Digite a palavra "câncer" em alguma página de busca na internet. Em menos de meio segundo, observe quantas opções de sites estarão à sua disposição.
 Webdesigner Thaisis Barboza, 30 anos, ficou mais criteriosa depois da ameaça de cegueira. Foto: Jose Varella/CB/D.A Press |
Só no Google são 225 milhões de referências oferecidas sobre esse tema. Essa profusão de arquivos digitais é prova incontestável de que os profissionais de medicina, queiram ou não, estão dividindo com a internet uma função primordial para a saúde da população: a de informar sobre doenças, diagnósticos e tratamentos.
O lado bom dessa história é a democratização do acesso à informação. Gratuitamente, qualquer um pode se informar, o que inclusive pode auxiliar na relação médico-paciente, como sustentam alguns especialistas. "Até nós, médicos, usamos a internet como ferramenta de pesquisa. Se chega algum caso que desconhecemos, também podemos recorrer ao Google", confessa o clínico geral e professor da Universidade de São Paulo Jacob Lichtenstein.
No outro extremo, está a certeza de que a internet também abriu portas para um mundo de informações duvidosas e de baixa qualidade, como aponta a pesquisadora e farmacêutica Emília Vitória da Silva. Em sua tese de doutorado na Universidade de Brasília, ela verificou que informações farmacológicas sobre a obesidade em endereços virtuais brasileiros são - em sua maioria - imprecisas e sem comprovação científica. Ou seja, em vez de ajudarem, podem atrapalhar o paciente em processo de perda de peso. Das páginas pesquisadas por Emília, apenas 39% mostravam o autor dos textos e só em 14% estavam as referências usadas. Diante disso, a principal questão a ser debatida é: como leigos podem julgar esse universo de informação na rede? A Revista conversou com médicos e estudiosos e constatou: nesse contexto, as reações adversas e as contraindicações são muitas. Saiba como se proteger.
Reações adversas"Você pode ficar cega em seis horas", mostrava a tela do computador. Diante dela, a moça piscava incessantemente, sem acreditar no que lia. Em cada piscada, uma sensação de visão turva, como se fosse um flash fotográfico. Alarmou-se ao pesquisar sobre o desconforto visual dela. Webdesigner, Thaisis Barboza, 30 anos, tem a internet como uma ferramenta de rotina, seja no trabalho ou em casa. "Fiquei apavorada. Corri para uma emergência oftalmológica e o médico deu outro parecer: uma pequena lesão no vítreo, a parte gelatinosa do olho. Nada a ver com descolamento de retina", conta aliviada.
Míope, com sete graus, 15 dias depois, ela foi ao seu oftalmologista, que confirmou o diagnóstico do médico de emergência. "Preciso apenas de acompanhamento médico. Nada tão grave como disse o 'Doutor Google'", brinca. Boa conhecedora do mundo web, ela usa as ferramentas de busca para tudo: encontrar endereços, conferir preços, fazer compras, descobrir atividades de lazer. Até ter uma consultinha médica, rápida e de graça. "Sempre fiz buscas de forma indevida, sem levar em conta a procedência do site médico. Com essa experiência, fiquei mais criteriosa, pois uso os sites também para conferir informações sobre a saúde da minha filha de dois anos", revela.
Informações ao pacienteA internet proporciona a facilidade de acesso a todo e qualquer tipo de informação sobre doenças, tratamentos, medicamentos, alimentação e outros temas de saúde. Basta um clique e o diagnóstico sai em segundos. A clientela é grande: 40 milhões de brasileiros já são usuários da internet e se conectam em casa, no trabalho, na escola, lan houses ou cyber cafés. Com o surgimento do paciente-internauta, os médicos sentem, nos consultórios, as mudanças no comportamento: o paciente cobra explicações, pede esclarecimento e até troca de doutor pela internet.
