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O risco da inadimplência

Cartões de crédito à vontade. Parcelamento a perder de vista no cheque pré-datado ou no crediário. Empréstimo sem burocracia com desconto na folha.

Andracy: "É tanta facilidade que a pessoa não pensa na hora de comprar". Foto: Edvaldo Rodrigues/DP/D.A/Press
E se o salário não for suficiente para pagar todas as prestações, o saldo do cheque especial está lá para socorrer. O Plano Real tornou possível todas essas facilidades. Mas a farra do crédito tem o seu preço. A inadimplência nas operações bancárias, registrada no último mês de maio, atingiu seu maior patamar desde a criação do plano econômico, em julho de 1994, segundo o Banco Central. A emissão de cheques sem fundos, neste mesmo período, também bateu recorde. Foi a mais elevada desde 1991, de acordo com o Serasa.

Os oito cartões de crédito da consultora de relacionamento Daniele Menezes, 20 anos, estão no rotativo. "Nos últimos meses, só estou conseguindo pagar a parcela mínima", conta ela. Grávida de oito meses e recém-casada, Daniele usou o cartão de crédito para bancar todas as despesas da nova casa ea chegada do bebê. "É tanta facilidade que a pessoa não pensa na hora de comprar e acaba se prejudicando depois", diz a agente de saúde Andracy Lima, 26 anos. "Comprei um fogão no carnê para uma amiga. Agora ela ficou desempregada, não está conseguindo pagar as parcelas e o meu nome foi para o cadastro de devedores", conta ela. Com quatro cartões de crédito e cinco de loja, atualmente, ela está pagando cerca de 10 compras parceladas.

O pagamento de dívidas compromete hoje 34,8% da renda do brasileiro, segundo dados do Banco Central. Para se ter ideia, essa parcela representava 32,7%, há um ano, e 26,7%, há dois. Na opinião da economista e professora da Universidade Federal de Pernambuco, Tatiane Menezes, o endividamento se deve em parte a uma demanda reprimida por crédito. "Antes do Plano Real não havia quase crédito algum ao consumidor. Como tudo ainda é muito novo, muitos ainda não descobriram como usufruir desse crédito abundante sem se endividar", diz Menezes. O cheque especial, que hoje está disponívela todos os correntistas, era restrito a um número muito pequeno de clientes. "Não havia parcelamento. Inclusive, o cheque pré-datado surgiu após o Real", conta. Outra modalidade criada dentro do Real foi o consignado que deu grande impulso ao crédito a partir de 2006, espalhando as financeiras por todo o país.

De 2006 para cá, o volume de empréstimos saltou de 30,02% para 43% do PIB. Mas apesar da forte expansão, o economista chefe da Federação Brasileira dos Bancos, Rubens Sardenberg, lembra que o Brasil ainda é um dos países com a menor oferta de crédito. Em países como os Estados Unidos e o Japão, o crédito supera os 180% do PIB. "Isso é o torna a crise gerada pelo crédito, nos Estados Unidos, muito diferente no Brasil. Aqui o crédito imobiliário representa menos de 2% do PIB. A maior parte das dívidas dos brasileiros é de curto prazo. Pode ter havido um excesso, mas ainda está em um patamar ajustável. A crise, de certa forma, ajudou nesse processo porque colocou um freio, fazendo com que os bancos fossemmais seletivos na hora de conceder o crédito".

Carlos Henrique de Almeida, assessor econômico da Serasa Experian, critica a forma como o crédito é concedido no Brasil. "O banco não sabe o nível de endividamento que o consumidor tem no varejo. Nem o varejo sabe quanto o cliente pegou de empréstimos nos bancos. O Plano Real alcançou a estabilização da moeda, mas ainda não conseguiu criar o Cadastro Positivo, que poderia ajudar no cruzamento dessas informações e tornar a concessão do crédito mais responsável".


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Edição de quarta-feira, 1 de julho de 2009 
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