O resultado positivo do exame de gravidez é só o início de uma nova jornada. Ao longo de nove meses, o corpo
 Arte: Greg/DP |
muda. Estica no ritmo da nova vida que se desenvolve. Pele, cabelo, apetite# tudo se transforma. Até a forma de ver o mundo. Um mundo contado em semanas. São seis até o coração do feto começar a bater. Entre 18 e 20 para sentir os primeiros movimentos do bebê. Trinta e sete para o feto deixar de ser prematuro e estar pronto para nascer. Mas não são poucos os perigos que ameaçam o bom desenvolvimento do feto e a saúde da gestante. Segundo a última estatística da Secretaria Estadual de Saúde, de 2006, 112 mulheres morreram durante a gestação ou até um ano após o parto em Pernambuco. A maioria por doenças do aparelho circulatório, principalmente a hipertensão, e quadros de pré-eclâmpsia grave. Problemas que, como o diabetes, a anemia grave e infecções, podem ser monitorados e controlados durante o pré-natal.
Engravidar era um sonho que a assistente social e comerciante Sandra Alves Braz realizou dois meses após o casamento, aos 29 anos. Hipertensa e acima do peso antes mesmo da gestação - 78 Kg distribuídos ao longo de 1,63 m - ela adotou uma dieta sem sal e foi acompanhada por uma gineologista e um cardiologista. A cada mês, se submetia a uma ultrassonografia e os resultados eram sempre positivos. Até que, no quinto mês de gestação, Sandra passou por um exame mais detalhado, o ultrassom morfológico, que analisa a anatomia do feto. Durante o teste, recebeu a pior notícia de sua vida. O bebê não estava crescendo adequadamente e os batimentos cardíacos da criança, que receberia o nome de Marcela, já estavam muito reduzidos. Não havia mais chances de sobrevivência. Em 13 de dezembro de 2005, Sandra foi submetida a um parto de feto morto. "Foi constatado que isso tinha ocorrido por causa da minha hipertensão. O bebê estava em sofrimento desde o segundo mês de vida, mas a situação ainda não havia sido identificada na ultrassonografia", contou.
O drama que arrasou a vida de Sandra e do marido, o comerciante Nelson Francisco Braz, é uma das principais preocupações de ginecologistas e obstetras. As gestantes são consideradas hipertensas quando apresentam pressão arterial acima de 140 x 90 (ou 14 por 9). A pressão arterial alta atrapalha o fluxo de sangue no organismo e pode diminuir os nutrientes que chegam ao feto, fazendo com que ele cresça menos que o esperado. Além disso, o problema provoca um aporte deficiente de oxigênio para o feto, podendo levá-lo à morte dentro do útero. E nem as mulheres que nunca foram hipertensas estão livres do risco. Uma alimentação inadequada, que provoque um ganho de peso rápido e excessivo, por exemplo, pode favorecer o surgimento da hipertensão. Por isso, é preciso ter cuidado antes de se valer da velha máxima de estar comendo "por dois".
O perigo aumenta após a 20ª semana de gestação - principalmente a partir da 22ª, segundo a presidente da Associação dos Ginecologistas e Obstetras de Pernambuco, Vilma Guimarães - quando pode surgir o que os médicos chamam de hipertensão gestacional. E se ela vier acompanhada de perda de proteínas pela urina, a situação é ainda mais preocupante: é a chamada pré-eclâmpsia.
"Essa é uma doença específica da gestação que ainda tem causa desconhecida e que só se resolve com a interrupção da gestação", explicou a coordenadora da residência médica e preceptora da enfermaria de alto risco do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), Ana Porto. Segundo ela, quando a pré-eclâmpsia surge em um período da gestação em que o bebê ainda é muito prematuro, tenta-se manter uma conduta conservadora, às vezes com uso de medicação para diminuir a pressão e levar o mais longe possível a gestação. No caso da gestante, o quadro de pré-eclâmpsia pode evoluir para a eclâmpsia, com o aparecimento de convulsões.
Sandra Braz não chegou a ter pré-eclâmpsia, mas o trauma de perder o primeiro bebê deixou marcas profundas. Depois de trocar de ginecologista e de cardiologista, ela resolveu tentar mais uma vez. O medo era tão grande que o marido, Nelson, colocava em um gráfico computadorizado todos os resultados das medições de pressão feitas na mulher três vezes ao dia e ia ao consultório da ginecologista de notebook em mão. Apesar do medo, a segunda gestação correu tranquilamente. Com acompanhamento e medicação adequados, Sandra não teve nenhum pico de hipertensão, nem inchaços durante os quase nove meses. Mariane nasceu saudável, na 38ª semana. Hoje, passados um ano e um mês do nascimento da primeira filha, o casal posa feliz para a foto desta reportagem. E faz questão de mostrar que com cuidados e o acompanhamento corretos, sonhos podem virar realidade.
Riscos
Hipertensão na gestação
Pressão sanguínea maior que 140 x 90
Pré-eclâmpsia
Hipertensão associada à perda de proteína na urina
Diabetes
Doença que pode trazer prejuízos para o bebê
Diabetes gestacional
Intolerância à glicose que começa ou é diagnosticada pela primeira vez na gestação
Infecções urinárias
Precisa ser rastreada porque pode provocar parto prematuro, infecções no feto e até morte de mãe e/ou bebê
Infecções vaginais
Pode contaminar a bolsa amniótica e causar pneumonia grave no recém nascido
Placenta baixa
Uma das principais causas de hemorragia durante a gestação
Descolamento da placenta
Provoca hemorragias e compromete aporte de nutrientes para o feto. Parto precisa ser imediato
Trombofilia
Facilidade de formação de trombos, dificultando passagem do sangue. Maior predisposição para pré-eclâmpsia, óbito fetal e aborto