Para a bibliotecária Ilza Lopes, professora e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), a avalanche de informações disponíveis na rede merece um olhar mais cuidadoso. Isso porque o conteúdo errado pode provocar danos ao corpo e à mente de quem a segue sem contestação e sem se importar com a credibilidade do autor. Autora da tese de doutorado Critérios de qualidade para informação em saúde na World Wide Web, a especialista em ciência da informação afirma queos médicos, psicólogos, nutricionistas, enfermeiros e outros profissionais da área nem sempre confiam no material divulgado no mundo virtual. Para 80% dos pesquisados, uma home page traz dados seguros se forem mantidas por órgãos governamentais, instituições de ensino e hospitalares. "Para eles, o que tem ponto com, com vínculo comercial, merece uma avaliação mais aprofundada", diz Ilza.
A professora começou a ter interesse pelas páginas de saúde na internet por uma questão familiar: em 2001, a neta, então com nove anos, apresentava altas taxas de colesterol no sangue. Começou a pesquisar sobre o tema na rede. "Fiquei bastante confusa e decidi investigar o assunto analisando a literatura internacional. Concluí que há conteúdo inadequado, principalmente em páginas sem autoria, data e com erros ortográficos. São cuidados básicos para se navegar pela web", diz a professora. Segundo ela, preocupado com esse quadro, os governos americano e de países europeus desenvolveram critérios de avaliação da qualidade. Obrigatoriamente, as páginas precisam ter procedência e endereço do provedor. "As autoridades brasileiras ainda estão estudando essas medidas. Aqui, a internet ainda não tem o controle adequado", afirma Ilza.
Indicações
As páginas que falam sobre novos tratamentos e doenças nem sempre têm data nem chegam a ser assinadas pelo autor. O internauta, afogado por informações contraditórias, fica em dúvida: será verdade ou mais um boato? Na dúvida, a bibliotecária e doutora em informação Ilza Leite Lopes, pesquisadora e professora da Universidade de Brasília (UnB), fornece alguns cuidados imprescindíveis ao navegar pela web em busca de informações sobre saúde.
Ela chegou a essa ferramenta bastante útil na tese de doutorado Critérios de qualidade para avaliação da informação em saúde na World Wide Web, defendida em 2001 na UnB."A internet expandiu muito em oito anos. A qualidade da informação também. Porém, os autores de sites e blogs precisam fornecer essa série de critérios de qualidade a quem acessa os seus produtos. E os internautas devem observar esses pontos ao fazerem as pesquisas", ensina a pesquisadora.
Como pesquisar
- Uma página sobre saúde é confiável se adotar os seguintes parâmetros: Nome e credenciais do autor ou autores do artigo ou responsável/responsáveis pela home page.
- Em caso de publicação científica ou técnica, o nome e a logomarca da instituição.A norma vale para acessar páginas de hospitais e laboratórios farmacêuticos.
- Se o texto for resultado de uma pesquisa, a fonte de financiamento do estudo.
- Data de criação, atualização e revisão da página.
- Não conter erros ortográficos e gramaticais, mostrando que passou por um processo de revisão editorial.
- Deve trazer o aviso: necessidade de consulta ao médico.
- O site deve trazer o endereço eletrônico e físico do autor e do provedor responsável.
Reações esperadasA bióloga Carolina Lobo, 30 anos, pode dividir sua experiência como mãe em duas fases: antes e depois de mergulhar de cabeça no mundo digital.
 Bióloga Carolina Lobo garante que é uma mãe mais esclarecida graças à internet; nesta segunda gravidez, quer parto natural. Foto: José Varella/CB/D.A Press |
Foi durante a gravidez da primogênita Maria Luisa, 3 anos, que Carolina fez sua primeira pesquisa online sobre saúde. "Comecei procurando nos sites de busca. Mas encontrava muitas informações duvidosas. Foi quando eu me filiei a uma comunidade de mães no Orkut que eu percebi o quanto o computador poderia me auxiliar na maternidade", conta.
Na tal comunidade, além de pediatras que acompanham as discussões e debates, as trocas de experiências e dicas das mais de 11 mil mães participantes mudaram todo o seu conceito sobre criação de filhos. "Se não fosse pelo Orkut, não teria sido tão firme com a amamentação e tão cuidadosa com a nutrição da Malu. Fora que quando vemos que os problemas das mães são todos iguais, relaxamos mais", explica.
