Ela é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns no Brasil. Com quase dois milhões de casos por ano no país, provoca mais infecções que a gonorréia, a sífilis, o herpes genital e o HPV (Papilomavírus Humano).
 Catarina Simonetti identificou a doença até em pessoas com diagnóstico negativo. Foto: Arquivo Pessoal |
Pode ter consequências graves, causando sérias inflamações, infertilidade e até gravidez nas trompas. Silenciosa, não apresenta sintomas em 70% dos casos. E, para complicar ainda mais, os métodos diagnósticos existentes não são muito precisos. Aliás, não eram. Graças ao trabalho de um grupo de pesquisadores do Laboratório de Imunopatologia Keiso-Asami (Lika), ligado à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a clamídia já pode ser diagnosticada de forma eficaz, sem deixar dúvidas. Por sua relevância, o trabalho, que pode ser aplicado nas redes pública e privada de saúde, foi, inclusive, finalista na categoria Saúde da Mulher do 3º Prêmio Saúde, da Editora Abril. O trabalho será publicado em revista científica especializada.
Após três anos de estudo, a equipe conseguiu usar a genômica para diagnosticar a infecção por meio de uma técnica já conhecida e disponível em Pernambuco, a PCR em tempo real. O avanço foi possível graças à descoberta feita por um dos pesquisadores, o mestre em genética e doutor em ciências biológicas Paulo Roberto Eleutério de Souza. Ele identificou em laboratório uma seqüência genética complementar à da bactéria que causa a infecção, a Chlamydia trachomatis. Com isso, foi possível amplificar o material genômico do microorganismo, fazendo milhares de cópias genéticas do germe, o que permitiu um diagnóstico de alta precisão e especificidade. A sequência genética foi desenvolvida em janeiro deste ano. Sem essa descoberta, o exame de PCR em tempo real não poderia ser feito.
No estudo, que foi alvo da tese de doutorado da farmacêutica Ana Catarina Simonetti e do trabalho de conclusão de curso do biomédico José Humberto de Lima Melo, foram submetidas a exame secreções vaginais de 100 mulheres. O PCR em temporeal conseguiu identificar infecção por Chlamydia até em pacientes que tinham recebido resultado negativo, após serem submetidas a um exame convencional, o de imunofluorescência direta. Além desse, outros exames já existentes para detectar infecção por clamídia são o cultivo celular e o imunocromatográfico. "As principais vantagens de se fazer o diagnóstico por meio do PCR em tempo real são a alta precisão e especificidade. Ela é mais específica porque a gente está trabalhando com o material genético da bactéria. E ela é muito mais precisa que os exames convencionais", disse Ana Catarina Simonetti. O resultado do diagnóstico por PCR em tempo real fica pronto em cerca de três horas.
Lesões no colo do útero facilitam o câncerAs lesões pré-cancerígenas de colo de útero podem estar associadas à infecção por Chlamydia. A conclusão é de uma pesquisa conduzida por Micheline de Lucena Oliveira, que também foi finalista do Prêmio Saúde. Segundo ela, a clamídia pode ser um co-fator, junto com o HPV, para o aparecimento de lesões precursoras de câncer de colo de útero. "O câncer é causado pelo HPV, mas a clamídia pode ser um facilitador para que o HPV possa provocar um dano maior às células", disse Micheline.
Antes do surgimento do tumor maligno, formam-se lesões no colo do útero que podem regredir espontaneamente ou não. A pesquisadora acredita que se a clamídia for tratada, o percentual de regressão espontânea pode ser maior, aumentando o número de mulheres que não chegarão a desenvolver um câncer. No estudo realizado por Micheline, a prevalência de infecção pela bactéria foi de 14,3% em mulheres sem alteração no colo de útero e de cerca de 80% naquelas com lesões pré-cancerígenas.
Saiba Mais- A clamídia é uma infecção causada pela bactéria Chlamydia trachomatis
- É uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns no mundo
- 70% das mulheres contaminadas não apresentam sintomas, mas quando eles aparecem pode haver corrimento parecido com clara de ovo no canal da urina e dor ao urinar
- Pode causar infecções graves, dor durante as relações sexuais, gravidez nas trompas (fora do útero), esterilidade e parto prematuro
- A forma de transmissão é sexual
- Nas mulheres grávidas infectadas, a doença pode causar conjuntivite e pneumonia no recém-nascido
Fontes: Ministério da Saúde, ABC da Saúde e especialistas ouvidos pelo Diario