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Entrevistas // Jorge Jatobá



"Inflação é uma doença terrível"

Sucesso

O Plano Real foi o primeiro sucesso após sucessivos fracassos. Tivemos que amargar os fracassos do Plano Cruzado, que veio no bojo da redemocratização, no governo Sarney. Tivemos que enfrentar a loucura que foi o Plano Collor em toda a sua heterodoxia, que redundou num grande calote para a sociedade. Inflação é uma doença terrível que impede empresas e governos de se planejarem adequadamente, distorce os preços relativos, retira o poder de compra da população. Ela provoca, já como mecanismo de defesa, uma indexação da economia. É fácil indexar e é muito difícil desindexar.

URV

Depois de tantos fracassos, o país concebeu de forma muito inteligente o Plano Real. Criou-se uma unidade real de valor que crescia todo dia e absorvia a inflação diária. Numa data pré-determinada, 1° de julho, essa URV foi congelada equivalendo ao real. O sistema foi preparado para receber a nova moeda, enquanto deixava a moeda antiga correr com a inflação. Com isso, conseguiu-se desindexar a maior parte da economia e conseguiu-se criar uma moeda que absorveu a inflação dos últimos meses.

Erro

A meu ver cometeu-se um erro na origem do Plano Real que foi a criação da âncora cambial, com o objetivo de assegurar os preços internos. A consequência foi um dólar muito desvalorizado. As importações subiram muito, as exportações foram prejudicadas e o Brasil passou a inverter o sinal de sua balança de transações correntes. A balança comercial tornou-se negativa e a de serviços, que já era negativa, tornou-se mais negativa ainda porque tornou-se muito atraente viajar ao exterior. Isso aumentou a vulnerabilidade externa do Brasil a crises que vieram a ocorrer posteriormente. Se houvesse qualquer saída massiva de dólares, o Brasil não tinha como sustentar a sua moeda. Ou sustentaria ao custo de uma elevada taxa de juros para poder atrair o capital externo. Foi o que aconteceu com as crises asiática e da Rússia.

Correção

O sistema aguentou o quanto pode, até que rompeu-se a âncora cambial e estabeleceu-se o regime de câmbio livre. Esse foi o grande aperfeiçoamento do Plano Real. Outro avanço foi a criação do regime de metas. O Banco Central teve sua missão definida, que é cuidar da estabilização dos preços através da taxa de juros. Nos Estados Unidos não tem sistema de metas e muita gente duvidava que ia dar certo. E deu. A taxa média de inflação no Brasil tem ficado abaixo da dos países emergentes.

Governo Lula

O governo Lula teve a virtude de não mexer nos fundamentos do Plano Real e de não aparelhar ideologicamente o Ministério da Fazenda. Ele também deixou o Banco Central trabalhar de forma praticamente independente. A manutenção do regime de metas de inflação e do câmbio flutuante deu uma vida mais longa ao real. Temos transações correntes positivas, reservas cambiais de mais de US$ 200 bilhões. Definitivamente, o Plano Real estabilizou a economia, tirou muita gente da pobreza e reduziu desigualdades.


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Edição de quarta-feira, 1 de julho de 2009 
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