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Opinião
Os livros falam e dialogam com os homens e são amigos valiosos em nossas vidas - Antônio Campos


O amigo do homem

Antônio Campos // Advogado
camposad@camposadvogados.com.br

No mês de abril, que inaugura a primavera,comemora-se o Dia Internacional do Livro e do Direito Autoral (23 de abril), data oficializada pela Unesco em 1996 e que é festejada em mais de 100 países. A Espanha, desde 1926, já celebrava o livro na data da morte de Shakespeare e Cervantes. Na região espanhola da Catalunha comemora-se o dia do livro conjuntamente com o dia de São Jorge e o dia da rosa: dia, portanto, do padroeiro, do amor e da cultura. As mulheres recebem flores dos homens, que retribuem presenteando livros.

O escritor Jorge Luís Borges escreveu: "Dos instrumentos do homem, o livro é, sem dúvida, o mais assombroso. Os demais são extensões do corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões da sua vista; o telefone é a extensão da sua voz; depois temos o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é extensão da memória e da imaginação". Em que pese o brilhantismo da definição de Borges, costumo dizer queo livro é o maior amigo do homem. Recentemente, assistindo ao filme "O Leitor", pude, realmente, confirmar que, se existe alguma redenção para o ser humano, ela passa pela linguagem. A falta ou o erro de comunicação pode ser determinante nas vidas das pessoas. Os livros falam e dialogam com os homens e são amigos valiosos em nossas vidas. A boa leitura é uma experiência mágica. Nos livros conhecemos santos, reis, filósofos e homens comuns. Podemos saber o que disseram Jesus Cristo na Palestina e Gautama Buda no continente indiano. Em magistral palestra na atual biblioteca de Alexandria, no Egito, Umberto Eco disse: "As bibliotecas, ao longo dos séculos, têm sido o meio mais importante de conservar o nosso saber coletivo (...) se me permitirem usar essa metáfora, uma biblioteca é a melhor imitação possível, por meios humanos, de uma mente divina, onde o universo inteiro é visto e compreendido ao mesmo tempo". A leitura de um livro não pode parecer uma obrigação, deve, ao contrário, ser um ato de prazer ou de paixão. Um livro tem que ser uma forma de felicidade. Em 2008, uma escola formada por escritores, em Londres, que se denominou Escola da Vida, criou a chamada biblioterapia, que consiste em indicar leituras para o perfil do aluno/cliente, numa verdadeira terapia, através dos livros. Em tempos em que um livro é publicado a cada 30 segundos e seriam necessárias 163 vidas para ler todos os livros oferecidos somente pelo site Amazon (como bem lembra o site de escola), as sessões de biblioterapia podem ser um bom guia para quem está perdido. Que impactos as novas tecnologias estão trazendo para a indústria do livro no mundo e na América Latina? Livreiros das três Américas e da Europa discutiram esse tema, nesse mês, no 3º Congresso Ibero-Americano de Livreiros. Produtos eletrônicos como e-book e audiobook, suportes portáteis como o Kindle, da Amazon, e o Sony Reader, terão espaço garantido de exposição e discussão neste que é considerado o maior e mais importante evento do mercado editorial da América Latina e do mundo hispânico. Em novembro do ano passado, já discutimos o tema na Fliporto Digital, que é um dos braços da Fliporto, e lançamos pioneiramente o primeiro concurso brasileiro de literatura no celular. Contudo, não confundo o futuro do livro com o futuro do papel, que é o seu tradicional suporte. Nunca tantas ideias foram escritas, na era da internet. Se há algo que possa ameaçá-lo é a falta de leitores e não a mudança da base em que se firma. O livro atravessou eras de guerras e perseguições, sobreviveu e mais ainda, saiu fortalecido. Nesta época de crise econômica de dimensões globais, de contradições e incertezas, a cultura e o livro são as armas para se manter os valores básicos do homem acima dos conflitos econômicos e de credo. Que este dia entre em nosso calendário como uma data significativa e que todos celebrem a leitura e o amor pelos livros, não à toa, o grande amigo do homem.

"Bonjour Paris"

Ina Melo // Presidente da APEF - Associação Pernambucana de Estagiários na França
apefrecife@hotmail.com

Paris começa a despertar. Seis horas da manhã. Aos poucos a cidade vai saindo dos braços da madrugada para se encher de luz. O sol timidamente, brilha nas frestas das janelas. Não existem nuvens. O céu é azul, límpido. A cidade está coberta pelo orvalho, as pessoas começam o ritual diário.

