A capacidade de dar a volta por cima depois de tragédias pessoais ganhou uma classificação muito usada no mundo corporativo: resiliência. Quando executivos de primeira linha nos Estados Unidos perdem o emprego, especialistas em carreira aconselham frieza de um pepino em conserva. Devem ser práticos e ponto. Basta assistir um capítulo de The apprentice (versão americana de O aprendiz, exibido no Brasil pelo canal por assinatura People+Arts) com o multimilionário Donald Trump. Os franceses arrumaram uma maneira mais poética de definir a vocação para não curtir o drama. Tourner la page, ou virar a página, é a expressão que a escritora Adriana Falcão ouviu bastante na temporada que passou em Paris, há dois anos. Agora, ela lança pela editora Fontanar, A arte de virar a página, um divertido livro de mensagens e imagens que estimulam a vontade de encarar os problemas com mais humor.
 Nina, 3 anos, nasceu depois que Mônica se curou de um tumor no útero. "Amo o improvável" Foto: Ricardo Fernandes/DP/D. A Press |
Na entrevista ao Diario, ela se mostra uma especialista no assunto. Ao longo da vida, passou por uma série de turbulências que poderiam fazê-la sucumbir se não tivesse uma arma secreta. "O humor para rir de nossas dificuldades. Algo que ensinei às minhas três filhas desde muito cedo. Aliás, aprendi esse truque em Pernambuco, onde morei na infância e adolescência", diz Adriana. A finalidade da obra, ela lembra, não é de autoajuda e, menos ainda, de dramalhão mexicano. "Queria mostrar a dualidade em que vivemos. Um dia estamos apaixonados. No outro, descobrimos uma infidelidade. Assim é tecida a vida", conta a escritora.
Há quem enxergue experiências traumáticas dessa maneira tranquila, demonstrando total intimidade com a arte de virar a página. Há seis anos, a representante comercial Mônica Moura sentiu algumas mudanças no corpo e decidiu procurar um clínico geral. "Minha barriga estava bastante inchada. O médico fez um questionário e passou alguns exames", lembra. No dia marcado para o diagnóstico, perdeu o chão. "Estava com câncer no útero. Um tumor imenso. Teria que fazer quimioterapia. Sem previsão de cura", completa. Ao invés de cair no choro, ela chamou a mãe para conversar e as duas fizeram um acordo. "O tempo gasto com lágrimas poderia ser poupado. Gastaríamos correndo atrás de soluções".
Poupe o tempo com crises para buscar soluções Festa - A trajetória até a cura, no entanto, parecia tortuosa. "A medicação era cara, precisava entrar na fila com 28 pacientes na minha frente. Não desisti. Ia aos hospitais todos os dias e contava minha situação. Deixava meus dados. Tinha toda a fé em Deus que me ajudariam". Um dia, às 7h da manhã, o telefone de casa toca. "Mônica, acorda que é a moça do hospital", dizia a mãe de Mônica. A dose de quimioterapia seria aplicada direto no tumor até que ele regredisse para 12 cm de circunferência em três meses. Nesse período, sintomas da menopausa precoce e perda de cabelo também se manifestavam. "Mas não me deixei abater. Ia à praia todos os dias. Festejava com os amigos várias vezes por semana".
No dia marcado para a cirurgia, a equipe médica foi realista. "Não sabemos o que pode acontecer. O útero será retirado e você, aos 28 anos, não terá filhos". Mas outro milagre aconteceria. "Quando despertei da anestesia, me falaram que a parte mais importante do útero não sofreu quase nada. Ainda assim, as chances de uma gravidez eram remotas". Dois anos depois, a menstruação ficou descontrolada. Foi ao consultório ver o que estava acontecendo. "O médico achou que era um novo tumor. Fiquei em pânico de passar por tudo de novo. Mas tudo mudou na ultrassonografia. A ginecologista me pediu para escutar o coração do bebê". Nina, hoje, está com três anos. Durante as fotos, pedia que a sessão acabasse logo. "Tenho aula de balé. Adoro dançar. Também gosto de Bob Marley e de brincar no parquinho". Mônica constata. "Muito incrível essa filha, não é?".