Mas apesar de dar tantos créditos positivos à internet, Carolina sabe que muitas mães acabam ficando bem mais neuróticas com tanta (des)informação disponível. Ela lembra de uma mulher, desesperada, que foi na comunidade do Orkut pedir conselhos, pois havia digitado no Google os sintomas da gripe do filho e concluiu que se tratava de um leucemia aguda. "As mães todas se sensibilizaram e alertaram a ela que só quem podia dar esse diagnóstico era um pediatra. No fim, o menino não tinha nada. Sem discernimento, a internet acaba sendo prejudicial", opina.
Agora, na segunda gravidez, Carolina quer fazer tudo diferente. Se, no primeiro parto, ela optou por uma cesárea eletiva, agora, depois de muitas pesquisas e conversas online, tentará o parto natural, humanizado e domiciliar. "Jamais cogitaria essa hipótese antes. Sou uma mãe muito mais esclarecida e segura graças à internet", resume.
ComposiçãoSegundo os profissionais de saúde entrevistados para esta reportagem, os sites mais confiáveis são os elaborados por sociedades médicas, por terem o respaldo de diversos profissionais."Cabe ao público ter discernimento para não absorver qualquer informação. Com alguns cuidados e bom senso,dá para encontrar muitas coisas boas na rede", afirma o clínico geral e membro da Sociedade Brasileira de Diabetes Darci Penteado.
Segundo o clínico geral e professor da USP Jacob Lichtenstein, se a dúvida não for respondida por essas webpages, vale procurar nos blogs de profissionais de saúde, ou até mesmo em sites genéricos sobre o tema, desde que sigam os princípios do código de conduta da fundação Health on Net (HONcode) para sites de medicina e saúde (que atesta páginas que seguem os seguintes padrões: autoridade, complementaridade, confidencialidade, atribuições, justificativas, transparência na propriedade, transparência do patrocínio, honestidade da publicidade e da política editorial).A Revista selecionou, com a ajuda desses profissionais, boas opções de pesquisa:
Sites confiáveisCardiologia
www.cardiol.br Quatro vezes premiado pelo site iBest nas categorias "serviço ao cidadão", "associações profissionais","saúde e bem-estar" e "marketing", o site da Sociedade Brasileira de Cardiologia tem um espaço reservado para o público, com dicas, artigos e informações relevantes sobre cardiopatias e qualidade de vida, além de oferecer testes e listas com profissionais associados.
Cirurgia plástica
www.cirurgiaplastica.org.br O site da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica tem poucas, mas relevantes informações para os pacientes interessados no assunto, como cartilhas virtuais e artigos médicos.
Endocrinologia
www.crescimento.org.br O site da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia é mais voltado para a classe médica, com notícias sobre pesquisas, eventos e congressos. Mas também contém informações gerais sobre diabetes, doenças endocrinológicas, obesidade e cuidados com a saúde. No site, é possível calcular o seu IMC (índice de massa corporal) online e gratuitamente.Mastologia
www.sbmastologia.com.br Na página virtual da Sociedade Brasileira de Mastologia, o espaço voltado para o público oferece informações básicas sobre o câncer de mama e outros assuntos relacionados.
Oncologia
www. sboc.org.br e
www.sbcancer.org.br A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica oferece em seu site uma cartilha para pacientes com câncer e o link para o donwload do livro Comida que cuida. No site da Sociedade Brasileira de Cancerologia, existem artigos destinados aos pacientes e leigos.
Pediatria
www.sbp.com.br No site da Sociedade Brasileira de Pediatria é possível encontrar cartilhas de vacinação e amamentação, e outras poucas informações aos pais.
Governamentais
www.inca.gov.br O Instituto Nacional do Câncer tem um site com diversas reportagens que abordam novos tratamentos, encontros nacionais e internacionais do tema, além de oferecer o link para o Rede Câncer,que disponibiliza diversas informações aos pacientes e curiosos.
portal.saude.gov.br O portal do Ministério da Saúde oferece informações sobre políticas e ações de promoção da saúde Brasil afora, além de informações importantes sobre prevenção de doenças.