Bom dia Paris! Estás bela neste começo de primavera!

Deixo o hotel e caminho pelo "Boulevard de Montparnasse," em direção aos Jardins de Luxemburgo. Nenhuma "brasserie" aberta para o café. Sigo, recebendo a brisa suave de uma manhã de primavera. O verde luxuriante me enche de prazer, respiro o puro ar parisiense.

Paro junto à fonte e vejo correr águas cristalinas. Canteiros floridos e muitos pássaros. Longe, um leve burburinho mostra o acordar das pessoas que passam leves, iluminadas de sol.

Daqui a pouco o grande jardim estará cheio de crianças e velhos - dois mundos e duas visões de Paris. Crianças correm atrásdas borboletas e os velhos as acompanham com olhos cansados. É a vida que começa levando recordações para aquela que está quase passando para o outro lado.

Estou numa posição muito cômoda, no meio delas, perto da que termina, porém com força e vigor. Vemos jovens senhores correndo. São executivos que, antes de enfrentarem a labuta dos escritórios, fazem um pouco de exercício. A cidade reflete sua beleza nos espelhos dos lagos que a circundam.

Paris! Esta velha e sempre jovem senhora. Elegante, charmosa, oferecendo a todos que a visitam àquela célebre "joie de vivre" (alegria de viver), caracteristicamente francesa.

Vamos todos respirar este ar inebriante de vida e alegria que a primavera parisiense nos oferece. Venham amigos, acordar em Paris numa linda manhã de sol! Amar e valorizar as pequenas coisas da vida! Admirar esta cidade tão cheia de histórias e estórias.

Paris, a cidade das artes, da música e do amor!

EUA: presidentes históricos

Roberto Martins // Sociólogo
robertomm@uol.com.br

Nas repúblicas presidencialistas, o presidente é o presidente. Às vezes esses presidencialismos tornam-se tão exorbitantemente concentrados no presidente, que a presidência é chamada de Presidência Imperial. Os Estados Unidos da América do Norte e os países da América Latina representam no mundo o alto relevo da opção presidencialista. A Europa é quase toda parlamentarista, como o é o Canadá. A nova Rússia é parlamentarista. A Ásia é uma mistura meio caótica. O Oriente Médio é cheio de monarcas e alguns presidentes que parecem monarcas. O resto da África tem mais presidentes que parecem déspotas - imperadores sem impérios. A China é uma misteriosa cadeia de comando, uma espécie de nomenklatura, atualmente com líderes de uma esperteza sem igual, agudos e sempre pensando muito lá para frente, o que deixa em desvantagem as democracias burguesas ocidentais.

Anteontem foi comemorada a Inconfidência Mineira, feriado totalmente desnecessário. Os inconfidentes miraram-se na Revolução norte-americana e consta que houve contato de um inconfidente com Jefferson em Paris. Quero escrever sobre alguns dos presidentes da América daquela águia carrancuda. Foram presidentes - dentro do meu gosto, deve ser dito - que eu chamo de "históricos", isto é, não de circunstâncias. Harry Truman autorizou o lançamento das bombas atômicas, mas era apenas um medíocre pau mandado de mafioso do Missouri. F. Delano Roosevelt pela sua grandeza deve ser tratado em separado. Minha primeira menção vai para Andrew Jackson, o 7º presidente em 1829, e é o meu preferido, o fundador real da democracia nos EUA. Era contra a existência do colégio eleitoral, e foi o 1º a ser eleito pelo voto popular, tendo sido o 1º não oriundo da elite da costa leste. Foi eleito pelo voto da pessoa comum, do homem das ruas. A festa de sua posse foi uma farra do povão que sujou os tapetes da Casa Branca. Na campanha, sua esposa foi baixamente caluniada e veio a morrer de depressão. Viúvo, de brabo que era, Jackson virou triste mas não perdeu a força do seu ideário. John Kennedy, com seus programas sociais voltados para os mais desprotegidos, foi muito maior do que dizem. E agora, Barack Hussein Obama. Cedo para avaliar. Fez na campanha, um discurso espertíssimo no qual lança o conceito da pósracialização. Ele pósracializou-se, coisa que significaria que ele tem o poder de superar a questão racial, de "pular" pelo discurso, a mancha da racialidade na sociedade americana. Ninguém individualmente tem esse poder de desracializar os valores das identidades coletivas. Bush teve a negra Condoleza junto dele por oito anos, e o Colin Powell, mulato. E daí? Nixon acompanhou o velório de Luther King que foi contra a guerra do Vietnam, e perdeu o apoio de Lyndon Johnson por isso. King não podia jamais ser presidente. Só podia ser cadáver. Longa vida para a família Obama e que ele faça o melhor, o melhor, assim reelegendo-se.

