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Crônicas de grafite e aquarela
Trabalho de Marcelo Quintanilha impressiona pelo realismo de personagens e cenários
André Dib
andredib.pe@diariosassociados.com.br


Arte de extrair, traduzir e imortalizar situações do cotidiano, a crônica é considerada um gênero híbrido entre literatura e jornalismo.

Artista diz que acervo de imagens e tipos humanos vem da observação. Foto: Conrad Editora/Divulgação
Para chegar ao ponto, não basta criatividade: é preciso exercitar a percepção de situações quase sempre fugidias. Momentos que por vezes, de tão banalizados, se tornaram imperceptíveis. No livro em quadrinhos Sábado dos meus amores (Conrad, R$ 39), o artista Marcelo Quintanilha revela esse talento com grafite e aquarela, técnica um tanto diferente das breves linhas que fazem uma crônica convencional.

Primeiro, por optar por um suporte pouco utilizado para a crônica. Segundo, porque o autor mineiro parte não de situações das quais foi testemunha, mas de histórias fictícias, ambientadas em diferentes lugares e épocas. O que há de "realidade" neste trabalho está nos cenários e expressões faciais de gente "comum", protagonistas de histórias não somente possíveis, como recorrentes (com uma variação ou outra) nos subúrbios e pequenasvilas perdidas no mapa de nosso país.

As "crônicas visuais" de Quintanilha impressionam tanto pelo realismo na representação de personagens e cenários, quanto pela atmosfera de sonho e nostalgia. O aspecto antigo dos desenhos, algo próximo às fotografias pintadas a mão, é sem dúvida o maior convite para mergulhar nesse universo. Um preciosismo estético aditivado por experimentos de linguagem em torno do uso incomum dos balões de diálogo, que se adaptam aos demais elementos e por vezes usam quase todo o espaço dos quadros.

A primeira página leva o leitor a um cruzamento urbano, em que Rubem Braga (1913 - 1990), um dos maiores cronistas brasileiros, observa uma borboleta rodopiar entre prédios e árvores. Um piscar de olhos, ele já não está mais ali. Está aberto o caminho que liga os idílicos anos 50 ao mais corriqueiro sinal fechado do século 21.

Além da referência explícita a Braga, há um quê de Nelson Rodrigues e seu universo de situações ordinárias, cotidianas, por vezes levadas ao limite da tragédia. Comoa vivida por Zé Morcela, trabalhador de circo que aproveita o tempo livre para beber e jogar cartas num boteco qualquer, numa cidadezinha qualquer, até perceber que comprou briga com a polícia local.

Em entrevista ao Diario, o autor mineiro diz que sua coleção de cenários e tipos humanos não vem de uma pesquisa específica, mas sim, uma atividade involuntária e constante de observação. "Mesmo que não esteja trabalhando em uma história, exercito meu interesse por fotos, literatura e objetos quase sempre ligados do passado. As histórias nascem desse conjunto de interesses se deve basicamente à minha infância e adolescência, vividas num antigo bairro operário de Niterói, chamado Barreto. Depois do fechamento das indústrias que movimentavam a região, tudo que restou foram as antigas construções e os ecos de um passado".

Há cerca de uma década o autor lançou seu primeiro álbum, Fealdade de Fabiano Gorilla, ainda com o pseudônimo Marcello Gaú. Atualmente ele mora na Espanha, onde há sete anos trabalha com os roteiristas Jorge Zentner e Montecarlo na série Sept Balles pour Oxford. A predileção por paisagens, urbanas ou não, vem de longa data. Em 2005, ela se materializou no livro Salvador, da série cidades ilustradas.

Visualmente, Quintanilha afirma sofrer influência de diferentes estilos e propostas, algumas delas não facilmente identificáveis, como o neorealismo italiano e filmes do cinema brasileiro dos anos 60 e 70, como O homem que comprou o mundo, de Eduardo Coutinho e Bye bye, Brasil, de Cacá Diegues. "No que se refere aos quadrinhos, há uma longa tradição de histórias de caráter pessoal e evocativo, principalmente no quadrinho francês".


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Edição de terça-feira, 30 de junho de 2009 
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