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Arquitetura moderna ameaçada de extinção
RESGATE // Pesquisa do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano da UFPE revela preocupação com o desaparecimento desses edifícios
Tânia Passos
taniapassos.pe@diariosassociados.com.br


Um apartamento de 327 metros quadrados de frente para o mar. A tentação não faz parte de nenhum novo lançamento da construção civil, na Avenida Boa Viagem, Zona Sul da cidade.

"Foi amor à primeira vista. Já na entrada do edifício decidi que queria morar aqui". Cristina Almeida, moradora do Mirage. Foto: Júlio Jacobina/DP/D.A Press
Estamos falando do Edifício Michelângelo, que passou a ocupar a Avenida Boa Viagem no início da década de 1970. Com 37 anos, o prédio de 13 andares chega a passar quase despercebido ao lado dos grandes espigões que se instalaram na beira-mar. Mas é um marco da arquitetura moderna pernambucana. O projeto assinado pelo arquiteto Acácio Gil Borsoi incorporou a filosofia das grandes casas sobrepostas em forma de edifício com a pretensão de levar a classe média para a avenida. Pioneiro numa topologia que se espalhou na avenida, o prédio, que é um dos ícones da arquitetura pernambucana, sofre com a falta de manutenção. E ele não é o único ameaçado no Recife. Ou pela falta de manutenção ou pela substituição por prédios mais novos.

Uma pesquisa do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) revela a preocupação com o desaparecimento da arquitetura moderna pernambucana contemporânea, particularmente aquela produzida entre 1960 e 1990, que se tornou referência nacional na arquitetura brasileira do século 20. Um dos principais méritos da escola pernambucana, segundo o coordenador da pesquisa, Fernando Diniz, foi estabelecer uma adequada relação com a paisagem e o contexto urbano e a relação do interior com o exterior.Entre os exemplos apontados na pesquisa, estão o já citado Michelângelo e os edifícios Mirage, na Rua dos Navegantes, em Boa Viagem, do arquiteto Borsoi; Barão do Rio Branco, localizado na Rua Giriquiti, na Boa Vista, projeto de Delfim Amorim; Sahara, na Rua Bruno Velozo, em Boa Viagem, projeto de Vital Pessoa de Melo; e Villa Mariana, na Rua Padre Roma, no Parnamirim, de Wandenkolk Tinoco.

A falta de reconhecimento do patrimônio moderno local remete, segundo o pesquisador, a não valorização da arquitetura colonial no início do século passado. "Naquela época a arquitetura colonial não tinha o reconhecimento que tem hoje. Dentro de uma ou duas décadas, os modelos da arquitetura moderna que se mantiverem preservados vão ser muito valorizados", afirmou.

Híbridos -O charme da arquitetura moderna, já reconhecido em outros lugares do mundo, a exemplo do Rio de Janeiro, poderá ser o diferencial em meio aos modelos mais novos. A grande preocupação dos pesquisadores é se os imóveis vão permanecer com as estruturas originais sem mudanças que descaracterizem a sua linha arquitetônica.

Mesmo sendo um dos mais preservados, o Mirage, em Boa Viagem, está prestes a passar por uma reforma. A atual guarita, que não estava prevista no projeto original, será substituída por outra que obedeça as linhas de contorno do edifício. No térreo, onde há uma área espaçosa e bastante ventilada vão ser criados ambientes delimitados por vidros para uso social e novas garagens. "O projeto não é do escritório de Borsoi, mas ele está sendo consultado pela nossa arquiteta", revelou a síndica Cristina Almeida, que resolveu morar na Zona Sul há cinco anos e se apaixonou pelo prédio. "Foi amor à primeira vista. Já na entrada do edifício decidi que queria morar aqui. Comprei o apartamento sem nem olhar todos os cômodos", revelou.

Também o Edifício Michelângelo começará a ser reformado a partir do próximo mês. A obra teve o projeto elaborado pelo escritório do arquiteto de Acácio Gil Borsoi. Apesar disso, serão feitas alterações no projeto original. "Na fachada parte do concreto usado nas varandas será substituído por um tipo de granito", revelou a síndica Ana Vieira.

Qualquer mudança no projeto original é vista com preocupação pelos pesquisadores. "Nem todos os arquitetos têm a noção do valor patrimonial.Até mesmo os que estão sendo estudados. Alguns deles estão mais preocupados com os novos projetos", revelou Fernando Diniz. Uma das preocupações do estudo é justamente estabelecer critérios mínimos para garantir a autenticidade nas operações de conservação do patrimônio moderno. "Há prédios que sofrem alterações sem que o arquiteto que elaborou o projeto seja consultado. Por causa disso, a obra acaba sendo descaracterizada. São os chamados prédios híbridos", afirmou Diniz. O trabalho iniciado há dois anos só deverá ser concluído em 2010.


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Edição de domingo, 6 de setembro de 2009 
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