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O verde no oceano
Exemplos de áreas protegidas mostram que há esperança. Mas é preciso ampliar a proteção de menos de 1% para, no mínimo, 30%


As bóias dividem o passado e o futuro. Do lado de dentro é como se o homem ainda fosse um bom selvagem. Corais, peixes, moluscos e outras espécies de seres vivos enfrentam suas batalhas naturais. Sem o peso da interferência humana. Fora das cordas de proteção, a ausência de animais incomoda pelo silêncio e falta de cores no fundo do mar. A linha do tempo separa um pequeno trecho de 400 hectares de território marinho, na praia de Tamandaré, do resto da água. Na imensidão do lado de fora da área protegida, a vida está entregue à pesca sem controle, ao despejo de lixo e esgoto e à ocupação desordenada da zona costeira. A esperança está na área delimitada, onde o ambiente e os seus habitantes têm tempo de se recompor e continuar se recuperando. Uma gota no oceano.

A área fechada para qualquer tipo de exploração em Tamandaré, no Litoral Sul do estado, é de responsabilidade do Projeto Recifes Costeiros e fica dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, que tem 435 mil hectares. Uma iniciativa do departamento de oceanografia da UFPE e do Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Nordeste (Cepene/Ibama) que surgiu, em 1999, dois anos depois da criação da APA. "Tivemos um reconhecimento à necessidade de preservação desses ambientes, mas ela não é de proteção integral. Queríamos observar o que ocorre quando o território fica livre de pesca e outro tipo de exploração", esclarece o professor da UFPE e atual coordenador do projeto, Mauro Maida.


Rubem, 55, deixou de ser pescador e se tornou o atual guardião do tesouro. Ele diz ter orgulho de ver a vida renascer. Foto: Inês Campelo
Quem toma conta da "máquina do tempo" é o ex-pescador Ruberval Bento da Silva, 55 anos, ou simplesmente Rubem. Ele foi contratado pelo projeto e seu trabalho é fazer vigílias pelo mar para garantir a proteção a tudo o que cresce dentro de suas bóias. O guardião atua também no convencimento de outros pescadores sobre a importância da área. "Quando o professor chegou aqui, também fiquei muito irritado porque ele fechou a área. Hoje entendo que os peixes precisam de um lugar para crescer para não faltar em todo lugar", garante. Para quem viu os peixesfugirem, saber que guarda um tesouro é recompensador. Estudos feitos na área pela UFPE, desde a criação do espaço, constataram que a quantidade de espécies na parte fechada chega a ser 13 vezes maior do que na área aberta.


Mauro Maida vê nas áreas protegidas o caminho para a sustentabilidade. Foto: Inês Campelo
A experiência fez Rubem refletir sobre sua atuação anterior. "Quando a gente é pescador, acha que o mar é grande, que sempre vai ter peixe. Mas vi que, se não cuidarmos, vai faltar", constata. Os números surpreendem pelo que trazem de significado. Quando começou a pescar comercialmente, ele conta que capturava de 10 a 12 quilos de lagosta com uma rede de 100 metros. Hoje, se lançar 1.000 metros, não traz mais do que três quilos. "E olhe lá", desafia. A segurança vem de quem acompanha o projeto e compreende o impacto ambiental de práticas agressivas. Segundo Maida, a captura de camarão pela rede de arrasto mexe com 4.849 hectares de solo por ano para obter 700 gramas por hectare. "O mar é um bem público, mas vale a pena destruir o solo, levar corais, algas e outras espécies que ficam presaspara ter nem um quilo de camarão?", questiona o professor.

Em dez anos de atividades, Maida destaca que os resultados indicam a ampliação de áreas protegidas como o único caminho. Os números mostram um pedido justo. Menos de 0,1% da área do mar territorial é protegida, diferente do território terrestre, que tem cerca de 25% de proteção legal. A APA Costa dos Corais é a maior unidade de conservação federal marinha. Mas é pouco. "As pessoas precisam buscar a informação para decidir como podem agir, mudar os hábitos e se readaptar ao que a natureza pode oferecer", diz. O grupo tem um sonho, e já fez sua proposta ao estado, de criar uma rede estadual de proteção. Para isso é preciso investir em outros guardiões que possam deixar o "mar crescer quieto", como explica Rubem. O nome do homem é esperança.


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Edição de sexta-feira, 5 de junho de 2009 
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