Jorge Jatobá, Socio-Diretor da Ceplan, comenta trajetória do Plano Real em 15 anos de existência. Imagens: Micheline Batista/DP/D.A Press
Hoje não tem baile. Nem valsa. Mas é dia de festa. O Plano Real completa 15 anos. Lançado em 1º de julho de 1994, depois do fracasso de tantos antecessores "milagrosos", conseguiu controlar a temida hiperinflação, estabilizando a economia nacional. O real teve como abre-alas a moeda que leva o mesmo nome. O frango, o iogurte e a dentadura foram os primeiros símbolos. Uma década e meia e três governos depois, a marca do agora debutante é o acesso ao crédito.
Animado com as prestações que cabem no bolso, o brasileiro compra casa, carro, televisão, geladeira, computador, celular, roupa. Divide os pacotes de viagens e até faz cursos de especialização no carnê. A funcionária pública Maria Augusta Dias, 44 anos, tem dois companheiros fiéis: o cartão de crédito e uma agenda, que ela usa para controlar o orçamento. "Se posso comprar agora e o preço parcelado é o mesmo, por que não? Para mim é muito bom".
Uma das aquisições mais recentes foi o ar-condicionado, que teve o pagamento dividido em dez prestações. Mãe da adolescente Mayara, 17, e de Mariana, 6, Maria Augusta lembra dos anos de inflação gorda. "A gente estocava comida. Tinha em casa uma geladeira e um freezer só para estocar carne. Era muito difícil poupar. Tinha que gastar logo para não acabar". Em 1993, as labaredas do dragão da hiperinflação chegaram a 2.477,15%.
Mesmo com alguns sustos - como a subida dos preços dos alimentos no início de 2008 - a situação é bem diferente. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a inflação acumulada entre julho de 2004 e maio deste ano foi de 244,86%. Para Maria Augusta, a grande mudança nos últimos 15 anos é a possibilidade de se planejar. "Se a pessoa quer comprar à vista, pode juntar. Se quer viajar, pode começar a pagar antes ou depois".
Maria Augusta Dias tem no cartão de crédito um companheiro fiel. Foto: Júlio Jacobina/DP/D. A Press
O economista Gilberto Braga, professor de finanças do Ibmec Educacional, destaca que o real permitiu a inclusão de grande parte da população nas relações de consumo. Ele chama de cidadania econômica. Gente que nem sonhava em conseguir crédito para comprar o que quer que fosse hoje tem uma casa equipada. "Com a inflação alta, não dava para saber ao certo o valor da prestação. Quem assumia um compromisso de longo prazo corria risco", recorda.
Aprendizado - Braga destaca também a Lei de Responsabilidade Fiscal e o regime de metas de inflação - adotadas anos depois - como fatores cruciais para o sucesso do plano. Luiz Henrique Romani, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e professor da Faculdade Boa Viagem (FBV), lembra que a estabilidade econômica também permitiu ao governo brasileiro fazer política social. Programas como de transferência de renda (o Bolsa Família, por exemplo) não se sustentam sem estabilidade.
Sem pressão inflacionária também dá para fazer política monetária. Traduzindo: baixar os juros. Eles ainda são muito altos, claro. Mas já foram muito mais assustadores. "Temos um longo caminho pela frente. Vivemos um período de aprendizado. As pessoas compram só olhando aprestação, às vezes se descontrolam", afirma Romani. Para ele, serão necessários outros 15 anos para que os brasileiros se acostumem a viver em uma economia estável. É assim mesmo. O real é apenas um adolescente.
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