Sites elaborados por médicos (mais acessados)
drauziovarella.ig.com.br Esse é o endereço do site do médico mais famoso do país, o doutor Drauzio Varella. A página traz artigos científicos, esclarece dúvidas sobre doenças e Varella entrevista outros colegas sobre temas importantes da medicina.
www.enxaqueca.com.br O médico Alexandre Feldmann é um dos maiores especialistas sobre dores de cabeça no país. A home page aborda os vários aspectos e tratamentos do distúrbio. Porém, não segue a norma recomendada pelos conselhos de medicina: anuncia os livros de Feldmann e fornece os telefones de contatos para consultas.
www.dermat.com.br A médica das estrelas globais Shirlei Boreli dá dicas sobre cuidados com a pele, banhos, celulite e câncer de pele.
O bom e o ruim das consultas on-lineTatiana Sotero // com Correio Braziliense
tatianasotero.pe@diariosassociados.com.brA empresária pernambucana Marcelle Sultanum, 32 anos, é frequentadora assídua da internet quando o assunto é relacionado à saúde. A velha e boa "consulta" com o Dr. Google lhe deram mais embasamento, conta ela, para discutir com os médicos.
 Marcelle Sultanum reconhece que a internet, ao mesmo tempo em que ajuda, também pode distorcer a realidade se o internauta não fizer uma busca criteriosa. Foto: Jaqueline Maia/DP/DA Press |
Foi assim quando ela tinha 20 anos e viu o pai adoecer com um tipo de enfermidade rara: "encefalite" (inflamações aguda no cérebro). "Entrava todo dia na internet e sempre discutia com o médico porque meu pai não apresentava os sintomas que eu via pela web. Tanto é que o doutor me chamava de medicazinha", recorda ela, acrescentando que o pai faleceu dias depois de uma outra doença.
Sete anos mais tarde, a internet também foi sua aliada na primeira gravidez. Foi através das páginas do mundo virtual que ela conheceu os benefícios de um parto normal e credita ao Dr. Google a tranquilidade que adquiriu na hora que entrou em trabalho de parto. Ela também aproveitou as facilidades virtuais parafazer uma consulta com uma homeopata, por e-mail, para tratar uma gripe alérgica do seu filho Tiago, quando ele tinha apenas seis meses e, diz ela, a experiência deu certo.
Mas Marcelle reconhece que a internet ao mesmo tempo que ajuda, também pode distorcer a realidade se o internauta não fizer uma busca criteriosa. Neste ano, ela descobriu que tem um problema cardíaco chamado "fibrilação atrial". Traduzindo para uma linguagem comum, é quando o coração está com a frequencia ou ritmo alterado. "Quando o médico disse o nome da doença, meu marido brincou e pediu para ele repetir o nome com calma porque eu iria pesquisar na internet e foi o que eu fiz", conta.
A consulta via web foi mais assustadora do que ela pensava. Percebeu que a doença não era comum em pessoas jovens e que geralmente ocorria em diabéticos, hipertensos e portadores de doenças coronarianas. E nada disso ela tinha. "Fiquei apavorada! Pesquisei várias formas de tratamento e fui fazer um check up em São Paulo. Cheguei lá falando sobre os tratamentos invasivos que vi pela web", recorda. "Questionei porque o médico só me passou exames de rotina e aí ela me tranquilizou dizendo que primeiro tenta curar o problema com medicamentos. Foi aí que percebi que as minhas pesquisas na internet foram muito além do que eu realmente tinha", completa.
Mas as experiências valeram a pena. Ela conta que aprendeu a lição que a medicina não é uma ciência exata e que uma doença pode se manifestar de diversas formas em pessoas diferentes. "A pesquisa ajuda para você ter como discutir com o médico e não tomar uma atitude apenas consultando o Google", diz. E ainda dá a receita para quem quer se aventurar nas buscas on-line: "É sempre bom procurar sites especializados e não acessar páginas com opinião de leigos", conclui.