O Real surgiu como o sexto dos planos econômicos lançados pelo governo federal na tentativa de debelar uma renitente hiperinflação, que em 1993 havia atingido inacreditáveis 2.477%, algo até então visto apenas em países com economias destruídas, vindos de guerras ou mudanças políticas traumáticas. Naquela época, nada parecia mais importante para o governo do que enfrentar o dragão, metáfora que passou a ser usada enquanto o processo introjetava-se cada vez mais no imaginário coletivo tupiniquim.
Ao contrário dos antecessores, porém, o Real não lançava mão das velhas estratégias de cortar zeros, congelar produtos ou confiscar cadernetas de poupança. Adotando a desindexação da economia, a abertura econômica e o equilíbrio fiscal como bandeiras, a equipe econômica de Itamar Franco, liderada pelo então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, criou uma nova moeda com valor próximo do dólar, o que duraria praticamente cinco anos.
Mas o Real não fracassou, ou permitiu a volta da inflação, depois disso. Nem diante das crises econômicas mundiais que passaram a assolar o incipiente capitalismo globalizado, passando pelo colapso da economia asiática no fim dos anos 90 e o empobrecimento argentino no início da década seguinte. Para fugir desse fantasma, o governo lançou mão de uma perigosa política de juros altos, que atingiram 50% ao ano, e de estritos acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Durante esses 15 anos, o valor da nossa moeda caiu, ao sofrer ataques especulativos, ou simplesmente pela valorização do dólar. A cotação chegou a R$ 4 para cada US$ 1. Nos últimos quatro anos, porém, com a consolidação dos investimentos estrangeiros e o consequente aumento da oferta de dólares no país, o real voltou a se valorizar, sem no entanto retomar o patamar de seus primeiros anos.
Claro que o processo econômico desencadeado pelo Plano Real foi alvo de inúmeras críticas ao longo dessa década e meia. Uma delas indica que o Brasil atravessou os anos da expansão do comércio no mundo com uma moeda excessivamente valorizada, o que o impediu de aproveitar esse ciclo de desenvolvimento.
Mas a verdade é que, se o propósito básico era realmente enterrar a hiperinflação e estabilizar a economia, o plano triunfou. Do dia em que a nova moeda passou a ser emitida, há 15 anos, até hoje, a inflação acumulada foi de 244%, menos de um décimo dos valores anuais no início da década de 90. Época que, definitivamente, não deixou saudades.