29 de setembro de 1968. As cantoras Cynara e Cybelle ganham o III Festival Internacional da Canção e também recebem dez minutos de vaia. Quase toda a plateia que lotava do Maracanãzinho rejeitava as campeãs.
 Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press |
Ali do palco, observando tudo, Claudionor Germano, assiste a guerra entre Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, e Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. "Fui para apresentar uma composição de Capiba e Ariano Suassuna, chamada São os do norte que vem", recorda Claudionor, com sua memória prodigiosa, carregada de dias, nomes, detalhes históricos. Naquela ocasião, lembra, ficou na quinta colocação. "Um feito honroso. Mais de quatro mil músicas estavam competindo", relata.
Desde que começou a carreira solo, no dia 20 de janeiro de 1949 (faz questão de citar a data, provando que não esquece de nada) o maior intérprete do frevo pernambucano conquistou um séquito dentro e fora dos shows. Um dos motivos é sua capacidade de arregimentar gente nova para seu grande bloco de amigos. Em momento algum da conversa ele se comporta como lenda, demonstrando um interesse real pela história do interlocutor. Descobriu a vocação nos estúdios da Rádio Jornal, quando o maestro Guerra Peixe dirigia uma orquestra no programa Primeira audição. Ele cedia o direito de execução das suas músicas para novatos. Continua o mesmo. Usa a agenda poderosa para realizar um sonho. "Construir um retiro dos artistas no Recife", adianta o cantor que também fala de recordes e a paixão pela política cultural. (Phelipe Rodrigues)
Sua carreira começou nos anos 40. Até hoje, o senhor é um nome forte na música popular brasileira. Existe segredo para uma carreira longa?
Humildade. E demonstrar interesse pelo outro. Comecei, aos 15 anos, já pensando dessa forma. Estreei como cantor da orquestra Ases do ritmo. Logo a seguir fui para os estúdios da Rádio Clube de Pernambuco. Ao longo da trajetória tive que me dividir entre o palco e as vendas. Virei representante comercial e até fui chefe de recursos humanos de uma multinacional. Mas nunca deixei de lutar pela cultura local. Fui juiz classista dos músicos, secretário de cultura e turismo de Paulista. Tanto eu quanto meu irmão, o escultor Abelardo da Hora, sempre mostramos interesse pelas pessoas. Isso conta.
Esse interesse pelos outros faz o senhor pensar na construção de um retiro dos artista no Recife? Quero entrar em contato com o ator Stepan Nercessian, que coordena o retiro carioca. Quem vai fazer a ponte é a cantora Miúcha, que mora no Rio e virou uma amiga depois que nós gravamos o CD Ranchos e frevos de bloco nos carnavais do Recife. Gostaria de realizar esse projeto e oferecer um lugar para artistas aposentados que não guardaram dinheiro. Alguns por falta de estratégia e outros por conta do nosso mercado pequeno.
O senhor é muito requisitado no carnaval. E uma agenda cheia no resto do ano. Ainda faz política cultural. Sempre tento ampliar o alcance dos ritmos locais. Quando fazia o Vôo do Frevo queria uma plateia variada. Não apresentar só a convidados. Agora, por exemplo, tenho um projeto aprovado pelo Ministério do turismo para levar o frevo a quatro capitais brasileiras. Fiquei conhecido por conta das canções de Capiba e Nelson Ferreira. Sou o intérprete que mais gravou o mesmo compositor. São 132 letras de Capiba. Um recorde nacional.
Em casa, a trilha sonora continua sendo o frevo?
É minha marca-registrada. Vários compositores fazem um trabalho e me ligam. "Achei a sua cara". Gosto de saber o que está acontecendo. Adoro ouvir Orlando Silva. Além de Tom Jobim, ChicoBuarque e Miúcha. Também troco muita informação musical com meu filho, Nonô Germano, e meu sobrinho, Jehovah da Gaita.