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Passado às traças
Relíquias dos 95 anos do Santa da antiga Sala de Memória são abandonadas em depósito e correm sérios riscos de depreciação
Rodolfo Bourbon
rodolfobourbon.pe@diariosassociados.com.br


Troféus e medalhas, mesmo as de datas recentes, já não conservam o tradicional brilho. A maquete do estádio parece um quebra-cabeça desmontado. Fotos, livros e recortes de jornal estão alocados em caixas amontoadas de maneira desordenada. Mais de dois mil tesouros de todos os 95 anos de história do Santa Cruz Futebol Clube deixaram de compor a antiga Sala de Memória para serem escanteados em um depósito situado nas dependência da sede do clube. Sem iluminação, limpeza, catalogação e zelo. Desprovido de condições mínimas necessárias para a preservação das lembranças. De portas fechadas para qualquer visitante, os símbolos das glórias do passado são relegados no exatamento momento em que o clube sonha com dias melhores no presente.

O acervo cuidadosamente coletado e mantido, desde 1983, pelo fundador e curador da Sala de Memória, Dirceu Paiva, estava mantido em um local razoavelmente estruturado até o último mês de abril. Mas o espaço cedeu vez à modernidade. O museu foi transformado em loja. Passou a se chamar Santa Cruz Store. Ao invés de relíquias, esbanja produtos novos e licenciados pelo clube, como bichinhos de pelúcia, canecas de chope e almofadas. No lugar da tradição, o comércio.

A transferência forçou indesejadas férias para o curador. "Não consigo entrar nesse depósito. Um velho de 78 anos não consegue lidar com tanta poeira e mofo", explica. A reportagem do Diario teve acesso ao espaço e comprovou a precariedade da estrutura. Constatou vestígios da presença de cupim, sujeira alastrada nas taças e necessidade de medidas urgentes de intervenção.

Em um misto de indignação e resignação, Dirceu Paiva lamenta a escolha do lugar de fundação da loja, inaugurada no último dia 1 de junho de 2009, visando atrair, principalmente, o público do jogo da Seleção Brasileira. "Foi uma atitude traumática e absurda. Preocupam-se mais com o visual do que com a história. Mas é assim mesmo. O progresso acaba exigindo alguns sangramentos", avalia.

As relíquias cedem pedaços. Estão relegadas a cupins, traças, ferrugem, abandono, descaso e outros fatores e seres fartos em dizimar a história do clube. Lembranças de pessoas que, outrora, glorificaram o Santa Cruz, podem ter o lixo como destino final.


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Edição de quarta-feira, 8 de julho de 2009 
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