Deitados no chão, entrelaçados, os bailarinos Cláudio Lacerda e Juliana Siqueira parecem ser um só. Aos poucos,
eles começam a se mover, ainda juntos. Ao se desvencilharem um do outro, iniciam sequências de movimentos lentos, mexendo os corpos a partir de lugares pouco explorados, como cotovelos ou ombros. No duo de dança contemporânea Interregnum, que fez sua estreia neste fim de semana, no teatro Hermilo Borba Filho, quando o público adentra a sala, os artistas já estão em cena.
O espetáculo, criado por Cláudio Lacerda em 2006, no Rio de Janeiro, com participação de outra bailarina (Daniela Nistra) e remontado agora no Recife, com apoio do Funcultura, não segue uma narrativa convencional, mas sim uma série de movimentos em que os dois bailarinos se encontram e se afastam, às vezes com as sequências se repetindo de um para o outro, como num processo de "contaminação". A questão da dissolução do sujeito no embate com o outro é percebida na atuação dos intérpretes.
"Minha criação é feita em cima da experimentação. Buscamos um corpo poroso, que mesmo separado carrega um pouco do outro", coloca Cláudio Lacerda, que também destaca a trilha sonora criada pelo músico e produtor musical Paulo Baiano. "Ele acompanhou o processo de ensaios e fomos testando extratos de música, manipulando os sons", conta o coreógrafo, que levou nove meses para a remontagem, entre as improvisações e o início da temporada.
De acordo com Cláudio Lacerda, não existe um trecho de Interregnum que seja mais difícil na execução, já que o espetáculo como um todo exige concentração, domínio da técnica e da respiração. Nos minutos iniciais, Cláudio realiza movimentos intensos, em que mexe os músculos do abdomên, como se ele fosse saltar do corpo. Em outro ponto da performance, um foco de luz ilumina os bailarinos, que buscam espaços vazios e arestas no corpo de um para se encaixar no outro.
"Outro ponto interessante é que o duo foi pensado para ocupar um espaço de arena, o que não determina umaúnica frente para assistir à apresentação e onde o público nos circunda. Cada espectador escolhe o melhor ângulo. No Teatro Hermilo, também é possível ter a visão de cima, o que cria desenhos com nossos corpos", opina.
Também estão sendo realizadas apresentações para alunos de escolas e ONGs, a exemplo das crianças do Espaço Maria Helena Marinho, do Movimento Pró-Criança, que assistiram à sessão na última sexta-feira. Os próximos encontros com os alunos serão nos dias 1º, 7 e 8 de maio. Para agendar a participação das escolas, é necessário entrar em contato com por telefone 9256-1994 ou pelo e-mail caramiolasproducoes@gmail.com.