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Em nome da ficção
Escritor catarinense Cristovão Tezza, que arrebatou os principais prêmios da literatura em 2008, vem duas vezes a Pernambuco, em agosto, para o festival A letra e a voz, e em novembro, para a Fliporto
Thiago Corrêa
thiagocorre.pe@diariosassociados.com.br


Apesar de não ter lançado nenhum livro ano passado, nenhum nome da literatura brilhou mais que o do escritor catarinense Cristovão Tezza no Brasil.

Foto: Andrea Paccini/Divulgação
Isso porque O filho eterno, publicado em 2007 pela Record, arrebatou os principais prêmios das letras nacionais. O romance, que conta a versão ficcionalizada do seu drama pessoal de ter um filho com síndrome de Down, conquistou o APCA de melhor obra de ficção, o Jabuti de melhor romance, o 1º lugar do Portugal-Telecom e o Prêmio São Paulo de Literatura. Em meio aos inúmeros compromissos que surgiram após as conquistas, o catarinense vem duas vezes a Pernambuco: a primeira em agosto no festival A letra e a voz, e a outra em novembro na Fliporto. Nesta entrevista, Tezza fala sobre seu processo criativo, lembra de uma viagem que fez a Caruaru nos anos 70, comenta o sucesso de O filho eterno, analisa a relação de sua obra com o trabalho de professor universitário e revela seus projetos futuros.

Entrevista // Cristovão Tezza

"Preciso urgentemente de ócio"

Em O fotógrafo você usa um recurso narrativo que alterna os pontos de vista das personagens. Em O filho eterno essa alternância vem em relação ao tempo, entre o presente e o futuro. Como se dá esse processo de escolha?

É um processo intuitivo. Não fiz nenhum projeto prévio dessas camadas de sentido. O ato de escrever o romance vai desdobrando os pontos de vista com que eu vou trabalhando. Claro que o domínio da técnica ajuda, mas a concepção é sempre intuitiva.

A forma como você escreve - evocando metáforas para criar novas maneiras de falar sobre questões cotidianas - foge à tendência realista da literatura nacional. Como você equilibra essas forças ficção e realidade?

Não sei exatamente se há uma "tendência realista" na literatura brasileira - e, de qualquer forma, o conceito de realismo é bastante complexo, bastante multifacetado. Vejo a coisa assim: a ficção é um modo de reconhecimento da realidade que engloba a um tempo a representação (o lado "fotográfico", digamos assim, como metáfora) e a sua reflexão (um sujeito narrativo que pensa sobre a realidade), mas essas coisas nunca estão separadas. Olhar é julgar - tenho a sensação de que essa é a força do narrador de O filho eterno.

Em O filho eterno, o personagem lembra de um festival de teatro em Caruaru. Isso ocorreu de fato?

Nos anos 70 participei de muitos festivais de teatro, participando do Centro Capela de Artes Populares, sob a direção de W. Rio Apa. Um deles - se não me engano em 1972 - foi em Caruaru. Tenho uma lembrança maravilhosa desse período e dessas viagens. Devo boa parte do meu olhar narrativo a esses anos de aprendizagem. Foi também um tempo de conhecer, ou, melhor dizendo, "sentir" o Brasil. Lembro que voltei de Caruaru de carona, eu e o ator Ariel Coelho, até São Paulo.

Em O filho eterno há uma passagem em que o personagem autocritica um de seus poemas. Como a experiência acadêmica e mesmo de crítico interferem em sua obra?

Não sei, fico na torcida para que minha vida acadêmica, o tipo de olhar racionalizante e explicativo,analítico, do discurso acadêmico, não tenha invadido muito minha ficção. São linguagens substancialmente distintas. No caso daquela análise do poema num momento do livro, trata-se de uma cena de ficção no sentido estrito. Não é uma análise literária que o personagem faz, mas uma crítica de sua própria vida e de seu sistema de valores. O poema só pega uma carona ali, por assim dizer.

Ano passado você levou quase todos os prêmios literários do país. O que mudou em sua vida após O filho eterno?

O meu tempo diminuiu, estou achando isso angustiante. E perigoso, para quem escreve. Estou me organizando para ter um segundo semestre bem mais tranquilo. Preciso urgentemente de ócio.

Na primeira edição da revista Arte e Letra, tem um conto seu com a revisora de textos Beatriz como centro das narrativas. Como está o andamento desse livro?

Tenho dois projetos já negociados com a Record: um romance, que devo terminar até março do ano que vem, e um livro de contos (do qual o conto que você citou fará parte) a ser entregue em 2011. Meu romance parou na página 32 há mais de um ano, por absoluta falta de condições para escrever. Como disse há pouco, pretendo me organizar no segundo semestre para voltar à literatura.

A escolha pelos contos foi uma estratégia de se desvincular da sombra de O filho eterno?

Na verdade, os contos começaram como encomendas. Participei de algumas antologias a convite do colega Miguel Sanches Neto e meio por acaso retomei esse gênero. Há décadas não escrevia narrativa curta. Depois aceitei escrever dois contos para antologias machadianas, inspirados no mestre - Um homem célebre, da PubliFolha, e Recontando Machado, da Record. Recebi convites para revistas também, no Brasil e no exterior. Súbito, a personagem Beatriz começou a crescer e me deu a ideia de um conjunto.


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Edição de domingo, 28 de junho de 2009 
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