Brasília - Entrou mais uma vez em compasso de espera a complicada aproximação diplomática entre Brasil e Irã, um processo ao qual o Itamaraty empresta grande importância no âmbito de sua política de consolidar eixos de convergência com países em desenvolvimento e multiplicar o peso de sua intervenção no cenário mundial. Falando no Senado sobre as turbulências que se seguiram à controversa eleição presidencial iraniana, com a morte de pelo menos 20 manifestantes em confronto com as forças de segurança, o embaixador Roberto Jaguaribe, subsecretário-geral do Itamaraty responsável pelo Oriente Médio (entre outras áreas), revelou que ainda não foram retomados contatos com o presidente Mahmud Ahmadinejad - reeleito sob alegações de fraude(1) por parte dos concorrentes - para remarcar a visita que ele faria a Brasília em maio último e que foi adiada em nome das exigências da reta final de campanha.
"O presidente Lula não voltou a falar com Ahmadinejad desdeo anúncio dos resultados", disse Jaguaribe a jornalistas depois de ter respondido a questões sobre a violência pós-eleitoral e a situação política no Irã em audiência convocada pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional. O diplomata não deixou dúvidas sobre a determinação do governo em adotar com o Irã "uma estratégia de engajamento e diálogo, em vez de isolamento e confronto", a exemplo do que tem sido, segundo observou, a atitude do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. "Esse é o ponto de vista de vários países, inclusive porque o engajamento e o diálogo favorecem o aparecimento de fissuras em um sistema político que já foi muito mais fechado", argumentou.
Jaguaribe ponderou que as "limitações" do sistema eleitoral iraniano, entre elas o poder conferido ao Conselho dos Guardiões para vetar a inscrição de candidatos, não impediram que tenha ocorrido "um processo eleitoral real, com disputa de verdade, tanto que gerou essa reação dos candidatos não eleitos". Na avaliação do Itamaraty, essa"exposição de fissuras", reflexo da "vigorosa participação pública", caracteriza "uma vitalidade do processo político" no país - algo que deve ser estimulado até como contraponto à repressão por parte das facções mais conservadoras que dominam o regime islâmico. "São esses setores que temem o diálogo e o engajamento. Uma política de confrontação e isolamento (por parte dos demais países) só favorece uma aglutinação maior em torno deles." Quanto aos reformistas, sua presença no cenário indicaria que "parte não desprezível do sistema político dá atenção aos anseios de mudança da sociedade, e isso é novo".