"Só no dia que faltar água em casa as pessoas vão desenvolver uma consciência ambiental?". A pergunta é feita pela designer de moda Amanda Braga no início de uma conversa sobre design sustentável.
 Designers Amanda Braga e Juliane Miranda dizem que moda passa por período de autocritíca. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press |
Para alguns, soa estranho que o questionamento venha de alguém ligado à moda, um ambiente que coloca no mercado produtos com prazo muito curto de validade e promove o surto consumista como lema de vida. Essa observação, tratada como verdade quase universal, segundo Amanda não faz mais tanto sentido. "A moda passa por um período de autocrítica. Estilistas e grandes marcas investigam, hoje, como lançar novidades sem comprometer a saúde do planeta", defende-se a moça, livrando junto a pele de muita gente.
Na sua lista de absolvidos poderiam entrar o cantor Bono Vox, líder da banda U2, proprietário da grife Edun (veja box) e a criadora brasileira Isabela Capeto. No seu verão 2010, a carioca traz tecidos de outras temporadas, retrabalhados com tingimento e patchwork. A passarela também ganhou um cenário eco-friendly, todo construído com caixas de papelão. Lindo. "Acho que os estilistas demoraram um pouco para aderir de vez à causa porque o resultado não era dos melhores. As sobras da indústria ao serem transformadas em colar ou pulseira, por exemplo, pareciam lixo. Deixou de ser assim", argumenta Amanda.
Sua relação com roupa começou a mudar em 2005, quando passou seis meses em Offenbach, na Alemanha, para um intercâmbio. "No supermercado, todas as embalagens devolvidas eram revertidas em descontos. A casa que não obedece a coleta seletiva é multada", recorda. Para a maioria das alemãs, levar mais uma bolsa para o closet sem a menor necessidade chega a ser uma barbárie. Ao desembarcar no Recife, Amanda decidu colocar tudo em prática. "Me visto aproveitando o acervo de família com peças da temporada", ensina. No dia das fotos, os óculos eram de brechó, o cinto e a saia foram doação da mãe.
Recicle-se - Quando se formou em design, ano passado, pela UniversidadeFederal de Pernambuco (UFPE), também lançou uma marca de acessórios, a Trocando em Miúdos, com a amiga Juliane Miranda. O negócio era seu trabalho de conclusão. Na pesquisa, avisava que os botões usados, em sua maioria, viriam do museu de uma loja tradicional no Centro do Recife. "Tudo é pensado para ser atemporal e ser usado de muitas formas. O mesmo produto pode ser um cinto, broche ou adereço de cabelo", vende seu peixe.
De acordo com Hans Waechter, professor da disciplina design e meio ambiente da UFPE, o mundo da moda ainda está se adaptando à novidade. "Não se trata de tendência. O processo é irreversível. Quem não estiver pronto, vai sair da prateleira", profetiza. Não basta tomar cuidado com a química que vai parar nos rios depois da lavagem de jeans no Agreste de Pernambuco. É preciso cuidar ainda da produção. "Usar mão de obra infantil, como são acusadas algumas cadeias de fast fashion, significa que seu design muito bom não se preocupa com gente", finaliza Waechter.