Um Jardim Botânico esquecido

Alexandre Acioli // Jornalista
alexandreacioli@yahoo.com.br

Apopulação conhece pouco o nosso patrimônio e aqui citamos o exemplo do Horto D'El Rey. Quem e quantos o conhece, em Olinda?

O Horto D'El Rey, o segundo Jardim Botânico do Brasil, criado pela Carta Régia de 17 de novembro de 1798 (semelhante ao que se havia criado no estado do Pará) é completamente desconhecido da maior parte dos pernambucanos, dos olindenses e dos turistas que ali chegam diariamente. Situado na propriedade conhecida como "Sítio dos Manguinhos", entre o Alto da Sé e as terras do Convento da Conceição, no Bonsucesso, os 260, 1 mil metros quadrados de área verde do horto, hoje é um espaço privado pertencente à família Aldir Maia, do (antigo) Banco Industrial.

O horto, que teve o seu tempo áureo entre 1826 e 1830, quando chegou a possuir mais de mil espécies, poderia ser resgatado, mantido, preservado e destinado à visitação e contemplação dos olindenses e turistas. Mas, pelo contrário, está escondido pelas casas de venda de artesanato erguidas na Rua Bispo Coutinho, lateral à Igreja da Sé. Pior: a maior área privada dentro de um patrimônio histórico do mundo, o antigo Horto D'El Rey está sendo invadido por edificações e tomado pelo lixo.

A Prefeitura de Olinda bem que poderia desapropriar o sítio e fazer voltar o antigo jardim botânico. Desapropriado, aquele espaço poderá ser explorado com trilhas ecológicas; utilizado para atividades de educação ambiental de alunos das escolas públicas e privadas da cidade e as universidades poderão realizar inúmeras pesquisas sobre a fauna e a flora da região. A história do país registra que as plantas introduzidas aqui no Brasil eram aclimatadas ali, naquele horto, e disseminadas a partir dele, a exemplo do que ocorreu com a fruta-pão, o cravo e o gengibre.

Sendo uma área de proteção ambiental, por que a Prefeitura de Olinda não resgata a função original do que hoje se chama Sítio dos Manguinhos? Por que não desapropriá-lo e transformá-lo em área de proteção permanente e/ou de interesse coletivo? Extinto o direito privado sobre a propriedade, o espaço poderá ser transformado em reserva florestal aberta à visitação pública e terá a função social de propulsora da consciência ecológica de crianças e adolescentes, de adultos e de grupos da "melhor idade".

Lembro-me bem que durante as comemorações dos 473 anos de fundação de Olinda, em 12 de março de 2008, o secretário estadual de Turismo, Sílvio Costa Filho, prometeu que o Alto da Sé, tradicional ponto turístico de Olinda, será requalificado com a instalação de um elevador panorâmico, o ordenamento do comércio e a liberação da vista para o Horto D'El Rey. Naquela oportunidade, foi assinada (até) a ordem de serviço para a realização das obras, que prevê a reestruturação da área e a reforma da caixa d'água (primeira construção em estilo moderno com combogós do país), que será transformada num mirante, com elevador panorâmico e a instalação de um guarda-corpo, possibilitando que os visitantes tenham acesso à vista do Horto.

Mesmo com esse conjunto de obras por vir, acreditamos que o poder público poderá fazer mais em favor do antigo D'El Rey. Insistimos, novamente, na necessidade da desapropriação daquele Sítio e a transformação da área em reserva florestal urbana. Esse, sim, será um grande passo no trabalho de preservação ambiental e de conscientização ecológica da nossa gente.


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Edição de quinta-feira, 23 de abril de 2009 
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