Do iogurte ao celular, do frango ao computador, da dentadura ao DVD. No debut do Plano Real, a população brasileira sofisticou os hábitos de consumo. A receita: inflação sob controle, estabilidade econômica, moeda forte, aliada à recuperação do salário mínimo, ampliou o poder de compra das famílias.
 Doméstica Dulcinéia Jacinta da Silva, ao lado da família, comemora o acesso a vários cartões de crédito. Foto: Jaqueline Maia/DP/D.A Press |
Junta-se no bolo de quinze anos os ingredientes juros baixos e maior oferta de crédito. No carrinho de compras a estrela passa a ser os bens de consumo duráveis, em especial para as classes C, D e E. Além da mesa farta, as pessoas querem trocar eletrodomésticos, móveis, reformar a casa, viajar, ter laptop e financiar um carro novo.
São novas conquistas da geração que sofreu nas décadas de 1980 e 1990 os efeitos nocivos da hiperinflação que corroía os salários. A ordem é aproveitar cada real que coloca no bolso para ir às compras. Não importa que seja com pagamento à vista ou no crediário. Após cinco anos voltamos à casa da doméstica Dulcinéia Jacinta da Silva, 44 anos, no bairro do Arruda. No aniversário de dez anos do real, ela comemorava com a família o reforço dos itens da cesta básica (feijão, arroz, açúcar, café, farinha) e o acesso aos supérfluos como biscoitos, iogurtes, frango e refrigerante.
E hoje? "Acho que agora está melhor. Naquela época eu não tinha cartão de crédito e agora tenho quatro. Compro roupa, sapato e até comida no cartão", diz orgulhosa. Duas filhas e dois netos, Dulcinéia aproveita a farra do crédito fácil para comprar televisão e DVD. A última aquisição foi o armário da cozinha em dez parcelas de R$ 38. As duas filhas têm celular e ela planeja comprar o dela. Na lista de compras, tem mais fogão e mesa. Além da inflação sob controle, Dulcinéia teve ganho salarial. Em julho de 1994 o salário mínimo que colocava no bolso de R$ 64,79 passou a R$ 465 a partir de fevereiro deste ano.
Sem dúvida, quem mais usufrui dos ganhos do Plano Real são as camadas mais pobres da população. Com a inflação sob controle e o aumento da renda advinda do ganhoreal do salário mínimo e das políticas de redistribuição de renda, houve a ascensão das classes D e E. "No primeiro momento, essas pessoas se abasteceram do consumo básico. Depois aproveitaram a oferta do crédito para comprar bens duráveis", comenta o consultor financeiro Roberto Ferreira.
Para o economista André Brás, da Fundação Getúlio Vargas, com melhor poder aquisitivo, as famílias que tinham pouco acesso ao crédito perceberam o real valor do dinheiro. "Antes boa parte da renda dessas pessoas era para comprar comida. Agora se incorpora à cesta de alimentos outros produtos e serviços", aponta. Ele cita o celular, que deixa de ser um artigo de luxo e o computador que a cada ano se aproxima mais das famílias de baixa renda.
Professor de finanças do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper-SP), Ricardo Almeida destaca que a entrada das classes mais baixas no mercado de consumo de bens duráveis iniciou a partir de 2002 e agora se consolida com a queda das taxas de juros. "Estamos na maior relação crédito versus PIB da história do país, como efeito paralelo do Plano Real", pontua. Significa que há maior oferta de dinheiro circulando na economia.
E os próximos sonhos de consumo da geração do real? "O carro pode não ser zero, mas confirmadas as projeções de crescimento da economia e redução do desemprego, as famílias criam mais confiança e se aproximam cada vez mais de bens antes inimagináveis", arrisca Brás.