Brasília - O presidente Lula mudou a avaliação que vinha fazendo da crise do Senado. Em vez de defender o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), como havia feito duas vezes antes com veemência, ontem Lula adotou uma postura institucional e preferiu deixar a solução da crise para o próprio Senado. Justamente no dia em que Sarney divulgou uma nota em que praticamente pede socorro ao presidente. Numa rápida entrevista, ontem, Lula disse que há denúncias de irregularidades no Senado e que existe a fase de apuração. Então, na opinião dele, feito isto, deve-se tomar as providências. O que não pode, segundo Lula, é o país passar o mês inteiro discutindo a crise do Senado - agravada depois do dia 10, quando foi revelado a existência de atos secretos editados para dar regalias e aumentar salários de parentes e apaniguados de senadores e diretores da Casa.
Indagado se Sarney deve sair, Lula respondeu que "não", mas desta vez sem ressaltar que o presidente do Senado é uma pessoa diferente das demais, "um ex-presidente da República", como havia feito na semana passada. "Sarney foi eleito. Acho que ele tem um compromisso de fazer apuração e ele me disse que está fazendo isso. Só espero que haja apuração, só isso." Lula defendeu o afastamento dos ex-diretores que estão sob suspeita de envolvimento nas irregularidades.
Na avaliação que Lula e os ministros mais próximos do presidente vêm fazendo da crise do Senado, há o temor de que se não houver uma solução rápida, o desgaste leve o Legislativo a uma crise semelhante à que atingiu o Congresso em 1993 e 1994 e motivou a criação da CPI dos Anões do Orçamento. Essa CPI teve tanto repercussão que inviabilizou o funcionamento do Congresso Revisor, convocado justamente emendar a Constituição naquilo que não tivesse dado certo nos cinco anos desde a promulgação da Carta, em outubro de 1988. O Congresso parou, não conseguiu fazer votações importantes e o escândalo atingiu líderes partidários como Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), que acabou tendo o mandato cassado. Se o Senado travar as MPs com as quais o governo toca a administração correriam riscos, porque elas perdem a eficácia depois de 90 dias caso não seja aprovadas.