Nos últimos quatro anos, sempre que visitou Pernambuco, o bispo de Sobral (Ceará) dom Fernando Saburido fez questão de dormir ou fazer orações no Mosteiro de São Bento, em Olinda.
 Ontem à noite, católicos participaram de uma missa de ação de graças pela nomeação do novo arcebispo. Foto: Alexandre Gondim/DP/D. A Press |
As idas ao mosteiro revelam não só a ligação afetiva do futuro arcebispo com a casa, mas a origem de grande parte do modo de agir do futuro arcebispo de Olinda e Recife. Para integrantes da Ordem de São Bento, ao qual dom Fernando pertence, e estudiosos da Igreja, o tom conciliador, a habilidade em saber ouvir as pessoas e a tolerância está relacionada à formação beneditina do hoje bispo de Sobral. Essa espiritualidade, acreditam, provavelmente não foi o único elemento que resultou na maneira de ser de dom Fernando, mas foi um dos determinantes.
"Não tenho dúvida. Dom Fernando incorporou muitos dos ensinamentos beneditinos, focados no lema trabalhar e rezar. Ele age como um monge", avalia o doutor em Teologia e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Inácio Strieder. Foi pelas características de dom Fernando que o padre João Carlos Santana da Costa, afastado da Paróquia de Água Fria por dom José, deixou ontem de lado as críticas ao arcebispo para falar de esperança com a chegada do futuro líder católico. "Dom José ficou no passado", resumiu. O sacerdote comemorou ontem a nomeação de dom Fernando com uma queima de fogos. "É um momento feliz. Estamos fechando um período de trevas e perseguição", disse Margot Meyer, uma das fiéis que sempre ficou ao lado de padre João Carlos.
O futuro arcebispo de Olinda e Recife é apontado como um homem chegado ao silêncio. Isso ficou claro ao entrar na Ordem de São Bento, acrescenta o abade do mosteiro dom Felipe Silva. Dessa forma, o hoje bispo de Sobral voltou-se ao silêncio. Silenciar para os monges é afastar-se do mundo e entrar no mundo da clausura. Menos da metade dos candidatos resistem a tamanha pressão. Durante os primeiros seis anos de formação, acrescenta dom Felipe, quem aspira ser monge mergulha numa escuridão assistida por Deus.
Daí, entende o abade, viria a paciência em escutar as pessoas e a tolerância de quem permaneceu horas, dias, semanas, a procura de entender-se e compreender os mistérios divinos. "Isso traduz a atenção aos outros, a compreensão da vida, o que está muito vivo em dom Fernando", acredita. Strieder afirma que a formação beneditina foi, certamente, importante para a linha de dom Fernando, porém ressalta que deve-se levar em conta o caráter e também os valores familiares. "Ele sempre foi de servir", disse o abade. O serviço prestado por dom Fernando, afirmou o bispo de Palmares, dom Genival Saraiva de França, sempre foi de modo suavidade. "Mas como diz uma máxima da Igreja, com firmeza e suavidade", completou. É assim, acredita dom Genival, que o futuro bispo deve agir a partir de 16 de agosto à frente da arquidiocese.