os olhos castanho por verdes, paletó no lugar da camisa fotografada, ou até um vestido de noiva imaginário. É com esse material que ele pode então começar a modificar aquela fotografia como só um artista poderia fazer. A técnica secular da fotopintura, que retoca uma fotografia, antiga ou nova, fez sucesso por volta de 1860, quando a fotografia se popularizou e todos andavam nas ruas com sua caixinha de guardar momentos nas mãos. Quando ela chegou ao Brasil, mais precisamente ao Nordeste, não se sabe ao certo. Segundo Júlio, em 1856, um português chamado Joaquim Pacheco inaugurou, no Ceará, um estúdio de retoques. Mais tarde, o pai de Júlio acabouse tornando sócio de um pernambucano que montou um estúdio em Fortaleza, mas só cuidava da parte administrativa. Era a segunda vez que o destino dele se encontrava com Pernambuco. Aos sete anos veio estudar em Garanhuns, no Mosteiro Beneditino, voltando ao Ceará aos 12. Foi com o sócio do pai que ele aprendeu o que sabe hoje, e posteriormente acabou assumindo o estúdio, que chegou a contar com 21 pessoas nas funções de recebedor, reprodutor em negativo, ampliador para o papel que recebe a tinta, retocador de defeitos, roupeiro, afinador, repassador e por fim, o envernizador. Hoje, só restam Júlio e um auxiliar. A disparidade é explicada por uma razão simples, a técnica da fotopintura está em extinção.
 Mestre Júlio ministrou durante o SPA das Artes um minicurso de três dias no Hospital da Tamarineira Foto: Fernanda Mateus / Divulgação |
O fim dessa arte não se dá por motivos ideológicos. Os materias necessários para a execução não são mais produzidos. O corante adequado, o papel de fibra e os pigmentos de qualidade hoje são arduamente substituídos por látex e corante de bolo. Mas a forma de não deixar o estilo desaparecer completamente veio com a tecnologia. "Usar o computador virou questão de sobrevivência", afirma o mestre Júlio, um dos únicos artistas vivos que dominam a técnica original. Esse título ele não contesta. "Não é me gabando, devem ter algumas poucas pessoas que fazem isso, mas que não têm a oportunidade de aparecer, eu não conheço nenhuma." Ao adotar o computador como ferramente, ele utiliza o Photoshop para pincelar suas fotografias. Segundo o artista, muita gente modifica fotos com o programa no estilo antigo, mas fazem montagens, e não pintura, tirando o valor agregado. "Com o avanço desenfreado da tecnologia, a fotografia também vai perder o símbolo histórico. Os laboratórios estão vazios e os HDs cheios", contesta o artista. "O retrato pintado só existe mesmo no saudosismo, eu tento resgatar a dignidade dele", complementa. A técnica da fotopintura fez mais sucesso no interior, principalmente de Pernambuco. A esse fato, mestre Júlio atribui um motivo sociológico. "Os senhores que encomendavam as pinturas queriam ser exemplos para os filhos. Apesar de trabalharem com a enxada, queriam ser retratados de paletó e gravata, como homens de negócios, pois era assim que eles vislumbravam o futuro da prole. Já para o homem da cidade que efetuava a encomenda, aquilo tinha um registro histórico", analisa.
Nesta edição do SPA da Artes, mestre Júlio foi convidado a ministrar uma oficina de três dias de retrato pintado. Em sua vida, ele só ensinou em três minicursos e não faz ideia do que vai acontecer com a técnica após sua morte. Até hoje, a venda de retratos pintados é intermediada por vendedores ambulantes. Ele recebe as encomendas, produz e entrega ao vendedor. "Eu espero que núcleos como esse possam formar seguidores. É importante para a história, para a tradição. Eu estudei para ser monge beneditino, mas trabalhei para dar credibilidade ao ramo que abracei."