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Futuro incerto
Estudo do HSBC mostra que 94% dos brasileiros não se sentem financeiramente preparados para a chegada da aposentadoria
Tatiana Nascimento
tatiananascimento.pe@diariosassociados.com.br


Aposentar. Pendurar as chuteiras. Colocar o pijama. Muita gente sonha com a hora de deixar oficialmente de trabalhar e aproveitar o tempo para descansar, viajar, passear com os netos. Isso se o dinheiro deixar, claro. É justamente na parte financeira que o sonho da aposentadoria pode se transformar em pesadelo. E é por isso mesmo que 94% dos brasileiros dizem que não se sentem preparados para a aposentadoria e não têm a menor ideia de como serão seus rendimentos na velhice.

Esse alto índice de "despreparados" pode ser visto na pesquisa O futuro da aposentadoria - tempo de se planejar, realizada pela HSBC Seguros em 15 países da América do Norte, América do Sul, Europa e Ásia. Foram ouvidas 14 mil pessoas com idades entre 30 e 70 anos (1.017 brasileiros). A média de despreparo ficou em 87%. O Brasil só ficou atrás da Coreia do Sul (98%) e do Japão (97%). A Índia aparece como o país dos confiantes, com 42% dos entrevistados dizendo que estão "ok"para se aposentar. Are, Baba.

A quase 15 mil quilômetros de distância de Nova Déli, sentado em um banco do corredor do Shopping Tacaruna, o oficial de justiça Sílvio Bourbon conta que tem uma poupança e agora pensa em fazer um plano de previdência privada. Aos 49 anos, ele está a oito da aposentadoria. "Mas não se sinto seguro porque vou ter uma perda da renda". Essa futura perda representa a indenização de transporte que ele recebe todos os meses por trabalhar usando o próprio carro e equivale a 10% do salário.

O vale alimentação é outro benefício que Sílvio tem incorporado ao rendimento e que também terá que esquecer quando deixar de trabalhar. Sorte a dele que é funcionário público. "Aqui no Brasil é difícil, principalmente para quem trabalha no setor privado e tem que se aposentar pelo INSS. O teto é muito baixo", acredita. E quase ninguém ganha o teto, vale lembrar. O professor e consultor financeiro Reinaldo Domingos diz que a tendência é de pagar menos por causa do aumento da expectativa de vida.

Segundo ele, apenas 1% dos 23 milhões de brasileiros aposentados pelo INSS tem independência financeira. Para 46% deles, a vida segue adiante com a ajuda de parentes. Já 28% passam muitas necessidades (podem chegar a pedir esmola) e 25% não têm outra alternativa a não ser arrumar outra ocupação e trabalhar até o fim da vida. Para os que ainda vão se aposentar, as dívidas podem comprometer o planejamento da poupança para a velhice, como mostra o estudo do HSBC.

De acordo com a pesquisa, 23% dos brasileiros responderam que o endividamento é, sim, uma barreira para poupar. O Banco Centrou divulgou na semana passada que o nível de inadimplência das famílias brasileiras em maio foi o maior dos últimos 15 anos. A funcionária pública federal Rosiane Moraes Gomes, 53, paga todas as contas. Mas não quer dizer que ela não tenha dívidas. Todos os meses, uma fatia do salário paga o empréstimo consignado que ela precisou fazer.

"Já tive poupança, mas quando me aposentar, daqui a dois anos, vou ter que contar mesmo só com o benefício", reconhece Rosiane, que é casada com o geólogo Antônio. Ela conta que boa parte da renda da família é investida na educação da filha, Isis, de 16 anos, que vai iniciar a faculdade de direito no próximo semestre, no Recife. "Como moramos em São José da Coroa Grande, nossos gastos são menores do que se morássemos na capital".

É para fugir dos gastos da cidade grande que o professor e delegado aposentado Antônio Carlos da Silva, 73, e sua mulher, a artesã Maria das Dores, 59, estão trocando São Paulo por Pernambuco. Só de plano de saúde eles pagam R$ 2,3 mil por mês. Com aluguel e condomínio são mais R$ 1,7 mil. "É muito dinheiro", diz Antônio Carlos, que há três anos foi forçado a deixar de dar aulas na Academia de Polícia (aposentadoria compulsória). "Num dia sou ótimo. No dia seguinte virei burro porque fiz 70".

Sem preparo

Apenas 6% dos brasileiros acreditam estar bem preparados para a aposentadoria, enquanto são 13% no mundo

94% dos brasileiros não têm nenhuma ideia de como serão seus rendimentos na velhice, maior do que a média global de 87%

35% dos brasileiros acreditam entender bem suas finanças de curto prazo, contra o dado mundial de 45%

63% nunca tiveram nenhuma forma de assessoria/consultoria financeira profissional, acima da média mundial de 47%

40% dos brasileiros são favoráveis ao encorajamento de poupança privada por meio de isenções fiscais, contra o dado global de 31%

Apenas 3% são a favor de aumento de impostos para pagar por melhores aposentadorias/pensões sociais, bem menor que a média global de 13%

9% dos brasileiros são a favor de aumentar a idade limite da aposentadoria e apoiar as pessoas a trabalhar por mais tempo, quase metade da média global de 16%

16% pararam de poupar para a aposentadoria por conta da atual crise financeira. A média global foi de 11%

Fonte: O futuro da aposentadoria - tempo de se planejar

Para garantir uma aposentadoria tranquila

O site do Instituto Disop, especializado em educação financeira, traz um simulador em sua página na internet (www.disop.com.br). Nele é possível calcular quanto se deve guardar para garantir a independência financeira na aposentadoria. Veja um exemplo:

60 anos

O que ganhou no último ano:

R$ 20.000,00

Valor poupado que gere riqueza:

R$ 360,00 por mês

Rendimento mensal para aposentadoria (0,86% ao mês):

R$ 30,96

Fonte: Instituto Disop


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Edição de domingo, 5 de julho de 2009 
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